20 de out. de 2011

Algumas garrafas de vinho

Por Marcello Fiore

Decidiram que era hora de uma garrafa de vinho. Há tempos insistiam em ir ao restaurante japonês tomar a mesma garrafa de saquê que sempre tomaram, mesmo antes da briga que os separou por algum tempo.

Estava na hora de uma garrafa de vinho. Quase uma evolução depois de dizerem se odiar mutuamente. Passionais. Decidiram pela garrafa de vinho, pois há alguns sushis atrás já não se provocavam a ponto do castigo permanecer por semanas. Fora que tomar uma garrafa de vinho era sempre legal, além de deixar as pessoas felizes.

Jamais pararam de se ver, mas entre fases mais difíceis na convivência davam-se castigos silenciosos. Não se comportavam um com o outro, ficavam de castigo deles mesmos por algumas semanas. Melhor, já tinham chegado há meses tempos atrás.

Estavam aprendendo a conviver depois de já terem sido melhores amigos, um casal e logo em seguida quase se matarem. As marcas das unhas dela ainda estavam na pele dele. As das palavras dele na cabeça dela. Mas gostavam da presença física um do outro. Da companhia. Então decidiram aprender a conviver.

Sim, coisa de maluco esses dois e por isso foram à garrafa de vinho que sabiam, não ia ser uma, duas, e talvez mais um ou dois copos. Estavam alegres. Haviam se provocado no caminho, mas foram inteligentes a ponto de perceber que uma discussão ali não valeria a pena. Era mais legal sair para o vinho.

Ele foi deixá-la no apartamento. Um prédio recém-reformado do centro da cidade. Subiu com ela e no elevador ele roubou um beijo. Ela sem cena ainda disse não, mas ele com toda delicadeza de um Gorila fez que não ouviu. Riram, e ele ainda disse:

­ – Tudo bem, amanhã você não vai lembrar disso mesmo...

Riram mais.

A porta do elevador se abriu e ela saiu. Ainda demorou um pouco para a porta fechar e ele ouviu o grito dela pedindo socorro para achar a chave de casa. Foi ajudar, e foi a vez dela roubar um beijo. Competitiva e feminista, não podia ficar para trás. Não se renderia. Precisava mostrar atitude. Com raiva, ela também precisava roubar um beijo.

No meio do corredor, entre a porta da casa dela e o elevador dele, línguas se entrelaçaram e corpos se amassaram por quanto tempo não se tem a menor ideia, afinal o vinho em certa quantidade deixa as pessoas sem muita noção de tempo. Um beijo de fato, afinal ela não podia ficar pra trás, e então disse:

–Tudo bem, eu não vou lembrar disso amanhã...

Riram muito, claro, afinal, no mundo deles isso era engraçado. Ele sabia que era hora de ir embora, e foi para o seu elevador. Ela para a porta do apartamento.

– Do próximo eu quero lembrar viu?!

– OK! Da próxima vez só uma garrafa de saquê!

Assim a porta do elevador fechou, a porta do apartamento se abriu, e eles riram copiosamente, porque descobriram de novo que uma garrafa de vinho deixa as pessoas felizes, mas duas, e talvez mais um ou dois copos deixam as pessoas felizes ainda mais felizes.

Eu sabia essa história aos detalhes. Cada movimento dela, cada sorriso dele. Ouvi a mesma versão repetida por todos os oito anos, nove meses e dezessete dias que fomos vizinhos, até ela se mudar. Conheci o casal e acompanhei cada dia que ela esperou pela volta dele, que morreu aquela noite com um tiro no peito, disparado pela esposa que o aguardava ao lado do carro estacionado num beco, com um trinta e oito numa mão, e uma garrafa de vinho na outra.


Marcello Fiore - Músico, escritor com tendências filosóficas, jogador de rugby, apaixonado por bikes, corrida e obviamente diagnosticado hiperativo e ansioso... Bloga em http://marcellofiore.blogspot.com

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