27 de out. de 2011

Para além de devaneios literários



Devaneios literários (crônicas)
1ª edição
Autora: Mariana Collares
208 páginas
ISBN 9788580450385
Bookess

Por Geraldo Lima

Creio que ninguém mais, em sã consciência, considera a crônica um gênero menor. Querer, por exemplo, confrontá-la com o romance para justificar a superioridade deste em relação a ela já não cabe mais. Ela, como qualquer outro gênero literário, apresenta características próprias que lhe dão relevo e vitalidade. Dentre essas características que lhe dão vida própria, destaca-se o fato de ela tratar, geralmente, de assuntos circunstanciais, fazendo uso de uma linguagem leve, sem rebuscamentos. Foi assim que cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, para ficar só nesses dois mestres, deram à crônica o status de grande literatura. E é assim também que a escritora Mariana Collares procede no seu belo ‘Devaneios literários’, livro de crônicas publicado pela Bookess, em 2011.

O cronista deve ser, em primeiro lugar, um grande observador do cotidiano, percebendo aqueles detalhes que escapam à maioria dos mortais. Essa característica Mariana Collares apresenta com sobra. Ela tem um senso agudo de observação da vida cotidiana, e traduz isso em textos leves, mas que não deixam escapar a visão crítica e o senso de humor, dois ingredientes fundamentais na composição da crônica. Cito, para exemplificar o que acabo de dizer, duas crônicas presentes em ‘Devaneios literários’ (a primeira abre o livro e a segunda o fecha): “Notinhas do Fórum Social Mundial” e” Yoga para principiantes”.

Na primeira, em que predomina o diálogo, a autora nos mostra uma situação paradoxal: um freguês, participante do Fórum Social Mundial, entra em um restaurante e pede um chimarrão, mas é informado pelo garçom de que naquele estabelecimento não se vende tal produto. O espanto do freguês e a graça surgida a partir daí é porque a cena se dá em Porto Alegre. “– Mas como assim? Não estamos em Porto Alegre, a capital dos gaúchos, terra do chimarrão?”, indaga perplexo o freguês. E fica ainda mais perplexo ao descobrir que naquele estabelecimento, que deveria apresentar em seu cardápio primeiramente os produtos da região, não se vende nem cafezinho. “– Você quer dizer que estamos no Brasil e não tem nem café?”, escandaliza-se o participante do Fórum Social Mundial. (E aqui podemos perceber uma característica dos textos de Mariana e, obviamente, da sua personalidade: a coragem de expor situações e temas sem medo de desagradar os outros. Satiriza, como se pode observar nessa crônica e em outras, comportamentos próprios dos seus conterrâneos sem perder, no entanto, o senso de humor.) Na segunda crônica, bem curta, como que ouvimos uma voz dando as coordenadas de um exercício de yoga. É, sem dúvida, a voz da professora ou do professor de yoga. Não há, no texto, senão esses comandos ditados pela voz. E onde reside a graça dessa situação? Na ligação entre o título (Yoga para principiantes) e a última frase do texto: “Ai, meu Deus, desmaiou”. A autora nos leva, nesse caso, a preencher as lacunas deixadas pela voz que apenas orienta os exercícios de yoga. Logo, vemo-nos imaginando que tipo de pessoa seria aquela que acabou de desmaiar, ou que tipo de reação a cena teria provocado nos demais alunos, caso houvesse outros no recinto. Não há como não se deixar envolver pelo riso e pela imaginação.

Sabemos que o espaço privilegiado da crônica é o jornal. Por isso ela traz essa marca da precariedade das matérias jornalísticas. Segundo Jorge de Sá, no seu livro ‘A crônica’ (Editora Ática), “A aparência de simplicidade, portanto, não quer dizer desconhecimento das artimanhas artísticas. Ela decorre do fato de que a crônica surge primeiro no jornal, herdando a sua precariedade, esse seu lado efêmero de quem nasce no começo de uma leitura e morre antes que se acabe o dia...”. Mas quando o cronista resolve colocar em livro as crônicas publicadas anteriormente no jornal (hoje, podemos falar de blogs e sites também como espaços onde a crônica aparece em primeira mão, e é nesse espaço virtual que surgem as crônicas de Mariana Collares), a coisa muda de figura: o que se pretende, agora, é tornar mais duradouro o que se pretendia apenas transitório. É assim que devemos analisar o ‘Devaneios literários’ da gaúcha Mariana Collares. O livro fecha-se num conjunto de textos que ganham vida e fôlego para sobreviver para além do suporte no qual apareceram inicialmente. São textos marcados ora pela espontaneidade da narrativa sem firulas, ora pela poesia, pelo lirismo, ora pela reflexão mais aguda, mais tensa. A qualidade do livro reflete-se tanto no conteúdo das crônicas quanto na destreza com que a autora as molda. Faço apenas uma ressalva, e talvez aí entre um dado subjetivo: não me agrada o título usado pela autora. Lembra-me certos livros de péssima poesia e textos passadistas, sem nenhuma conexão com a literatura contemporânea, o que não é o caso desse belo livro de Mariana Collares.

