2 de nov. de 2011

Finados

Psicografado por Ricardo Novais

Fui ao enterro. Não retornei à vida, fui ao enterro de mim mesmo. O leitor acharia muita graça no cortejo; a morte reduz os homens, todos carregando seus próprios cadáveres às costas. Aquele foi meu momento, momento derradeiro. Mas isto não é natural, nem grave; como querem os teóricos do fim. É acidente. A conservação do mundo depende da necessidade de ter o vazio ocupando o espaço da eternidade.

Todo o respeito que me faltou em vida me veio após o falecimento; na presença de meu corpo morto, luto circunstante, círios lúgubres e venerados, cantochão clarividente, orações fúnebres, duas velas enormes lançando a chama irônica da vida, esquife bem escolhido, féretro que sustentaram meus restos mortais quase podres, panos roxos que disfarçaram o cristão que não fui; réquiem do inferno, lágrimas e risinhos aos cantos, sepultamento em campo santo, suntuosa cova, catacumba, túmulo, tumba, sarcófago, jazigo, mausoléu – ah! O diabo que carregue! Por fim, dizeres pomposos gravados no epitáfio: Porra! Última morada.

Graças ao bom Deus conheço a morte. O estimado amigo e a minha tão querida amiga, a lerem este fluido de vida, não podem sentir o gosto sujo da morte. Não riam! Eu posso. Garanto que é amargo, mas não é de todo desagradável; tem gosto de café sem açúcar. Senti também, bem íntimo, o aroma da bajulação ao meu cadáver, em velório, em dia de finados, em dia de sol e chuva; e os desgraçados fazendo piadinhas a amenizar a dor... Dor? Dor! Já vi tanta revolta contra a morte. Pobre morte! O que tem ela a ver com o sofrimento dos homens? Não culpem a morte. Ela apenas cumpre o seu papel, de vir buscar a alma; como o coveiro cumpre o dele, de enterrar o morto até a última pá de terra; as mulheres também têm seu ofício, de chorar ao velório; assim como os homens, que têm por obrigação discursar sobre e sob o cadáver alheio.

- Que será de mim e de meus filhos, meu Deus? Esse filho da puta só me deixou dívidas e umas porcarias de livros cheios de traças – foi este o lamento de minha querida viuvinha ao deparar-se com minha perda, doce e sensível entre a detestável mãe e o padre que não me deu a extrema-unção por falta de dinheiro. Ah, pro diabo, padre do caralho! E Mariana já se encontrava viúva antes de minha morte. Que a violência de seus amantes lhe seja leve!

Não se horrorize tanto, leitor. Mas conto tudo agora, a absoluta verdade, pois a morte desmancha a última máscara da vaidade, como sabe a dona leitora. Caro amigo, fui o mais feio, monstruoso e horrendo cadáver; jamais desejado ser visto. Não tive forma nem figura humana. Conservaram-me coberto em vagabundo caixão de vime, lacrado; e no mesmo dia sepultaram-me, quase clandestinamente, pelo temor. Fui à cucuia. Lembra-se de como descrevi há pouco meu funeral? Como não?! Deixe de preguiça, meu amigo, que no além-mundo já há tédio infinito. Coragem! Torne aí umas poucas linhas e releia-o! O velório não teve a pompa que escrevi no começo do texto, nem vieram tantas visitas em dias santos ou domingos. E, no entanto, ao cerrar os olhos, um homem negro e mal vestido proferiu uma frase à minha podridão:

- Que Deus o receba entre os seus!

Nesta estação descobri a beleza, não a bondade, escondida; como a aranha que tece sua fria teia nos cantos do coração, e cria obra sublime! O homem preto disse ainda, desta feita bêbado, no dia de finados:

- A vida vale a pena!

Tal felicidade que senti ao saber que a vida vale a pena compensa todo o esforço que faço agora para escrever este texto enfadonho aqui do além-mundo. Digo-lhe, leitor, com autoridade de morto, morto de letra morta, que abra a janela; logo pela manhã o céu é azul e claro, e à noite é deslumbrante e estrelado. Venha à chuva lavar a alma, num turbilhão de angústias imersas, até que o sol lhe distraia, perigosamente. Devagar, iluminado, confuso, acidente demasiado existencial. Se a vida e a morte não são contrárias, mas são irmãs, aceito velejar à imortalidade. Que seja minha vida de morto! Deixo-me sorrir, sinto que a triste resignação quer dizer somente: há.

Súbito, um anjo alado devolve-me o sorriso perdido. Sutilmente.

3 comentários:

Christiane Angelotti disse...

Muito Bom, Ricardo! Valeu passar por aqui e me deparar com um texto bacana.
Abração,
Chris

Anônimo disse...

Valia a pena descrever os personagens de tão intranquilo funeral. Precisava vir o anjo? Poderia ter sorrido sozinho e, ainda sim, por quê?
Marco Antonio Martire
@MarcoAMartire
http://obloguidomarco.blogspot.com/

Parreira disse...

Gostei da psicografia!