24 de jul. de 2011

Minha Cecília

(Ilustração: Gabrielas Pas)


Cama desfeita, célere amor...
Por Ricardo Novais

A cama redonda era o ninho da lascívia. O teto e as paredes espelhadas eram o rudimentarismo do prazer. Eu beijava Cecília com o afeto simbiótico da cobiça. Tinha lampejos de consciência, o resto todo era desejo.

Lá do box embaçado do banheiro ela me chamava. Aclamação química! O vapor da água quente se misturando à fragrância do sabonete vagabundo, ao gozo dos perfumes dela e à respiração deleitosa. Cecília, de costas. A água temperada caindo sobre nós. Eu mais juntinho a ela, beijando-lhe a nuca, alva, buliçosa; tudo num afago sexual... Não imaginas, leitor, como aquela mulher era provocante, com grandes olhos castanhos maliciosos pedindo para satisfazê-la, querendo me engolir, e estes gestos trançados a sinais delicados e elegantes. Cecília era quase natural. Naquele momento encontrei minha companheira eterna; naquele momento encontrei meu Nirvana, o ápice que me libertou.

No aconchego do enlace íntimo e indomável, não consegui conter o coração vilipendiado. É que o cheiro da volúpia era tanto maior que o cerne sentimental. Coito vasto, concupiscente, sedento, perturbador de todos os pontos nevrálgicos da luxúria. Órgãos humanos libidinosos, ora expostos ora entrecobertos, à meia-luz, sob clarividência da paixão pervertida. Fomos molécula, micha, mucosa, placenta, asqueroso pus... Tudo nutrindo nossos corpos, nossos corpos nus. Era um cruzar de pernas e movimentos atingindo labirintos entre brumas despidas.

- Sou insaciável, cachorro! – ela gritava-me em toque de ordem irresistível. – Vem meu cachorro, vai! .... ... ..! Vai!

- . ..? Ah, ......! ........!

Penetração carnal, suja, violenta; e ao mesmo tempo terna, afetuosa, apaixonante! Ela jogada de quatro no chão de carpete marrom-claro vulgar, espremida do espelho manchado de reflexos extravagantes; eu com a musculatura e ideias que poderiam muito bem ter durado a eternidade, mas que foi breve tremor de artérias túrgidas. Preservativos que não usamos. E nossos corpos entrelaçados, num bater de joelhos deleitoso, em sussurros que ora viravam urros de prazer ora eram simplesmente gritos de um amor fugaz, quase estéril. Não couberam ali fingimentos de preliminares, gestos turgescentes e disposições sexuais – fomos o próprio orgasmo.

- .... ... ..! Vai! .... ... ..! Vai! .... ... ..! Vai! Come meu rabo, goza em mim! .... ... ..! Vai! .... ... ..! Vai! .... ... ..! Bota, safado! Põe, põe tudo; sou sua, todinha sua. .... ... ..! Ah!... Ah!... Ah!... Amor! Ai, amor!

De repente, em meio aos filmes eróticos, às músicas de cabaré francês e à sombra esparramada de dois amantes, Cecília percebeu mensagem urgente. O marido a procurara mais cedo em casa. Saímos de nosso ninho voluptuoso às pressas, derrubando lençóis ao íntimo carpete marrom-claro e ainda deixando um gosto impudico às taças de amor abandonadas pela metade.

Querida leitora, acredite-me; não conto aqui uma aventura vil de autor depravado. Oh, não, senhorita leitora minha. Relembro-me tão-somente o esplendor da sensualidade de minha amiga mais perigosa e enigmática, pois foi exatamente este dos meus casos o que jamais consegui esquecer – e não esqueço! Alcancei a alma infinita, porém maculada. Sinto falta do rugido sedento de Cecília, com seus grandes olhos castanhos lúbricos e provocantes. E só digo isto, nada mais.

7 comentários:

Jéssica Lopez. disse...

Os momentos de orgasmo me remeteram ao capítulo "Diálogo de Adão e Eva no Jardim do Éden", do livro do velho Bruxo...
Cecília tinha os olhos castanhos da Volúpía e o espírito livre e destemido para o amor e suas surpresas... Um dos meus textos preferidos de sua autoria, Ricardo... Lindíssimo, excitante, lúbrico!
Beijo!

Sonhos melodias disse...

Ricardo que história mais linda a sua! A mistura de sexo, prazer carnal costurado a muito carinho e a doce lembrança desse tempo é linda, verdadeira...é humana! Quem não tem suas histórias para lembrar? Parabéns! Estou cada dia gostando mais de passar por aqui e ler os textos novos.
Abraço

Paulo Laurindo disse...

Infelizes daqueles que criam regras para o sexo, na tentativa vã de domar do animal que nos habita. A fera que somos só encontra paz na entrega total pelo prazer dos sentidos.

Anônimo disse...

Nada contra o linguajar dos filmes pornôs, Rodrigo, que vc, quase como uma mímese, expressou nesse texto depravado (com boa intenção), mas gosto bem mais das palavras doces e leves na hora H, ditas com a vontade de exuberar os sentimentos, a fim de eternizá-los e diferenciá-los. Contudo, vale aqui os meus parabéns pela lembrança feliz (de muitos gozos). Bjos.

Christiane Angelotti disse...

UAU!!!

Muito bom!
Pornográfico, erótico e apaixonante.
Dos melhores que li.
Parabéns, Ricardo!

Fabiana Neris disse...

Da forma que você escreve, consegue nos fazer imaginar as cenas, sempre nos presenteando com um final surpreendente. Parabéns, você soube tratar de assunto (sexo - que hoje em dia infelizmente ainda é um tabu) sem ser ofensivo e sim realista.

Munique Duarte disse...

Excelente semana de literatura pornográfica n'O Bule. Não era muito adepta do gênero, mas aprendi a apreciar. Parabéns a todos os colaboradores com suas histórias incríveis!