2 de ago. de 2011

Jaz, o escritor, onde sempre esteve

Por Ricardo Novais

Meu nome é Joaquim Maria da Conceição. Sou um escritor solitário. Mesmo quando encontro companhia, sinto-me só. É de minha natureza, o tédio me corrói. Se eu tivesse me casado ao menos tinha alguém para arrumar minha cama agora que sou velho, mas não, nem isto eu fiz. Para ser muito sincero, é impossível descrever o que sinto. Não é apenas dor sufocante; mais que isto, é a perturbação de pensamento que me contamina impetuosamente. E o pior é que gosto disto. Rememoro a juventude. Estou muito doente, doença grave. O pior de ser velho é ser bufão, tenho o néctar dos sonhos que não se realizaram plenamente. Quanto menos eu tenho hoje tanto maior é o meu prazer em não ter nada. De manhã, penso em me levantar do leito moribundo e correr... Mas um sono entorpecente me impede.

A vontade de correr persiste, no entanto. Correr como um leopardo nas savanas africanas ou nas ilhas do Ceilão. Sem motivo e sem destino certo; apenas sair correndo pela vizinhança fugindo dos problemas até o final do bairro, e de lá cruzar a cidade grande de norte a sul e depois de leste a oeste. Em seguida, deixando a angústia para trás, percorrer todos os grandes Estados brasileiros para chegar... a lugar nenhum! Enfim, apenas correr, correr da própria vida; correr, correr, correr...

De minhas obras, nada também ficará. Destruirei tudo. Não acredito na eternidade. Numa tarde futura qualquer, numa feira de velharias da Praça da República, alguém encontrará um texto meu que ficou perdido por destruir. Justo o escrito mais feio, o que me esqueci de apagá-lo. Será alguém com frescor ao rosto. Será apenas este o meu leitor. O arauto proclamará: Este deve ter sido um atrevido com alma de escritor.

Percebe, leitor aventureiro de agora, como é este do mesmo modo o último alento? Se não percebes é porque o livro está aberto em tuas mãos, sendo lido. É o último alento. No término da página, nenhuma palavra mais suspira. Tantos suspiros se refletem demoradamente, nenhum se traduz.

Rostos de todas as cores e de todas as idades perceberão a solidão, mas não perceberão o escritor. O nome Joaquim Maria da Conceição passará então em brancas nuvens da literatura maldita, sem muito talento e com pouca vontade da vida. Assim, marginal. O livro aberto, de repente, com alguma coisa que implora por manifestar-se e é impedido por letras do imponderável; e ainda pedindo, mais escancaradamente, por fim: Vá à prosa, senhor autor! Eis o derradeiro escrito, e só.


* Do livro Perfumes da pátria.

5 comentários:

André hp disse...

Muito foda esse conto, salvei nos favoritos.

Anônimo disse...

Olá, Ricardo! Bem bacana o texto! Realmente, o trabalho de todo escritor deve e é solitário, a não ser que ele escreva formando um duo. É a ponte onde ele se deleita em suas conquistas diárias, fantásticas ou reais, mas sempre com passagem para outras percepções. Um abraço.

josé roberto balestra disse...

Vida e morte dum poescritor. Muito bom mesmo!

Anônimo disse...

Muito bom! Gostei imenso! Sem mais a acrescentar que repise a qualidade do texto.
Grande abraço,

Christiane Angelotti disse...

Poético! Como sempre, Genial.
Talvez os atrevidos sejam os verdadeiros escritores. Afinal, escrever-se para compreender e vive-se para escrever. Também. :)

beijos, meu amigo

Chris Angelotti