21 de set. de 2011

Noite de cordel

Por Marcia Barbieri

Nada me satisfaz mais do que escarrar no asfalto quente, ver a saliva borbulhar e depois desaparecer numa espécie vulgar de sublimação. Eu diria que o paraíso tem a cor e o tempo de uma escarrada. Não sou um homem discreto, é fácil me encontrar, é só seguir os rastros. Não sou tuberculoso, tenho pulmão forte. Ana costuma dizer que sou nojento, que deveria aprender a me comportar feito homem. Admito que isso soa bem contraditório, viver feito homem. Por isso ninguém te respeita, vive à margem, um hóspede da sarjeta. Qualquer dia acaba expelindo a alma por engano, se é que ainda tem alguma. Dou risada, gosto dos seus discursos vazios, gosto dos seus olhos pequenos olhando nos meus olhos pequenos na hora do gozo, me agrada o som dos seus grunhidos. Desde que nos conhecemos Ana procura alguém. Inconveniente grita. Eco nos meus ouvidos. Sabe aquelas caixinhas surpresas da infância que prometem maravilhas? Olhamos, desejamos, flertamos, quando finalmente conseguimos o objeto cobiçado, balançamos para aumentar o suspense, quando abrimos e colocamos na palma da mão é algo tão leve, tão menor do que imaginávamos. Então esmagamos com os dedos a surpresa e ficamos apenas com a caixa vazia. Há quarenta anos trago no bolso minha caixa vazia. Ana não se apavore, pode bater no meu tórax, é som de madeira oca, já veio assim, eu juro. Minha mãe costumava dizer que era defeito de Deus. Eu achava que era meu mesmo e continuei. Ana não se zangue, não fique furiosa comigo, minha língua tem vontade própria, fala, se cala e dá nó e se esparrama melancia doce vermelha no seu clitóris. Não me mate, não me leve adormecido galinha de macumba pra encruzilhada. Sou religioso. Acredito nessa espécie branca e santificada de nada absoluto depois da morte. Meu ventre não está recheado nem de vísceras nem de sonhos. Estou entre o etéreo, o abstrato e o material. Tente me estripar e verá, sou como aqueles bonecos, qualquer mão me move, me encena. Um anjo mau comendo o seu..., melhor não expor suas intimidades. Esses escarros, às vezes, se soltam de mim, você sabe... eu não escolho, o mundo é perverso, tenho sido mais alvo que atirador. Mas queria que fosse você, queria que colocasse a mão por dentro de mim e me encenasse, talvez um teatro do absurdo seja bem apropriado, não sei ao certo... me diga você. Não espere muito minha cara é de cera. E qualquer marra ela se desfaz. Não se aborreça comigo Ana, você é bonita, tem jeito de moça puta, eu gosto. Vamos logo, vamos Ana, abra as pernas, quero meter minha boca aí, aí mesmo, no buraco que está tampando. Sou rato Ana, gosto de me enfiar nessas frestas mal cheirosas. Se não quer não fique aí se exibindo pra mim. Olhando você e olhando meu oco fico pensando: essa noite tá parecendo poema de cordel. Bonita rimada simples assim. Vem logo Ana, se não quer me dar me bate uma punheta porque me distrai, meu gozo é a memória diluída do meu fracasso.

6 comentários:

Anônimo disse...

Por um instante achei que você tinha ousado fora da sua linguagem e ainda penso isso, mesmo tendo os seus "elementos de praxe". Ele se contém! e é nisso que está a beleza do conto. E ele se contém pela pseudo-castidade de Ana. Tão simples, tão direto e ainda com imagens...
Parabéns!

Maíra F. disse...

Sensacional. Meu deus, como eu gosto dos teus textos, Marcia! Fico sem ter muitas palavras pra comentar, rs. Mas é bom assim, né? Os textos que eu gosto mais são os que mais me deixam sem voz mesmo. Incrível, parabéns!

Anônimo disse...

...meu gozo é a memória diluída do meu fracasso.
Muito bom!!
Obrigado

Anônimo disse...

Tão pequeno e tão grande. Isto é Marcia Barbieri.

Marcia Barbieri disse...

Pessoal, agradeço muito pela atenção!!! beijo a todos

Wagner Bezerra disse...

Ser rato de esgoto é condição para poucos...