23 de jul. de 2011

Os róseos anos-luz

Por Roberto de Sousa Causo

A força mais poderosa do Universo é a energia sexual. A energia da criação da vida. E aquilo que gera a vida também possui o potencial de produzir a morte — ou assim explicou o Dr. Freud e teorizou o Dr. Reich.

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Caronte e Plutão são duas bolas subplanetárias de neve valsando uma em torno da outra a seis bilhões de quilômetros da Terra. Guardiões, senão do Hades, do Cinturão de Kuiper e seus outros anões gelados.

Em Caronte, as forças do Brasil e do Reino (ainda) Unificado travam uma guerra total. Agora os países lutam longe dos civis e dos muitos monumentos da Terra superpovoada; a guerra enfim se tornou um ato civilizado, digno dos mais elevados ideais da espécie humana — ou assim pronunciou o Prof. Keegan, famoso historiador militar.

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Da nave-mãe New Wavering parte o bombardeiro quadrimotor Avro Lambuster, com a nova Arma do Juízo Final (a definitiva), a bordo: no compartimento de bombas, o dispositivo mortal; sobre ele, o colchão macio também sobre a armação de metal e o estrado de molas, os lençóis de cetim e sobre estes o casal de amantes — prontos ou quase — diante da cabeceira de ferro forjado: ornamentos, e lastro para a queda. Tudo isso, é claro, dentro da bolha inviolável e pressurizada de plasteel transparente. . .

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Antes da missão, o Coronel Ballard preocupa-se com a prontidão dos amantes. O dispositivo orgônico captará as energias orgásmicas de um dos erokamikazes (preferencialmente dos dois, geradas no mesmo instante ou o mais próximo possível), que funcionarão como a espoleta da detonação. O Coronel Ballard propõe que fluffers profissionais contratados da indústria pornográfica estimulem os heróicos voluntários antes do coito apocalíptico, para garantir o clímax em queda-livre e na altitude antecipada.

O Major Burroughs sugere que seja um fluffer homem a atender o erokamikaze homem, e um fluffer mulher a atender à sua amante, pois certamente pessoas do mesmo sexo conhecem melhor a anatomia e os gostos do outro, do que aqueles do sexo oposto.

O Bispo Waldiss, porém, persiste na afirmativa papal de que não é o orgasmo mas o ato da concepção em si o gerador das imensas energias a serem canalizadas. Por isso exigiu testes de fertilidade e contagem de espermatozóides e avaliações das suas capacidades atléticas, e que a mulher ovulasse no dia e horário exatos.

Gentlemen, please — diz o herói. — Tudo já foi previsto pelo exaustivo processo de seleção a que fomos submetidos. Sou um ejaculador precoce certificado, e minha estimada colega está no topo daquele terço das mulheres que não têm qualquer problema em chegar a um rápido orgasmo.

— E de qualquer forma — lembra o Coronel Ballard —, a queda será longa o bastante.

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A penetração não é fácil. Plutão e Caronte orbitam o mesmo ponto no espaço a cada 6.38 dias terrestres, e mantêm sempre a mesma face voltada um ao outro, como bons dançarinos que são. A base brasileira que é o alvo do Lambuster foi construída nesse hemisfério antitropical de Caronte, o sidekick de Plutão na administração do Inferno gelado, e há baterias de superfície e caças interceptadores patrulhando o espaço entre os dois pseudomundos anões.

O Coronel Ballard, porém e enquanto o Bispo Waldiss reza furiosamente e o Major Burroughs dispara com idêntica fúria os canhões Magnum do bombardeiro contra os interceptadores, consegue pilotar o Avro Lambuster até o ponto de lançamento. Um esquadrão de caças de escolta abre caminho com o custo de incontáveis e inestimáveis vidas humanas, na certeza de que nunca tantos farão tanto por tão poucos.

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Abre-se o compartimento de bombas.

A bolha cristalina com a cama e os erokamikazes, amantes do Juízo Final, é ejetada para a longa descida até o orgasmo róseo que promete balançar a galáxia, brilhando mais que uma supernova, mais do que um jato incandescente ejaculado de um quasar e aquecer as entranhas geladas do Cinturão de Kuiper.

Aos olhos do homem e da mulher, enlevados em sua crucial tarefa, Caronte é uma mancha esférica e plúmbea que, por um misterioso capricho da posição orbital do Plutão, recebe no rosto o arco escuro do cone de sombra de seu amante. Parece sorrir para aquela fagulha gêmea de calor biológico que devagar desce até ele espelhando a mesma coragem e extrema solidão.

E em mais alguns segundos, nada jamais será o mesmo.


NOTA DO AUTOR: este conto é uma homenagem a três dos principais escritores da New Wave da ficção científica inglesa e americana: Brian W. Aldiss, William S. Burroughs e J. G. Ballard. A idéia de uma guerra entre Brasil e Inglaterra travada em Caronte foi emprestada do romance de Aldiss, Os Negros Anos-Luz (The Dark Light Years; 1964), que também inspirou o título do conto.


Roberto de Sousa Causo vive em São Paulo com a esposa e um filho. É autor dos romances A Corrida do Rinoceronte (2006) e Anjo de Dor (2009). Tem cerca de 70 contos publicados em dez países, e entre seus prêmios está o Projeto Nascente 11, com O Par (2008).

Um comentário:

Paulo Laurindo disse...

Isto é o que se poderia chamar de foda sideral. Mas, ficou nas preliminares. Faltou gozar o gozo apocalíptico e nos fazer viver os zilhões de sinapses que iluminam o cérebro, faltou nos apresentar ao universo pistom a bombear o fluxo da fagulha, a sistole e diástole que dominam os músculos, faltou o big e o bang deste eterno retorno.