13 de nov. de 2011

Arte e misticismo - Malagueta #20

Por Daniel Lopes

Os tempos são caóticos. Sempre foram. Todo ser humano, em sua própria época, tem essa sensação de fim e de mediocridade. É característico. O passado, o que não vivemos, tem de fato um sabor mais romântico; no fundo, entretanto, os ritos são os mesmos. O enredo é um só. Não existem dois. Mudam-se, se é que se muda, os atores e mais nada. A história se movimenta em círculos.

Objetividade é mito. Qualquer ciência, mesmo as ditas exatas, são subjetivas, por isso, só posso falar por mim. Meu foco é a Arte, mais especificamente a Literatura e, em alguns momentos, a pintura. O que sinto em relação, é que vivemos um retorno ao cientificismo racionalista do século XIX. Peguemos os escritores, só para exemplificar, a maioria deles, por não entender que estilo é ritmo, são econômicos. O ser humano, os personagens, são vistos como seres meramente biológicos. Qualquer espécie de construção psicológica ou poética mais profunda é analisada com desdém e atirada imediatamente ao limbo por críticos e escritores analfabetos. Literatura é investigação profunda da condição humana. Querem arrancar o literário da Literatura. Nada de novo sob o Sol. Allain Robbe-Grillet propôs a mesma coisa cinqüenta anos atrás. Um tédio.

Num cenário assim, o gosto pelo oculto e pelo místico é considerado a pior das aberrações. Como assim? – Eles gritam – Então este idiota não sabe que estamos no século XXI e que desvendamos códigos genéticos? E estamos a poucos passos de nos tornarmos imortais? E construímos maravilhas tecnológicas?

Sei. Conheço essa história. Entretanto, as maiores obras literárias e pictóricas do ocidente são impregnadas de misticismo. O trabalho de Shakespeare, centro do cânone ocidental, é repleto de feitiços, magias e fantasmas. Dante escreveu a Divina Comédia, não preciso dizer mais nada... E temos John Milton, com Paraíso Perdido... E temos Goethe com Fausto... E San Juan de la Cruz... E Whitman... E Pessoa... E Blake... E, no Brasil, Guimarães Rosa com a mais poderosa obra já produzida em nosso país, Grande Sertão: Veredas. Literatura e Religião são raízes que bebem do mesmo lençol freático. Quanto à pintura, vou dizer só alguns nomes para não me estender além da conta: Da Vinci... O próprio Blake... Odilon Redon... Dalí... Miró... Xul Solar e por aí vai.

- Mas estamos no século XXI! – Repetem, não se cansam nunca – E, com o desenvolvimento da ciência que temos hoje, não são mais críveis estes contos da carochinha e a ninguém fascina mais tantos Cristos, e ceias, e imagens sacras! Sei. Esses defensores da objetividade têm visão manca. Enxergam só um dos pólos da esfera. Imaginam o homem um fenômeno puramente biológico. Mas o homem, ao contrário do que acreditam esses darwinistas estrábicos, é um fenômeno biológico e cultural, conseqüência de formações neurológicas e psíquicas. Aliás, da análise do confronto entre essas forças antagônicas surgiu um dos melhores livros de Freud: O mal-estar na cultura.

Creio que o homem, da mesma maneira que carrega uma herança biológica e genética, também carrega, desde os tempos escuros das cavernas, uma imensa herança cultural e, ainda mais importante, psíquica. Tal herança habita as profundezas do ser, feito o magma nas profundezas do planeta. Justamente por ser tão profunda, não é objetiva ou racional, mas simbólica. A imagem do falcão tem a mesma representação nos rituais de índios norteamericanos e nas cerimônias dos esquimós da Sibéria. Jung chamou tal herança de inconsciente coletivo. Freud chamou de supereu. A maioria dos povos ditos primitivos chama apenas de mundo dos espíritos. Para Mikao Usui era a energia Reiki. Schopenhauer interpretou-a como uma Natureza mística, onde a espécie guarda a essência eterna, imutável, transcendente de todos os seres. Sinceramente, todos estão falando da mesma coisa.

O acesso a este mundo de símbolos se dá, de maneira individual, por meio dos sonhos e do consumo de certas drogas. No coletivo, os mitos, como percebeu Joseph Campbell, e certas obras de Arte tocam o mistério.

O que defendo é a Arte que seja uma mordida na carne desses símbolos. O que é uma metáfora afinal? O Artista feito médium. A técnica é só o princípio da caminhada. A Arte pulsa muito além do código.

A entrada do xamã no mundo dos espíritos se dá pela primeira vez no fim da infância e início da adolescência, normalmente depois de um evento traumático. René Magritte começou a pintar depois de encontrar, aos catorze anos, o cadáver da mãe que se suicidara no mar. Pintou pelo resto da vida mares e mulheres molhadas. Nada me tira da cabeça que aquele castelinho no topo da rocha flutuando sobre o mar é o lar que ele quis dar a mãe. Frida Kahlo começou a pintar depois do acidente que quase a matara. Uma de suas melhores telas é a coluna partida, reflexo do trauma que sofrera. É possível alguma analogia entre artistas assim e os jovens xamãs?

