26 de jul. de 2011

Especial sobre o Jornal RelevO

>>> Release:
O RelevO é um impresso mensal dedicado exclusivamente à crônica. O jornal é editado por Daniel Zanella, cronista paranaense e estudante de Jornalismo da Universidade Positivo, de Curitiba. São selecionados de seis a oito colaboradores por número. O twitter do Relevo é @jornalrelevo e o contato é jornalrelevo@gmail.com
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>>> Os colunistas d’O BULE perguntam para Daniel Zanella, editor do Jornal RelevO:

Rodrigo Novaes de Almeida – Daniel, por que você resolveu criar um jornal literário e por que de crônicas?

DANIEL ZANELLA – A massificação da internet e a dificuldade do jornalismo impresso de notícias em adaptar aos novos paradigmas culminaram com a decadência desses veículos e um natural afunilamento dos espaços para cronista nos periódicos – fuga de leitores, queda de circulação e faturamento, diminuição de espaços editoriais.

O RelevO almeja servir de recanto para escritores interessados em divulgar o próprio trabalho: a crônica, localizada peculiarmente entre o jornalismo e a literatura, é um essencial meio de compreensão dos espíritos do tempo.

[E o jornalismo impresso de notícias, nos moldes atuais, é obsoleto e desconectado dos novos públicos e de seus anseios de consumo de informação.]

Geraldo Lima – Daniel, quais foram, e quais ainda são, as dificuldades encontradas por você para manter de pé um jornal como o RelevO? Há a intenção, agora na forma impressa, de fazer com que ele ultrapasse as fronteiras do Paraná?

DANIEL ZANELLA – Há uma gama extensa de dificuldades e dissabores. Primeiramente, o periódico optou desde a sua primeira edição em não enveredar para plataformas de patrocínio público. Todo o seu custo é bancado por anunciantes da iniciativa privada, logo, entidades capitalistas com interesse em retorno financeiro de seus investimentos.

Um jornal de literatura sofre para levantar investimentos, tanto por conjunturas sociais, quanto por elementos históricos. Não temos tradição em mídias culturais autossustentáveis até por um certo amadorismo de direção. Temos conseguido empatar os custos nesse quase um ano de circulação, o que consideramos satisfatório, já que a fase mais difícil do projeto é a de seu próprio estabelecimento.

Para que o RelevO se projete nacionalmente é preciso de um corpo de anunciantes mais consistente, maior circulação e reconhecimento de sua proposta. Um programa de assinatura também é uma alternativa estudada nesse possível plano de expansão. São fatores, enfim, que escorregam de decisões editoriais: é questão econômica mesmo.

MARCIA BARBIERI – A Literatura tem um lugar de destaque no Jornal RelevO, principalmente quando se refere ao gênero crônica. Como o seu jornalismo se enveredou pela Literatura? Podemos afirmar que a crônica, por ser um gênero próximo da realidade, da reportagem, fez essa ponte?

DANIEL ZANELLA – Exerço a crônica em periódicos desde 2004 e trabalho localmente com a distribuição de jornais, revistas e livros. Pude conferir in loco o impacto que a internet gerou nessas mídias e a visão arcaica da imensa maioria dos publishers – que ainda brigam com as transformações, como se pudessem cessá-las.

A crônica é inerente ao impresso, nasceu em suas páginas, e corresponde a uma espécie de identidade literária única no Brasil: temos uma relação intensa entre cronistas e leitores, de diálogo e partilha. Muitos cronistas, em seu tempo, foram mais populares do que muito escritor de trajetória acadêmica inquestionável.

Entretanto, os principais jornais parecem descontinuados dessa afirmação, não abrem espaços para novos cronistas e investem em nomes escaldados da literatura tradicional. Se abrirmos os principais jornais nacionais, veremos que há poucos cronistas puros-sangues.

A internet – blogues, sítios, coletivos literários – é a nova plataforma dos cronistas, onde podem imprimir livremente suas impressões acerca do mundo. O que fazemos com o RelevO é reunir o material que repercute na internet e dar-lhe permanência – um argumento ainda bem sólido para justificar a existência de impressos.

Sobre Jornalismo e Literatura, a crônica é, de fato, um meio de campo. Não pode ser considerada como jornalismo por conta de seus subjetivismos e descompromisso com a realidade, e não é literatura plena no sentido de que nem tudo o que é produzido no gênero almeja permanência.

