12 de out. de 2011

Dona morte, suave e terna

Por Geraldo Lima

Sorte encontrá-lo ali, tão quieto, acomodado na cadeira de balanço, entregue à leitura do texto sagrado. Quantas vezes já conseguira enganá-la? Por várias vezes quase lhe congelara a alma, mas o que parecia impossível, possível se tornava: ileso, absurdamente vivo, safava-se das situações mais incríveis. Nem mesmo o tempo conseguira corromper sua pele negra, seus nervos, sua memória admirável.

Atravessaram décadas assim, nesse jogo de xadrez interminável. Agora, ei-lo ali, grisalho, displicente, quem sabe, aguardando enfim o xeque-mate.

Com que cuidado ela definiu a partida! No rosto dele, a mesma expressão serena, sem vinco. No seu abraço possessivo, poupou-lhe até mesmo a camisa de seda: sem espasmos, sem os alaridos do vermelho. Quase maternal o modo com que o colocou para dormir na eternidade.

Do livro de minicontos 'Tesselário', Selo 3 x 4, Editora Multifoco.

4 comentários:

Parreira disse...

O abraço eterno e tranquilo.

Anônimo disse...

Poético, sublime.

_ disse...

Muito bom, Geraldo! Denso e leve, parabéns!

Geraldo Lima disse...

Minha gente, grato pelo comentário de todos. Um abração!