24 de out. de 2011

e-Oficina para novos escritores: Venda casada

Por Paula Cajaty

Nos seus sonhos mais inconfessáveis, você achou que todos se ajoelhariam aos seus pés, reverenciando a genialidade da sua obra.

Imaginou a livraria lotada, os flashes, os jornalistas cobrindo tudo, os críticos lendo o seu livro direto na fila. Imaginou a roupa mais exclusiva, o seu lançamento como o happening mais charmoso da cidade.

Bem, isso tudo pode até acontecer. Mas vem com alguns aborrecimentos. A venda, nesse caso, é casada - o pacote vem completo.

Isso porque, ainda que você saiba escrever, você precisa aprender a conviver em um novo ambiente de trabalho e produção.

Da mesma forma que uma bailarina, sozinha, por melhor que dance, não executa o Lago dos Cisnes, dificilmente você conseguirá ter êxito se não aprender a se relacionar, a criar um espírito de equipe com seus colaboradores, e sobretudo, se não aprender
a aceitar os erros dos outros.

Sim, o editor erra, a equipe da divulgação erra, o revisor erra, o tradutor erra, até o agente erra. O pessoal da livraria pega no pé com a sua vontade de servir espumante na taça de cristal. O dj do som ambiente atrasa. A recepcionista do seu evento troca as bolas. Os jornalistas escrevem seu nome errado no jornal. O seu amigo não lê seu livro mas diz que leu e se enrola um pouco quando você faz uma pergunta sobre um detalhe da história, e a amiga da sua tia, na mesa de lançamento, já pergunta sobre o seu "próximo" livro.

Há um sem-número de tarefas que, além de escrever (o que você dá conta sozinho, custe o que custar), são realizados por outras pessoas. Há um sem-número de interações possíveis com seus amigos e conhecidos. E, se escritores são extremamente auto-exigentes consigo mesmos - e não raro são perfeccionistas, o que é incentivado pela natureza do trabalho diário com o texto - lidar com o erro e a inadequação alheias pode se tornar, por vezes, insuportável.

Então, a flexibilidade com uma felicidade à la Poliana é a melhor receita para você curtir o máximo possível todas essas experiências.

Por mais difícil que seja, o escritor deve aprender a exercer o rigor apenas no texto. E, sobretudo, deve aprender a dar mais risadas. Como um adolescente de 13 anos faria. Dar risada das suas próprias saias-justas. Lembrar de quando era um pouco mais jovem e 'passar perrengue' era algo memorável e certeza de diversão futura. Então, se alguém derrubar vinho na sua roupa justo na sua grande noite, trocar o 'ai meu Deus' e o corre-corre atrás de água morna pela leveza singela de um 'ah, tudo bem' pode ser a receita infalível para continuar escrevendo.


>>> Leia o nono texto da e-Oficina, O lançamento, AQUI.

Paula Cajaty - escritora, formada em Direito e em Publishing Management na FGV. Em parceria com sites, blogs, editoras e agências literárias, produz o Boletim Leituras para mais de 4 mil leitores, prestando serviços de leitura crítica, consultoria em marketing e produção editorial e literária através de seu site http://www.paulacajaty.com/ Autora de Afrodite in verso (7Letras, 2008) e Sexo, tempo e poesia (7Letras, 2010).

2 comentários:

josé roberto balestra disse...

Paula, você é mesmo já uma mestra nessa arte da edição! Admiro-a muito. Tenho 59 anos e nessa altura do (des-)campeonato, mesmo sem nenhum livro publicado, já aprendi a ouvi-la.

Creio que a única vantagem de "correr o risco" de se ver publicado a qualquer hora nessa minha idade, é que a gente já "escreve casado": o soro antiofídico sai é do veneno da cobra, sendo o cavalo mero veículo.

bjs


P.S.: Paula, permita-me uma sugestão de leitura dum conto meu. Aqui: http://zerobertoballestra.blogspot.com/2011/10/sarcide-e-os-cobres-dos-dentes.html

Unknown disse...

Olá.
Adorei o texto e indiquei para vários amigos que escrevem (assim como eu próprio escrevo) e que desejam ter seus textos um dia publicados. Achei seu texto limpo, direto e muito, muito estimulante. Congratulações e obrigado!