Alguns cronistas conseguem levar suas impressões até a atemporalidade – Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, João do Rio, entre tantos – contudo, nem sempre a crônica atinge esse patamar, ou sequer o almeja.

O compromisso maior é com o leitor.

Ricardo Novais – Daniel, percebe-se, principalmente pelos seus textos no Jornal RelevO, que eles, quase sempre crônicas urbanas, metem o dedo, de maneira implacável, nos modos e costumes da sociedade brasileira (e em especial da sociedade curitibana). Isto se deve ao estilo de jornalista-escritor? E mais: as crônicas literárias, sejam de estilo impudico, como as de Nelson Rodrigues, ou em estilo poético, como as que Armando Nogueira escrevia, estão fadadas à morte dentro das redações de jornalismo (tradicionais ou virtuais)?

DANIEL ZANELLA – Com o exercício cotidiano da crônica, seja para impresso ou para outras mídias, vamos, aos poucos, compreendendo o que somos e do que fomos feitos. A forma de escrever acaba se moldando ao próprio desenvolvimento pessoal, à bagagem de leitura e releituras, aos totens que acabamos erigindo, muitas vezes, sem perceber.

Não acredito que a crítica social seja o viés que busco para meus escritos, entretanto, a crônica perpassa pela realidade mais dura e destituída de belezas. Acaba sendo natural oferecer um aspecto pessoal da realidade em que estou inserido.

A crônica, enquanto gênero histórico presente desde as primeiras tradições de escrita, nunca esteve tão forte. Há um movimento novo. Temos muita gente boa escrevendo suas percepções e devaneios na blogosfera. Acontece disso não ser tão facilmente identificado por conta do caráter líquido da informação atual, que forma nichos, pequenas redes e se desmancha antes mesmo de se solidificar.

Para que os impressos consigam fidelizar o novo público que escapa entre seus dedos, é preciso, primeiramente, entender que a informação impressa paga diretamente pelo leitor é inviável, absurda até. Segundo, capturar os talentos dispostos na internet e trazê-los para dentro de seu noticiário. Terceiro: esquecer a informação diária e instantânea e brigar pela análise e contextualização.

Por insistirem numa fórmula desgastada e obsoleta, os jornalões não são rentáveis. [E a falta de material intelectual nas redações auxilia nisso.]

ROGERS SILVA – Você acha que é possível viver de literatura no Brasil? Você vive, financeiramente falando, de literatura e jornalismo? Na sua opinião, o que é preciso para que o escritor de literatura consiga viver da venda das suas obras no Brasil?

DANIEL ZANELLA – É possível, mas para isso é preciso que esqueçamos a visão romântica do escritor do séc. XVIII. É preciso que os escritores se profissionalizem, estudem mais, entendam que é preciso se capacitar, ler mais, fazer do exercício da escrita um trabalho como qualquer outro, com suas responsabilidades específicas e cobranças habituais: saber conviver com isso.

Pessoalmente, sobrevivo de literatura e jornalismo, o que é bem diferente de viver bem e ter boas condições de vida. Além de editar o RelevO, trabalho na redação do periódico da universidade, revendo livros e distribuo jornais e revistas de Curitiba e Região Metropolitana. Há um certo preço por escolher uma área de humanas em um contexto social que prioriza as escolas de negócios.

Sobre livros, escritores e vendas, considero que o modo como muitos escritores acreditam que adquirirão a própria subsistência é inadequado. O modelo escritor-editora-distribuição é de difícil consolidação quando se escolhe uma via mais honesta e intelectualmente mais ampla – ao contrário das linhagens de autoajuda, por exemplo –. [E o mercado editorial atravessa uma crise de identidade semelhante ao mercado fonográfico.]

O escritor atual tem que escalar todas as etapas de produção, contar com auxílio de um bom editor de sua rede pessoal nesse processo, e brigar pelo próprio livro, divulgar, vender, ser mascate do próprio trabalho.

Naturalmente, é esse também um caminho complicado e sem garantias de sucesso – também isso relacionado com expectativas e noções éticas pessoais –. Colocar a culpa no perfil do mercado editorial e no leitor, como muitos fazem, é simplista e pueril.


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