27 de set. de 2011

Retirada da Laguna

Por Geraldo Lima

ATO Nº 1.

Sabe que é hora de recuar, dizer adeus aos bons momentos, cerrar as cortinas e retirar-se para a penumbra. Outras vozes ressoam nos bastidores. A arena já não lhes pertence mais: o movimento irrefreável das massas avança sob o comando dos velhos líderes. Tudo isso vai se juntar aos mil motivos que ele apresentará a Helena, daqui a pouco, para justificar sua decisão de romper com ela. Quando chegar ao apartamento, onde sempre se encontraram alheios a toda essa agitação que toma as ruas e as praças, o discurso já estará pronto.
Ela sentirá o golpe. As primeiras palavras vão atingi-la como uma rajada de metralhadora. O sangue, indo em defesa de outros órgãos, deixará seu rosto exposto à palidez cadavérica. Dominado pelo nervosismo, pela angústia, talvez lhe falte tato ao revelar-lhe a sua decisão. Não há dúvida de que ela vai chorar, e copiosamente. Afinal, durante todo esse tempo, ele alimentou suas esperanças de viverem juntos, viajarem, terem filhos. Pode antever as lágrimas deslizando rente ao nariz, remansando-se no canto da boca borrada de vermelho, formando minúsculas poças junto aos pés. Os lábios trêmulos, úmidos, deformam parte do que ela balbucia, mesmo assim é possível capturar filetes de frases como, — Não posso acreditar nisso//... a nossa história?/ o que isso tem a ver com coragem?/ te esperei ontem, anteontem.../ ...que estou sofrendo. Talvez nesse momento, comovido pelo tom do seu discurso, ele a abrace forte, e ela, em desespero, aperte-o como se quisesse colar o seu corpo ao dele para sempre.
Alguma coisa vai se partir dentro dele, irremediável. Porém, duro e seco, ocultará a miríade de cacos no mais profundo do seu ser.

ATO Nº 2.

Entre os Ministérios, com o Congresso às suas costas, a Bandeira Nacional tremulando bem alto, como se tocasse as nuvens, a Torre de TV à sua frente, apontando o infinito, o major Diogo Fontes dirige o carro sem pressa alguma. Pudesse, retardaria indefinidamente o encontro. O sofrimento. A tortura das palavras nos labirintos da alma. O vidro do olhar embaçado, prestes a romper-se sob a pressão das lágrimas. Procura, há horas, ordenar as idéias, dar-lhes uma certa consistência, alinhar os argumentos sem deixar brechas para os contra-argumentos. Não quer demonstrar nervosismo, fragilidade, menos ainda rudeza, por isso tenta vestir cada palavra com traje delicado, bem engomado (a farda de corte preciso), para que, assim que escape da trincheira dos lábios, atinja o alvo nos pontos vitais, indolor, encerrando enfim a história (o embate) sem deixar vestígio algum de mágoa, nenhum desejo de vingança. Quer evitar lágrimas, prantos copiosos. Será preciso fazê-la entender que isso será o melhor para ela. Nem está pensando nele, dirá, e espera que isso a reconforte. Se, porventura, ela se atirar nos seus braços, implorando-lhe que fique, que esqueça tudo o que lhe disse, — Três anos, acha que foi brincadeira? — talvez lhe falte forças para prosseguir, para lhe virar as costas e ir embora. A melhor estratégia talvez seja esta: ser incisivo, impiedoso até. Uma lâmina de corte preciso e fulminante. Ao se retirar do campo de batalha, não pretende olhar para trás, para que não seja surpreendido pelo remorso nem pela ternura que se esvai.
Quando bater a porta às suas costas, ela entenderá enfim que tudo acabou, e sua alma de porcelana, oprimida ao extremo, se fragmentará por inteiro.


ATO Nº 3.

