10 de jul. de 2011

Ausência de Crime

Por Claudio Parreira

O oficial irrompeu em minha sala no exato instante em que eu me servia de café. Era diferente dos outros homens — de mim — apenas por causa do uniforme. E também pela arma no coldre. Ao vê-la, imaginei uma história antiga: o mais forte sobre o mais fraco.
— Não quer sentar? — perguntei.
O oficial olhou pra fora e fez um gesto que só ele mesmo poderia traduzir. Depois, voltando-se para mim, sorrisos:
— É claro.
Coloquei café em sua xícara.
— Açúcar?
— Não, por favor.
Seu corpo não era exatamente o corpo de um homem gordo. Era forte, eu diria. O cuidado com o açúcar devia ser uma vaidade indevassável. Sombras moviam-se do lado de fora. Um murmúrio de soldados tagarelas invadia meus ouvidos.
— Prefere biscoitos de champanhe ou pão, oficial?
Ele tomou um gole de café e seu rosto se contraiu.
— Aceito um pedaço de queijo, se não for abuso da minha parte.
Cortei uma fatia generosa e lhe estendi. Na passagem, nossas mãos se tocaram. Senti uma umidade pegajosa em seus dedos.
— Nervoso? — perguntei.
Não obtive resposta.
— Oficial — continuei — creio que o senhor deve saber que é muito difícil o exercício da solidão. Que não e coisa pra qualquer um.
— Certamente — respondeu ele. — Eu mesmo já tentei, mas foi inútil. A solidão requer renúncia ao mundo, e são raros os homens que conseguem realizar esta proeza. Eu não conseguiria; só mesmo se fosse preso.
— Quem sabe — sussurrei. — Mas vejo que o senhor é um homem sensato, apesar da farda.
O oficial levantou os olhos.
— Sem querer ofendê-lo, é claro. Não é nada pessoal. Até gosto do senhor, da sua postura austera. Sinto até que poderia lhe confiar alguns segredos. Poderia?
Ele concordou com a cabeça. Lembrava um porco mastigando o queijo.
— Minha vida – falei —, minha vida são os meus livros. Livros que eu leio e principalmente livros que eu invento. Da porta pra fora há outro mundo – o seu mundo —, regido por suas próprias leis, com suas relações de causa e efeito. Mas aqui, onde o senhor está sentado, é o meu mundo, e as leis são outras: são as minhas leis. Eu faço o que bem entender.
O oficial cravou os seus olhos nos meus: trevas incandescentes. Um segundo depois, irritado, levantou-se e foi até a janela. A luz do sol lhe emprestou contornos delicados.
— Caralho! – berrou. – Calem a boca! Estou tentando trabalhar.
Voltou-se para mim, o pedido de desculpas impresso nos olhos. Indiquei-lhe a cadeira.
— É difícil – disse ele —, é muito difícil. Sou um oficial, passei metade da minha vida sob a mais dura disciplina para acabar assim, com um bando de recrutas incompetentes sob o meu comando. Imagina como isso é terrível?
Cortei outra fatia de queijo e lhe estendi. Suas mãos tremiam despudoradamente.
— Como eu dizia – continuei —, em minha casa é outro mundo. Lá fora é o senhor e o exército, os pelotões de fuzilamento e os tribunais. Os edifícios babélicos, fálicos. Lá fora é o caos das mudanças inúteis, dos novos presidentes, ministros, das guerras santas e hereges, dos ladrões. Lá fora é a polícia, a dor, as putas, os bêbados. Já foi um bêbado, oficial?
O oficial escondeu o tremor das mãos.
— Não.
— Eu tinha certeza que não. Um homem como o senhor, como poderia... Mas, voltando ao assunto: aqui sou eu. Sua farda e o seu revólver nada representam para mim.
O oficial sorriu, cínico. A máscara cedia lugar para o verdadeiro rosto, que era ainda mais feio, sujo. Ele então depositou o restante do queijo sobre a mesa e tentou falar. O impedi com um arroto tão poderoso que fez com que as paredes tremessem.
— Perdão – falei. – A solidão desenvolve hábitos nada ortodoxos.
Indisfarçavelmente enojado, falou:
— Constato pelas suas palavras e pelo seu gesto grosseiro que o senhor está desafiando abertamente o meu poder.
Servi-me de mais uma xícara de café.
— E o que é o poder, oficial?
Ele explodiu:
— O PODER SOU EU!
— Ora, ora, o que é isso, oficial? Acalme-se. Não preciso desse circo. Café?
Enchi a xícara até a borda, sem açúcar. Ao passá-la, aconteceu o previsto: o tremor das mãos do oficial fez com que o líquido derramasse.
— Ó, desculpe-me, senhor oficial... Sou mesmo um desastrado. Permita-me ajudá-lo.
— Vai pra putaquiuspariu! – berrou ele. – Eu sei que foi de propósito.
Sorri. O animal brotava do homem supostamente educado.
— De maneira alguma – retruquei. – Como pode pensar uma coisa dessas a meu respeito?
O oficial se levantou e passou a dar voltas pela sala. Diante da janela, a surpresa:
— Malditos! Sumiram.
Correu até a porta mas não conseguiu sair. Estava trancada.
— O que significa isso? – perguntou.
— Acalme-se, oficial, já disse. Venha, sente-se. Quer mais queijo?
— Pro diabo o queijo! Meus homens desapareceram, preciso ver o que aconteceu.
— O que o senhor precisa realmente é revelar o que o trouxe até aqui – sentenciei.
O oficial hesitou diante da janela. Também ela estava agora trancada, escondendo o sol da manhã.
— Como consegue fazer isso?
— O senhor tem a memória fraca, oficial. Já se esqueceu que quem faz as leis aqui sou eu?
O oficial ficou rondando a mesa como uma ave de rapina. Duvidava.
— E então? – perguntei.
— O senhor é um criminoso – falou finalmente. – Tão perigoso que eu, do exército, fui designado para este caso.
Não pude disfarçar a minha surpresa.
— Eu?
— Isso mesmo, o senhor.
Levantei-me e também passei a rondar a mesa, o oficial na minha frente.
— Responda-me, oficial: quantos homens o senhor matou em sua carreira?
Ele permaneceu em silêncio.
— Quantos torturou?
— Isso foi no passado, já não tem mais importância. As leis agora são outras.
— Quantos? – insisti.
O oficial explodiu novamente; com um gesto automático, fruto de anos de exercício, levou a mão ao coldre.
— O criminoso aqui é o senhor!
Voltei à mesa e me sentei.
— Café, oficial?
— Enfia o teu café no cu!
— Que modos, oficial. E eu que pensei que o senhor fosse um homem educado ...
— Escuta, seu patife — disse ele com o dedo enfiado em meu nariz. — Estou aqui para cumprir uma missão e vou cumpri-Ia, queira você ou não.
— E qual é a sua missão?
O oficial me encarou, sério.
— Minha missão é prendê-lo, verme.
Verme. Combina com queijo. Cortei outra fatia, desta vez para mim.
— Onde estão os seus soldados, oficial?
O homem ficou ainda mais embaraçado. Correu outra vez até a porta e a esmurrou. Seus olhos faiscaram diante da janela. Depois, quando percebeu a inutilidade dos seus gestos, voltou desolado e se sentou.
— Já que vai me prender, oficial, poderia pelo menos me revelar qual foi o meu crime. Que eu me lembre, nunca cometi nenhum.
O oficial tomou minhas palavras como uma confissão. Tirou do bolso da farda um papel amassado onde constava apenas o meu nome.
— Este é o seu crime — falou, orgulhoso.
Segurei o papel entre o indicador e o polegar: uma coisa nojenta.
— Não entendo — menti.
O oficial estufou o peito como se já estivesse a um passo da vitória.
— Ausência de crime — falou. — Sua ficha é a única no País que ainda permanece limpa, e isso, segundo o novo Código Penal, configura crime da mais alta hediondez. Todo cidadão fiel à Pátria tem pelo menos uma sujeira em sua ficha.
Derramei um olhar de extrema piedade sobre o oficial. Como eu podia ter considerado inteligente a uma besta desse porte?
— Oficial — falei —, como vai me prender por esse crime tão· horroroso?
— Meus soldados estão lá fora — falou sem nenhuma convicção. — E há também urna viatura a nossa espera.
— E sairemos por onde? A porta e a janela estão definitivamente trancadas.
O oficial, aflito, olhou para o lado e eu vi em seu rosto o rosto de um menino apavorado.
— Não percebeu ainda, oficial? Quem está preso é o senhor. Como eu já disse, é muito difícil o exercício da solidão. Sou um homem como todos os outros, também preciso de alguém para conversar.
— Isso é um absurdo! — gritou. — O senhor está violando o meu direito de cidadão livre.
— E isso é um crime, suponho.
Apavorado:
— É claro que é! Artigo XXI, parágrafo 19 do novo Código Penal: "Todo aquele ... "
— Obrigado — interrompi. — Era isso mesmo o que eu queria saber. Como vê, acabo de me tornar um criminoso, e, utilizando as minhas leis, fiz também com que fossem cumpridas as suas. Como as coisas navegam na ordem inversa em seu mundo, tornando-me criminoso aqui eu deixo de sê-lo lá fora. Isso me torna isento da prisão. Já quanto ao senhor ...
O oficial depositou em mim dois olhos estarrecidos. Devolvi a minha ficha mas ele a deixou cair. Estava em choque, petrificado, o corpo tenso como a corda de um instrumento. Precisava relaxar.