2 comentários:

Anônimo disse...

Boa crônica é aquela que nos ilumina uma parte do dia. Você pega-a de manhã e sai com ela pelas ruas, admirando seu sabor. Deu vontade ler esse livro. Um abraço.
Marco Antonio Martire
@MarcoAMartire
http://obloguidomarco.blogspot.com/

paulo sergio disse...

O Bule: Para além de devaneios literários
www.o-bule.com ..
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Pg Sergio em.. Visão de leitor com ganho construído. Retratar fatos cotidianos, definitivamente não é para quem quer, quem pode faz. A idéia da superficialidade proposital logo naufraga, pois explora temas da vida como a significação de nossos atos e sent...imentos humanísticos, lançando bases para a crítica social, em textos curtos, divertidíssimos e reflexivos. A linguagem curta e direta da observadora, muito próxima do leitor, sugere cochicho aos ouvidos e acessibilidade ao entendimento e nos deixa longe da concisão e da pressa, recriando um cotidiano mágico à quem lê. Se um dia resolver-se às mudanças, nunca deixe para amanhã, se o hoje convida à isso! "Há alguém ouvindo", revela espírito inconformista com o mergulho da humanidade em torno da ingerência vivenciada e sua cruel mesquinhêz, sobretudo com o paramental silêncio, de que habituê as gentes, pavimentando caminhos sem retorno e desesperançados. "A incredulidade", que de repente pode lançar uma alma no vazio da indiferença, torna-a à mercê da sua própria desarmonia, convida ao retorno duro, sofrido, da credulidade, confiando no giro perfeito da engrenagem que faz seu percurso naturalmente, creia eu ou não..prefira crer. A crítica do mundo veloz, atropelante e seletivo, num invólucro robotizado e frio do "saco" do "0 800", ridiculamente idiotizante enfiado goela abaixo dos cidadãos, obrigados à esse convívio indesejado, humilhante, estressante e moroso, que só faz produzir confusão mental, não fosse isso tragicômico, nos causa sensações de impotência total. Também encontramos ternura, amor, saudade e respeito revelado em "O sapo Cururu", que faz repensar, redimensionar posicionamentos familiares, a fim de mágoas não se interponham e arrependimentos futuros tornem a vida um desastre. O incongruente e inconcluso universo masculino parece chocar um pouco a autora, mas nada sério que possa desestabilizar o universo adônico, pois deve ser encarado pelo lado da natureza dos gêneros, #fato, e não é um ser pensante em tempo integral mesmo!.. contudo prático. "Differences" continuarão latentes até ser encontrado um "timing" satisfatório e aceitável para relativa harmonia..e viva as diferenças! Os textos trabalham valores sem propriamente confinar o leitor em um só ponto de vista, e ele, somente ele, possui a chave, que é pessoal e intransferível para decidir-se; afasta-se de fórmulas prontas e milagrosas, que pouco contribuem para o "I.D.H" de quem Devaneia com Mariana. Ouso mencionar, que o trabalho cumpre satisfatoriamente a função social da linguagem, que para um país como o Brasil, é ultra importante, até contrariando tendências literárias descompromissadas com a figura do leitor, que muitas vezes fica à deriva no mar da literatura nacional. Faz diferença isso! É preciso apreciar e aproveitar portas que são abertas e franqueadas, a fim de que haja crescimento e perspectiva de melhorar em todos os sentidos, e muito melhor se ô for com humor, amor, ironia, emoção, paixão, ideologia, leveza e naturalidade..sem medo de ser feliz!:))