Hora de esvaziar as gavetas, rasgar papéis, apagar vestígios. Parece uma retirada tranquila, sem alardes, sem feridos, sem afogados nem coléricos abandonados pelo caminho, mas toda essa calmaria é falsa: esconde em sua brisa a tempestade e o pânico. Foram longos anos onde a força e o silêncio imperaram. Mas a ternura (e ele nem sabe como isso pôde acontecer, nem esperava mais por algo assim, tão inefável) também conseguiu brotar nessa dureza toda: três anos na clandestinidade alimentando uma relação que ele, desde o princípio, sabia fadada ao fracasso.
Sentirá saudades da sala de onde se vê parte da Praça dos Três Poderes, do conforto da cadeira executiva em couro natural, da mesa sempre coberta de pastas com recortes de jornais, dos subordinados, civis e militares, ainda que pouco ou nada saiba da vida deles. Horas a fio ali, sozinho, sentindo-se quase inútil. Quando estiver longe, servindo talvez em outro estado, tem certeza de que será sempre visitado pela imagem dos longos corredores do Anexo do Palácio do Planalto. Ali, às cinco da tarde, seus passos, por várias vezes, ressoaram afoitos, acossados pelo desejo e pela saudade dos carinhos de Helena. Era impossível resistir. Então, como um desertor, abandonava o seu posto e, numa fuga desesperada, buscava o conforto dos braços da amante. Quantas vezes atravessou o corredor de ministérios sob a vermelhidão de um crepúsculo sanguíneo, inesquecível? Quantas vezes teve de inventar histórias, reuniões de emergência, secretas, para justificar a chegada sempre tarde em casa? Quantas viagens a serviço servindo de álibi para as noites e dias passados longe de casa. Quanto desgaste, para que tudo acabe assim, burocrático, rancoroso, melancólico. E o pior ainda estará por vir. Quem poderá garantir que toda essa história vai acabar assim, sem maiores problemas, com simples palavras, pedidos de desculpas, apertos de mãos?
Nem pode imaginar como será o dia de amanhã. Uma porta se fecha, outra porta se abre. Quando chegar cedo em casa hoje, sentar-se no sofá para assistir televisão ao lado da esposa, talvez possa experimentar um pouco de alívio como há muito tempo não tem experimentado. É o que deseja. É o que o seu corpo e a sua alma reclamam. Mas talvez não seja tão simples assim, já que os sentimentos, mergulhados ainda nas profundezas abissais, esmurram-lhe o peito e arranham-lhe a alma em desespero. E o mais provável é que a dor e a tristeza, sem querer lhe dar trégua, aniquilem de vez sua vontade de renúncia e sossego.


ATO Nº 4.

