6 de jun. de 2011

A morte e o sapateiro

Por Marcia Barbieri

Nunca tive medo da morte, achei que houvesse algo de branco e libertário nela. Luzes e corredores infinitos. Na minha infância a morte tinha uma tristeza glamourosa como nos filmes: guarda-chuvas, roupas pretas, uma garoa fina e o salmos com seu cajado e seus vales verdejantes. Agora, estava ali, diante de mim, um corpo grande e inchado para caber na fúria tempestuosa da vida, um sol bonito e brilhante de uma falsa primavera e um Cristo gordo que nega mostrar o sangue quente de suas feridas. Lembro que sempre havia uma atmosfera tenebrosa quando meu pai lustrava seus sapatos e cortava seus cabelos. A morte é um velho e cansado sapateiro, ele ruminava entre os dentes amarelos e sem frestas. Não havia nenhum tipo de falhas naquele homem. Eu observava-o com olhos gulosos de infância. Eram rituais que acompanhavam as mortes e sua boca, quase cotidianamente muda, procurava explicações para o obtuso, ele que era péssimo até mesmo com o óbvio. Sentia um cheiro amargo de flores e grama, milimetricamente plantada com a petulância própria dos vivos. Mas não sentia dor, isso era privilégio dos homens que já tinham passado dos quarenta, eu era nova demais para conhecer o gosto telúrico e aveludado da saudade. Aquele caixote de madeira afundava na boca da terra, enquanto mãos espremiam botões de rosas de todas as cores. E a morte me parecia ainda mais branca. A mortalha me fascinava, vestir-se para um jogo, no qual não há adversários nem juízes, apenas derrotados.

Do meu lado uma muda apalpava um lenço de pano, dele saiam centenas de pássaros negros e cobriam o teto do velório, enquanto isso ela flertava lascívia com o silêncio da revoada.

- Quem é?

- Nelson.

- Era seu marido?

- Não.

Poderia responder milhares de coisas para aquele trombadinha, no entanto, não disse nada. Afinal, ele sabia tanto da vida e tão pouco da morte, que nenhuma explicação seria plausível. Ele pisava os pés encardidos nos defuntos, violava suas covas, mas não sabia nada sobre morrer. A morte era uma multidão de gente falando de feitos estrangeiros, uma intrusa, eram corvos penetrando virgens.

9 comentários:

Wagner Bezerra disse...

A morte também sempre me fascinou, mas a cor dela pra mim é como o musgo esverdeado da pequena fonte de um jardim abandonado...

Sempre leio teus contos e eles me fascinam tbm!...hehe XD

Bjão!

Peterson Silva disse...

Caramba, fantástico!

MISTIFILMES disse...

Parabens pelo texto. Muito bom.

Bia Bernardi disse...

Uhú! Bela imagem da morte: "um velho e cansado sapateiro"... Grande Márcia!

Paulo Laurindo disse...

"Gosto telúrico e aveludado da saudade", uma bela construção.

Mônica Cadorin disse...

Uai, acabou?

Marcia Barbieri disse...

Muito obrigada pelas leituras!!!!!

beijo a todos

Christiane Angelotti disse...

Adorei,Márcia!
Gosto de ler as diferentes percepções da morte. Todas se fundem e se complementam.
Bom, já sabe,né? Maravilhoso!

pianistaboxeador21 disse...

Belíssimo!