5 de jul. de 2011

Estavam todos com uma única caneca

Por Tony Roberson de Mello Rodrigues

Estavam todos com uma única caneca, a minha caneca de chope, lembrança da Oktoberfest do ano passado, notei isso de manhãzinha ainda e não gostei. Eram muitos para uma única caneca que, apesar de propícia a muito chope, estava vazia há algum tempo já. Se estavam bêbados? Não sei o que o álcool lhes faria naquela hora, por seus comportamentos eu apenas daria de ombros e diria – Sei lá... –, o que me chamou a atenção mesmo – e eu havia acabado de acordar – era aquela aglomeração em torno da minha caneca de chope. Tive nojo de mim por permitir que estivessem todos ali... Tive nojo da aglomeração... da caneca... dos últimos quinze anos de minha vida.

Na parede à direita da pia da cozinha há uma enxada e um rastelo, encostados há alguns dias, promessa ainda não cumprida que fiz ao arquiteto do local, de que eu limparia a parte do terreno onde o mato cresce constantemente e pela qual nós dois transitamos. Aos pés do rastelo, um pano já meio encardido e esquecido – e relembrado – todos os dias, serve para limpar esse estranho suor que brota do piso do cubículo a que chamo de casa, alguns chamariam de depósito, muitos de palácio, todos de úmido.

É sábado, dia propício para uma ressaca. Acabo de acender um incenso para chamar a atenção deles, a música de meditação e relaxamento pouco ou em nada parece afetá-los – como poderia? O foco deles (e agora meu) é a caneca. Fico olhando tudo aquilo por um momento que se estende entre o silêncio e a vontade de reflexão, mas não é de reflexão que preciso no momento, não é mesmo? Nada de incenso, música ou controle do ar que entra e do ar que sai, basta um grito, um gesto mais brusco, uma atitude mais enérgica e a multidão se dispersará, não é mesmo? Acaba de entrar uma vespa e estou certo de que vou matá-la.

Sobre as cinzas do incenso decepei-lhe a cabeça do corpo contorcido, eles nem aí para isso. Nem adianta chamá-los de malditos, se soubessem da verdade provavelmente se dispersariam, foi assim com muitos desde o tempo de Adão, com eles não seria diferente. O que nos torna insignificantes perante a natureza é o que sabemos, e os intrusos tornaram-se significantes para mim pelo que estão fazendo com minha caneca de chope da Oktoberfest do ano passado. Nela há um vovô sorrindo, indiferente a tudo o que se passa exatamente aqui. Sinto-me um micróbio, um filho da putrefação, dentro deste útero úmido por onde adentram alguns feixes de luz que conseguem driblar as quase cortinas que espalhei pelas janelas emboloradas. Parece – e isso tem um pouco de fé – que apenas meu guarda-roupas parece resistir à casa.

Quero ser consumido pelo sol da manhã, mas algo me impede, acordar nesta cama todos os dias castiga meus ossos – ou eu me castigo? – e a minha alma, diante de tanto abandono, não sabe se arromba a porta de dentro para fora e se lança no sol a procura de vento e amigos, ou se volta à posição fetal para dormir e sonhar que escuta a si mesma, esquecida de tudo e imersa em lembranças e desejos. Uma boneca de panos remendados, há algum tempo, diria que tudo é um eterno faz de conta, então façamos de conta que eu não me esqueci deles, pois que os desgraçados ainda estão lá e não esqueceram minha caneca de chope da Oktoberfest do ano passado.

Sabia que não adiantaria gritar nem ameaçá-los, então enchi a caneca com água, isso mesmo, combata-se a sede com água, mas, ainda assim, nenhum largou a caneca. Nem poderiam, de tão concentrados que estavam na missão a que Deus, o Universo, Alguém ou Algo os teria designado: chatear-me neste sábado de manhã, enquanto eu procurava uma faca para passar margarina com gosto de manteiga no pão. Coisas de hoje que amanhã tornarão nossos desejos em lembranças: margarina com gosto de manteiga, pipoca com gosto de churrasco, água com sabores a escolher – eu sei, eu sei, na área da informática pode-se visualizar – literalmente – com muito mais praticidade os produtos e processos que nos iludem – e aludem, e exludem - sobre nossa evolução, mas prefiro listar o pseudoavanço através daquilo que comemos, estamos muito mais próximo de uma revolução parasital do que podemos imaginar, em breve nada mais de dentes, e a boca se tornará pequeno orifício, e em breve os dedos, e os braços e pernas, e então estaremos importunando algum outro verme, agrupados dentro de uma caneca de chope vazia esquecida há alguns dias sobre a pia da cozinha.

Tony R. M. Rodrigues é bacharelando em Letras, revisor textual, autor de Lágrimas Lapidadas (1998), verso que te quero povo (2003), coautor de Jovens poetas da ETFSC (1999) e mantém o blog Rascunhos do meio. Premiado em RJ, SP, SC e RG, prepara-se agora para seu primeiro e-book, com prosas curtas. Pesquisa estudos comparados entre Literatura e Religião (Teopoética), Literatura e Informática, e o processo de revisão de textos. E-mail: tudosimples@gmail.com

3 comentários:

Paulo Laurindo disse...

Senti um eco da Metamorfose do Kafka. Enquanto Gregor Samsa acorda transformado em inseto, "o jovem que curtiu a Oktoberfest no ano passado" aguarda para o futuro sua transformação. De qualquer maneira, um dia seremos todos vermes.

Anônimo disse...

..é tenso e seu interior é tragicômico como a vida, ótima crítica ao moderno (..os produtos e processos que nos iludem).

Solange Radke

Anônimo disse...

Muito bom. Senti que o ponto de ruptura do estado de conforto ainda parece estar no limiar do estado alterado. Só processos e produtos nos iludem?

Jocilei Cabral - UFSC