Poderia ter resolvido tudo por telefone. Isso evitaria o desgaste maior de vê-la sofrendo ou acusando-o de covardia. Já havia deixado alguma coisa subentendida no último telefonema, mas achou que seria muita falta de consideração simplesmente dizer-lhe, — Olha, decidi acabar tudo, é melhor para nós, as coisas estão mudando... — Que coisas?!, ouviria a sua voz estrangulada do outro lado. — O que você está querendo me dizer e não diz logo? Por que não acaba com esse tormento?!
Não, não, seria muito cruel resolver tudo assim, a distância. Afinal, são três longos anos. Tanta coisa boa aconteceu entre eles, mesmo que misturada sempre ao gosto amargo da coisa feita clandestinamente, sob a camuflagem da mentira. Seria preciso lhe dizer que o poder está mudando de mãos, que eles, os militares, deverão retornar aos quartéis, ao comando das tropas. E ele nem sabia ainda qual seria o seu destino, — Posso ser mandado para longe daqui, para o interior, para o meio da mata, você sabia? — Eu vou com você, ela retrucaria, firme, comovente. — Não vale a pena, nosso amor não sobreviveria a isso. — Então nunca foi amor!, ela quase gritaria. — Talvez nem seja mesmo, nunca tivemos tempo de colocá-lo à prova. — Você está sendo covarde. — Pense, não demora muito e estarei velho, você é ainda tão jovem, pra que desperdiçar sua vida assim? — Você está jogando no lixo tudo o que vivemos, isso é crueldade. — Há outras razões que justificam tudo isso. — Nada pode justificar o que você está fazendo.
Os dois sangrariam nesse momento. A fadiga quase os aniquila. O major sabe que essa luta é vã, que Helena não entenderá, nem aceitará seus argumentos. Mesmo assim é preciso lhe dizer com ênfase, com frieza, — Olha, meu amor, meu sogro é um general da reserva, foi um dos conspiradores do golpe, esteve lá, na Marcha da Família com Deus, pela Liberdade, e isso aqui pra ele é execrável, inconcebível... — Você já me disse isso, não precisa repetir. — Mas estou dizendo de novo para ver se você entende por que estou acabando tudo! Nesse momento, sua garganta estará seca, quase trincando, e as palavras, por conta do atrito, sairão com mais dificuldade, quase o sufocando. Urge, no entanto, retomar o discurso, ser rápido, não permitir que o coração assuma o comando, — É ele que tem ajeitado as coisas pra mim, e ele pode tanto ajeitar quanto entravar. Você entende? Ela está atônita, pedindo para que ele pare. — Pensa, acha que quero estacionar nessa patente, como um simples major, se posso ainda almejar um posto mais elevado? — Ambição, é só isso o que te importa gora. — Que seja, mas não sei se poderia viver sem isso, se o nosso amor sobreviveria sem isso. Tenta adivinhar como estariam os olhos dela nesse momento. Estariam mergulhados na tristeza, na decepção profunda, ou flamejariam de raiva, de ódio? Provavelmente ela daria uns dois passos para trás e balançaria a cabeça perplexa, como se ele estivesse se dissolvendo diante dela. Já não reconhecia nele o homem que a carregava nos braços até a cama e a cobria de palavras ternas, apaixonadas, como um jovem capturado pela primeira paixão de sua vida.
O céu, de um azul gritante, sereno, contrasta com a tempestade que lhe agita o íntimo. Do apartamento, pode-se avistar uma nesga do Lago Paranoá, e por várias vezes os dois ficaram na sacada contemplando esse horizonte líquido. A grama seca, a fumaça e a baixa umidade revelam os incômodos do inverno. Lembra-se de que Helena tem problema de rinite, e, entre os vários planos que traçaram, estava o de irem embora de Brasília por causa do seu clima terrível.
Enquanto se aproxima, sente como se o Sol escapasse-lhe das mãos.

ATO Nº 05.

A porta está aberta, generosa como sempre, porém, preso ao piso, o major Diogo Fontes reluta em entrar. Teme ultrapassar essa fronteira e nunca mais encontrar o caminho de volta. O coração se abalaria de vez dentro desse ambiente de ternura e expectativa. Do lado de dentro, todas as armas estão com a amante: o cheiro, a voz, o toque das mãos, o corpo de pele morena dentro do vestidinho de alça, decotado, deixando exposta parte dos seios. Ele tem tudo ensaiado, a razão no comando, mas está tão impregnado dessa mulher, do que ela pensa e exala, que... — A experiência do amor, esse ao qual se renuncia, é dolorosa, incurável, mas esse é o que fica encravado dentro, eterno. Ia dizer isso a ela, mas.
Ela lê no rosto dele, sem muito esforço, o que mais temia: a carta-renúncia, o bilhete de suicida, as garatujas de desespero. O texto agônico está exposto lá, feito uma chaga. Se tudo já está dito, então. Queria não chorar, mas as lágrimas não lhe obedecem. Ele queria dizer tudo de uma vez, num jato só, mas as palavras desertaram.
O silêncio os aprisiona e os petrifica.

Texto publicado, originalmente, na revista Germina Literatura

5 comentários:

Giovani Iemini disse...

pura literatura.

Paulo Laurindo disse...

Embora discorde do caráter do major e o seu dilema amoroso (é possível que haja verossimilhança porém não deixa de ser folhetinesco)não posso deixar de exaltar a maneira como você narra, o método de entregar, bocado a bocado, o enredo. Exemplar e excelente também pela ambientação.

Parreira disse...

Geraldo e os abismos da alma. Tempestade de facas.

Geraldo Lima disse...

Giovani e Parreira, grato pelo comentário. Um abração, meus caros!

Geraldo Lima disse...

Certo, Paulo. O risco é este: colocar no centro do drama um tipo tão suspeito e pragmático quanto o major Diogo.Gosto de correr esse risco. Seu comentário vai sempre ao cerne da questão, meu caro. Muito obrigado.