22 de jul. de 2011

Cafeína: Semana da Literatura Pornográfica n’O BULE

Por Junior Cazeri

Teria a pornografia um papel importante na literatura? Marginalizada, ridicularizada, incompreendida, condenada, ela aparece, aqui e ali, às vezes disfarçada, incomodando com sua crueza despudorada, polemizando, causando nojo em alguns e reduzida a um gênero menor (se considerada) entre os letrados.

Esquece-se que, assim como outros gêneros, o que a pornografia representa para a literatura está muito além de suas palavras de baixo calão ou a indecência nos atos de seus protagonistas. Tal como a ficção científica é uma crítica ou análise metafórica de problemas presentes e reais, dilemas éticos de um futuro próximo ou paródia das expectativas e dos simulacros sociais, a pornografia representa uma bofetada no status quo social, seus valores, crenças e costumes. O que a literatura pornográfica faz é desmascarar o homem, não apenas desnudando sua carne, mas também sua psique, expondo o selvagem e o obsessivo presente em cada um em metáforas sociais que ferem as instituições “sagradas” e circundadas pela hipocrisia que nos guiam como família, casamento, trabalho e rotina. E, entre toda a orgia, revela a pobreza e a solidão na condição humana.

Não estou me referindo ao erotismo, cujo objetivo essencial é excitar, sem qualquer contexto, e com isso cai nas graças dos adolescentes e donas de casas, algo patético, que seria parodiado na pornografia. Gênios da literatura já trabalharam o tema, como o Marquês de Sade e Henry Miller, dois autores que admiro pela impetuosa ousadia de construir suas obras com o pior de cada personagem, sem heróis ou vilões. Apenas com o material humano, opaco, visceral.

Durante esta semana, o site O BULE está promovendo a Semana da Literatura Pornográfica, e seus autores capturaram com perfeição o significado do gênero na literatura, produzindo textos curtos e chocantes, que não excitam, e sim incomodam, impelem a leitura e provocam reflexão. Uma onda de fetiches e desejos revelados por trás do cotidiano. Um sopro quente em ambiente gelado.

Acompanhe, veja além das palavras e entenda. Se for capaz de tirar sua máscara e se despir… de preconceitos.

P.S: Este texto foi escrito espontaneamente pelo autor e publicado em seu blog Café de Ontem.

Junior Cazeri é técnico em processamento de dados, leitor compulsivo, mantém o blog de literatura fantástica www.cafedeontem.wordpress.com e a revista digital 1000 Universos, onde publica contos de autores nacionais. Acredita que o melhor da literatura está além das palavras impressas.

3 comentários:

cirandeira disse...

No século XVI Michel de Montaigne já se perguntava:
"O que terá feito aos homens o ato genital, tão natural, tão necessário e tão justo, para que não se ouse falar dele sem vergonha, e para ser excluído das conversas sérias e convencionais? Pronunciamos corajosamente "natar, "roubar", "trair", e aquilo só o ousaríamos entre os dentes. Isso quererá dizer que quanto menos o expressarmos em palavras, mais teremos direito de engrandecê-lo em pensamento?".
Concordo inteiramente com suas colocações e parabenizo-os pela iniciativa!

Christiane Angelotti disse...

Bacana.
Não acho que seja o grau de obscenidade do texto que define a boa literatura erótica.Se fosse assim seria super fácil.

Acho que a fronteira entre erótico e pornográfico é bem tênue, não é o que popularmente se fala.Um é brincadeirinha e o outro é o bom, o pesado, o pra valer.
Mas seguindo a distinção mais conhecida, prefiro o erotismo,pois o pornográfico é até mais evidente.

Mesmo assim, não é qualquer um que faz uma boa literatura erótica/pornográfica. Não é só dizer obscenidades é construir uma boa história em que elas façam parte naturalmente.

Gostei bastante da semana pornográfica d'O BULE ( ainda aguardando a "Cecília" do Ricardo). Me surpreendi positivamente com alguns autores, me surpreendi negativamente com algumas pessoas que se mostraram preconceituosas entre outras coisas.
Notal mil! que tenham mais especiais como esse.
parabéns!

Paulo Laurindo disse...

Taí, O Bule ganhou a introdução ao livro que aguardo resulte desta mostra.