— Café, oficial?

7 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom o conto, adorei.

Abraços

Paulo Laurindo disse...

Semana passada, recebi este conto de um ermitão.
http://www.baciadasalmas.com/2011/a-disciplina/ (leia-o, se puder).
Cada um, a seu modo, reinventa o mundo sob a perspectiva daquele "fora da ordem".
Ficção de vanguarda, exercício filosófico viril, verdadeiramente comprometido com a nossa educação, pois vocês estão fazendo um exercício de pensar o futuro e o futuro, Claudio, nos assemelha muito sujo.

Anônimo disse...

Muito bom, prende nossa atenção até o final!
Terá continuação? Gostei da história.

Até!

Marcia Barbieri disse...

Os seus contos me prendem do início ao fim e sei que o fim nunca será convencional!!!!

um beijo
sua fã

André hp disse...

Narrativa foda! Como a moça comentou: prende.

Abraço!

Anônimo disse...

Parreira... Váááá se fuder! Hahahha!
Que texto do caralho. Uma justiça sádica e orwelliana. É o paradoxo dentro do mal-estar moderno.

Abraço, meu quirido!

Parreira disse...

Laurindo, li o conto que vc recomendou. Muito bom mesmo. Gostei do estilão, da maneira como o "Ermitão" conduz a narrativa até o desfecho, surpreendente. Isso que é bacana aqui: a descoberta!

Obrigado pelo comentário e pela indicação!