25 de jun. de 2011

A Última Conversa

Por Claudio Parreira

Diante de mim, alguém que eu conhecia tanto e não compreendia mais. O longo silêncio, os olhos dizendo mais que a voz. A ausência das palavras, os sentidos gritando significados inalcançáveis.
Pois então que chorei, e chamei quem pudesse me atender. E vieram ratos, aranhas, todos chorosos mas convictos de que as coisas seriam assim. O fauno que me abraçou. Seres que eu não posso explicar, mas que sempre me foram caros e presentes.
— Porque a sua condição, filho, a dele, não pode ser alterada. A lógica do fim, o ciclo. A dor é necessária para compreender.
Raiva, impotência. As lágrimas que não vinham mais. O deserto, a solidão de ser.
— Por quê? — eu enfim perguntei. — Esse silêncio, essa falta?
Um pequeno gesto, a mão que me procurava. Abracei a sua mão não mais como filho, mas como pai. Queria segurá-la contra o peito, dar o meu calor. Feito Deus, trazer de volta à vida quem eu já sabia morto.
Mas Deus tem planos impiedosos, e exatos, e não se deixou convencer pelo meu coração.
Antes, porém, eu disse:
— Levanta daí, porra, que eu ainda tenho o que falar com você. Uma última conversa, ok? Lembra de mim?
Ele balançou a cabeça negativamente. Não conversava mais comigo. Eram outros, agora, os seus interlocutores.

3 comentários:

Anônimo disse...

Posso dizer, literalmente, que est' A Última Conversa, de Claudio Parreira, é a minha primeira interlocução literária com este autor, e se a primeira impressão é a que fica, esta há de alimentar meu desejo por novas leituras de Parreira. Adorei a graça, estilo e intertextualidade bíblica (talvez velada? enfim, uma primeira leitura minha) do texto, o tom descontraído no final, a comoção no início, e um desfecho que mais abre gaiolas que encerra gavetas. Meus parabéns, mesmo, Claudio, repassarei com muito gosto teu texto aqui pelos corredores (e redes sociais) de Letras da UFSC. Grande abraço!

Parreira disse...

Agradeço mesmo a você, Tony, pela leitura e comentário. Enorme abraço a você e ao pessoal de Letras da UFSC!!!

Wagner Bezerra disse...

Caraca, não é a toa que dizem que os melhores perfumes estão nos pequenos frascos...hehe

Amadurecer é foda, mas o pior é ser gente grande!!

Abraço!