22 de jul. de 2011

Roleta ou Toda maldade é sensual

Por Daniel Lopes

A matéria estava toda condensada e então houve o Big Bang.

Gozei forte, de olhos fechados no rabo dela.

Ela me falava da pequenez das nossas vidas. Da pequenez dos astros e do nosso amor de ontem.

Criou-se o universo; embora imensurável, o universo é composto de um número limitado de matéria. Não é infinito, o Universo. Já o tempo...

- Eu não consigo abrir as mãos. - ela disse e nosso amor estava todo condensado como um amendoim na palma da mão dela.

A matéria se combina das mais variadas formas. Imaginem que a combinação perfeita de átomos, de moléculas, de letras, números e partículas tivesse nos levado, ela e eu, àquele momento. Todas as coincidências, todos os acasos tinham me levado até ali, até aquele quarto, àquele final, àquele rabo maravilhoso que agora eu perdia. Perdia? Difícil. Eu sou o Deus deste mundo.

- Eu ainda te amo, mas não quero mais te ver... nunca mais...

O casal de gatos dela brincava no tapete. Não são inocentes (os gatos nunca foram inocentes), pois carregam no olhar o brilho de quem conhece todo o mistério. A crueldade faz parte do amor dos gatos. Já meu cão, meu cão tinha o coração puro, era todo ternura, mas não sabia. Ele, meu cão. Os gatos sim sabem de tudo aquilo que é pra sempre no tempo. O princípio e o fim de um rio ainda é o mesmo rio, eles diziam pelo olhar, os gatos. Filhos da puta.

Haverá trilhões e trilhões e trilhões de combinações, eu sei. Mesmo essa combinação de palavras já existe e tornará a existir depois que se for. Os átomos dançarão sozinhos, farão surubas imensas, os átomos. Juntar-se-ão... Perder-se-ão. Durante o inimaginável do tempo, eles vão se unir e se separar. A matéria vai continuar a se expandir e expandir, mas depois vai voltar a condensar e condensar de novo até o mesmo grão de antes do Big Bang. Nada de novo sob o Sol, como disse Salomão. E então o mesmo casal de átomos vai se encontrar novamente e dizer sim e todas as combinações tornarão a se repetir na noite imensa do Tempo que não é um rio, mas uma rocha, uma serpente devorando o próprio rabo. Dejà vu. Um carrossel incessante que gira e gira para delírio de Deus.

- Vai embora agora... Ela diz, puxando o lençol... por favor saía de vez da minha vida...

Eu limpo, na ponta do lençol branco, o pau sujo de merda e porra. Um cu contem o mistério do mundo. O buraco negro, como o próprio nome diz, é o cu do Universo. É lá que está a resposta, se é que há alguma resposta.

Eu me levanto. Sou o demônio. Um demônio de mármore. Toda maldade me é sensual. É no sexo mais depravado que eu, o Demônio de mármore, vivo. Por isso Buda, Cristo e todo o resto tentaram ficar longe da carne, porque a carne é o sexo e o sexo é o mal, quanto mais sujo melhor.

Agora ela chora. Os gatos continuam brincando no tapete do quarto. Tudo isso se repetirá infinitamente. Embora grande, continua a ser uma gaiola, essa na qual nos debatemos. Estamos presos, como o corvo no laboratório de Paracelso. Meu pau ainda fede. Não me importo. Cheiro de merda me excita. Eu abandonaria a crueldade por ela, mas ela não acredita mais. Gaviões, tigres, leões e lobos me esperam lá fora. Eles sabem que sou um deles. Eu posso me transformar em tudo o que quiser, basta imaginar. Os gatos se arrepiam quando me aproximo deles. Acaricio a vagina da gatinha e o pênis do gato. Toda perversão me agrada, mas ela não para de chorar.

- Vou embora hoje. – Digo para consolá-la – Mas amanhã voltarei da mesma forma que ontem. Divirta-se um pouco enquanto me espera. - Ela não levanta a cabeça do travesseiro.

Caminho até a janela... abro minhas asas... entoo um ditirambo... os bichos peçonhentos me esperam no leito da floresta. As plantas murcham quando passo. Meu lar é a ruína. Se fosse eunuco, seria um anjo. Toda maldade é sensual.

Daniel Lopes é de São Paulo, tem textos publicados nas revistas literárias Amálgama, Germina, Caos e Letras, Letras et cetera, Escritoras Suicidas, O BULE e Cronópios. Publicou em 2008 o romance É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança e em 2010 publicou o livro de contos Pianista Boxeador. Vencedor do prêmio Valeu Professor 2010, categoria conto. E-mail: danielopes26@yahoo.com.br

Blogue: http://pianistaboxeador21.blogspot.com

6 comentários:

Paulo Laurindo disse...

Fantasma aterrador, este ente criado, muito pior que o Drácula. O conde incita à luxúria enquanto este demônio obsessor, chulo e grosseiro, ao contrário, é parte integrante de um tremendo complexo de culpa de alguém incapaz de encarar a própria sensualidade e sexualidade. O conto está na secção errada, deveria integrar uma Mostra de Terror a ser promovida pelo Bule.

pianistaboxeador21 disse...

Paulo, obrigado pela leitura atenta e o comentário generoso.
abração

Luis Carlos disse...

Leio muito o Daniel no blog Pianista Boxeador. Esta cara sim é escritor. A poesia é a sua sina. Na lama, na cama, no inferno ou no paraíso. Sempre Ela, a Poesia, sempre, marcando presença em seus textos. Grande poeta. Este conto sim, valeu a pena sua leitura.

Christiane Angelotti disse...

Gostei, Daniel.
Cheio de metáforas. Um texto muito bem construído.

Aretino, Sade,Masoch devem estar felizes com a produção dessa semana no BULE.

Abração,

Chris

pianistaboxeador21 disse...

Muito obrigado Luís Carlos e Chris.
Estamos aí.
Abraço

Aline disse...

Muito bom! Acho que já li alguma outra coisa sua por aqui (ou não, a internet me confunde, muitas vezes).
O Bule continua excelente, parabéns pelo trabalho!
Abraços!