30 de set. de 2011

‘O diário da queda’ e a inviabilidade da experiência humana


Por Édio Pullig

Nos últimos anos, a literatura brasileira passou por um momento de efervescência. Basta consultarmos as mídias sociais, as publicações especializadas, ou simplesmente, irmos às livrarias, para confirmarmos os múltiplos títulos que são lançados diariamente.

Neste contexto, destacamos o escritor gaúcho, hoje radicado em São Paulo, Michel Laub, que publicou recentemente seu mais novo romance, O diário da queda. Trata-se de uma história, narrada em primeira pessoa (a fim de dar maior credibilidade ao que é dito, segundo palavras do próprio autor), cujo personagem central é um homem de aproximadamente quarenta anos, de origem judaica (tendo em vista que a condição judaica não é uma condição apenas espiritual, mas também cultural e política), que busca revisitar memórias de sua juventude, tendo como temas centrais a identidade, a memória, o judaísmo, o afeto e a perda. A obra é um acerto de contas de três gerações (avô, pai e filho), em que, curiosamente, nenhuma personagem possui nome.

Estruturado em fragmentos, em que a tradicional linearidade e as ações perderam espaço para a introspecção, mergulhamos no interior desses personagens, nas suas reminiscências, angústias e fraquezas. Em um último suspiro daquele que aprendeu a não demonstrar seus sofrimentos, o narrador (o filho) passa a acreditar na viabilidade existencial do Homem, abandonando de vez a ideia da “inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares [...]”.

Segundo Laub, um dos grandes desafios da publicação foi tratar de um assunto – Campos de Concentração – tão revisitado por gerações de jornalistas, historiadores, filósofos, artistas etc, sem cair no lugar comum. Em outras palavras, escrever sobre um tema tão falado, fazer com que o leitor sinta algum tipo de sofrimento que já foi tão reiterado, sem ser repetitivo, foi um obstáculo a ser vencido, durante a escrita do livro.

Diário da queda, a meu ver, pode ser considerado o grande lançamento do ano. Uma história humana, narrada com extrema sensibilidade, mas, concomitantemente, brutal. Este romance demonstra, claramente, que a literatura brasileira contemporânea está viva.

Até o presente momento, Michel Laub publicou cinco obras, todas pela editora Companhia das Letras, e tem se dedicados a ministrar cursos de oficina literária, para além de coordenar um dos setores do Instituto Moreira Salles.

Abre aspas

A inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares sempre foi um conceito à disposição do meu pai. Ninguém mais que ele poderia ter se agarrado a isso para justificar toda e qualquer atitude ao longo da vida: ele poderia ter sido o pior patrão e o pior amigo e o pior marido porque aos catorze anos se defrontou com esse conceito, diante do meu avô caído sobre a escrivaninha, e então a briga que tivemos quando decidi mudar de escola [...] meus três casamentos e ao dia que dei a notícia de Alzheimer poderiam ter sido diferentes, e neste momento eu estaria falando dele porque já o teria julgado desde sempre, e assim como ele em relação ao meu avô eu não teria nada a dizer a seu favor, e assim como ele ao meu avô eu não teria nenhum carinho ou empatia, e jamais teria me sentido como um filho se sente em relação ao pai se que precise dizer ou explicar alguma coisa.


Édio Pullig é graduado em história e pós-graduando em editoração. Atualmente trabalha como assistente editorial no Rio de Janeiro. É, também, guitarrista nas horas livres.

3 comentários:

Chris Araújo Angelotti disse...

Amei a resenha e vou comprar o livro, ou melhor ganhar :)

Fiquei pensando, por que o Laub não está concorrendo ao Jabuti? vai enteder...

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Realmente, Chris, um absurdo ele estar fora do Jabuti. Vai entender... [2]

josé roberto balestra disse...

Precisamos criar o "Prêmio JaBOTA"; bota esse também, e mais esse, e mais esse... e assim escapamos dos grilhões de certos dedos jabutinos.