Voltemos à Literatura. Um escritor iniciante emular escritores consagrados é coisa normal, corriqueira. O que não consigo entender é a bajulação do Realismo e a premiação sistemática de autores que não passam de simulacros do Rubem Fonseca. Outra coisa que irrita é o foco exagerado na concisão em detrimento da profundidade. O problema não é o texto ser conciso, é a falta de profundidade. Grande parte dos microcontos que leio não me dizem coisa alguma. E isso é que é premiado, porque os juízes tacanhos também escrevem assim. Cá entre nós: uma tramoia imensa. Falam de twitter... facebook... etc, mas a forma é que deve estar a serviço da literatura e não o contrário.

Enfim, acho que já barulhei demais. Se posso dizer algo acertado, é o seguinte: sejam com William Blake, procurem ver através da janela e não com a janela. É preciso irromper do outro lado e trazer o mistério entre os dentes. Não é o caminho mais fácil, mas quem foi que disse que Arte tem algo a ver com facilidade?

Daniel Lopes é paulistano. Escreveu o romance É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança e o livro de contos Pianista Boxeador. Bloga em http://pianistaboxeador21.blogspot.com

8 comentários:

Anônimo disse...

Não são nem poderão somente ser quatro dedos... tem mais ...

Obrigado!!!

Alessandra Safra disse...

Daniel, ótima sua proposta e chamada para reflexão. Muito bom seu texto.

Assis de Mello disse...

Texto brilhante e oportuno para se iniciar debates com alunos de qualquer curso nas faculdades de ciências.

O pensamento estritamente cartesiano vivido nesses locais tem limitado a capacidade de expansão humana, tolhendo sua dimensão subjetiva e mantendo o indivíduo e a sociedade à qual pertence à mera condição orgânica e, eventualmente pior ainda- reduzida à física.

O homem não é apenas para caçar mamutes, cavar abrigos, estocar alimentos, reproduzir-se. Foi, a certa semelhança com a ave, também moldado para voar; à certa semelhança com o peixe, talhado para nadar; ou latejar como a medusa. Mas, com um cérebro tão grande e complexo, seu voar não é idêntico ao da ave, nem seu nado ao do peixe, nem...

O homem pode- e deve- e assim tem feito- (à revelia dos "defensores da objetividade") criar magia, encantamentos, cultura, crenças, fetiches, simbologias, coisas que tocam e expandem suas percepções, enriquece seu mundo e o enleva.

O homem é pluridimensional, mesmo que alguns não queiram. Comprimento, largura, altura e tempo lhe bastam. Ele vai muito além. Pobre Descartes, pobre mecânica clássica. Nem tudo foi lumme no iluminismo. No entanto, esse espírito ainda vaga e arrasta correntes pelos corredores da academia, reduzindo tudo ao que seus adeptos entendem por exato.

Viva a boa arte, a boa literatura, as formas de expressão que desafiam o modelo, que inovam, transcendem, furam a rocha e vão além.

Vilemar F. Costa disse...

Cara, maravilha de escrito... PARABÉNS!
Estou entorpecido por linhas tão cativantes e surpreendentes.
Com certeza, ao chegar seu livro por aqui em Fortaleza serei um dos primeirão a adquiri-lo
Vilemar
vilemarfc@gmail.com
http://sacodetextos.blogspot.com

Jane Cris disse...

Muito bom seu texto ...adorei.Parabéns.

pianistaboxeador21 disse...

Muito obrigado a todos pelos comentários. Acredito que este é um tema que deve ser discutido. Todas as críticas que vejo nos grandes veículos de comunicação são de ordem material, abordam apenas a superfície dos textos não as suas profundezas. Minha crítica ao cientificismo nem é pelo lado social, mas pelo lado artístico. A gente vê o tempo todo o menosprezo a qualquer ideia que não seja presa da imanência e dos sentidos, como se os sentidos fossem verdade e, mais que isso, a única verdade. Pra mim a Arte é o lugar da transcendência, o ens transcendens por excelência. Toda essa bajulação do que os budistas chamam de samsara, não é nova, mas como discutir que Arte vai muito além? Há como comparar os autores que citei no texto aos autores do naturalismo, a escola cientificista por excelência? Não sou radical, mas defendi esse ponto de vista, mais ligado ao dionisíaco e ao arrebatamento, por achar que a coisa esteja toda sob o domínio do outro pólo, apolíneo e racional por excelência.

pianistaboxeador21 disse...

Agradeço a todos mais uma vez pela leitura. Abraços e força quando parecer que estamos nos debatendo contra muros.

Anônimo disse...

Daniel, além de ótimo escritor, você é ótimo crítico. Escreva sempre, pois sempre aprendo com você.