17 de jun. de 2011

Meu quarto de hotel

Por jjLeandro

Há muito tempo moro nele e sei tudo sobre ele... obviamente também sabe tudo de mim. Desconfio que saiba mais sobre mim que eu sobre ele. Nunca me disse, mas receio que sabe se ronco ou não durante o sono. Se sabe, é discreto. Mas tenho medo da minha intimidade assim devassada no momento em que estou mais vulnerável: no sono. É quando volto a ser criança à mercê de quem me vê e me toca. Ninguém devia jamais dormir. A insônia devia ser um benefício fisiológico do ser humano. Entre inimigos o sono é morte assegurada; a vigília é a vida preservada.

Mas bem ou mal, entre tapas ou entre beijos, tornamo-nos com o tempo unha e carne, ou melhor: pele e tinta. Envelhecemos juntos, essa é a mais pura verdade! A minha pele encarquilhando com o tempo, as rugas formando sulcos; a pintura dele rachando em muitos lugares, mostrando suas outras peles anteriores a minha chegada. Nunca me disse, mas está na cara, ou melhor, na parede, que é mais velho algum tempinho que eu. Não quis lhe meter numa saia justa perguntando a idade. O bastante é que perdemos o viço juntos e isso criou entre nós um salutar sentimento de cumplicidade que torna desnecessários conselhos ou críticas recíprocas. Assim vivemos melhores e mais tranquilos, um confortando o outro na solidão que é o nosso mundo.

Ele é um quarto de hotel de um antiquíssimo edifício da rua principal da capital, construído em três andares — fica no primeiro — no mais apurado estilo neoclássico retrô. A cidade cresceu, o prédio perdeu a imponência sufocado entre espigões e o quarto, a sedução. Agora, como eu, acusa a perda progressiva da audição. Culpa da barulheira dos carros que entopem a avenida. Logo abaixo da marquise do prédio está um sinal controlando o fluxo de veículos e exasperando os motoristas que por isso abusam das buzinas. Além disso, a barulheira de outros tempos quando executou funções diferentes pela sobrevivência — foi residência, escritório de empresa e quarto de encontros para sexo pago — deixou-lhe sequelas graves na audição. Lamenta ainda hoje o som das tevês em último volume, o matraquear irritante das antigas máquinas de calcular e as pancadas surdas das teclas das máquinas de escrever, a música alta das prostitutas em noites sem fim. A minha perda de audição é uma genuína presbicusia, a idade me causou essa alteração. Mas de uma ou outra maneira o resultado é que nós dois caminhamos para a surdez.

Quando pela primeira vez mijei na roupa e descobri a incontinência urinária, quase morri de rir. Não pela flagrante volta aos tempos de criança e a lembrança de ter diante de meus cândidos olhos o dedo acusador de minha mãe num gestual que entendia bem: ‘criança que mexe com fogo mija na cama!’ É que descobri também que meu quarto sofria o mesmo constrangimento. E fiquei surpreso por ter conseguido esconder de mim esse vexame por tanto tempo. Logo de mim que sou pele e tinta com ele. Mas bastou um dia olhar embaixo da pia do banheiro para ver a pocinha que se formara com o tempo. Saí então escancarando sua intimidade, mesmo contra a sua vontade, e descobri incontinência em outros lugares: no chuveiro do banheiro e nas torneiras do simulacro de área de serviço. Como pudera não ver isso? Bem antes de mim ele começara a sofrer de incontinência urinária e cometera o ilícito de me esconder esse desarranjo. Não percebi por pura cegueira.

Cegueira? É bem verdade que de uns tempos para cá ando tropeçando nos móveis. Cada chute que acerto na mobília é um ferimento garantido na perna e um grito de dor instantâneo do meu velho quarto pelos arranhões em sua já maltratada parede. Se ando meio cego, ele também não vê muita coisa: seu olho mágico, coitado, há muito já era. Disse-me com mal disfarçada impotência que uns pirralhos dos tempos dos seus aluguéis para residência gostavam de lhe cutucar o olho com uma caneta. Deve vir daí a sua cegueira.

Mas como dois velhos amigos ele suporta a minha ranhetice e eu o defendo de ratos, pulgas e percevejos, um tormento nessa idade de abandono. Mas acho que estou em desvantagem. Não comento com ele para não preocupá-lo, ademais pouco poderia fazer. Contudo penso assiduamente que se aproxima o dia em que nos desligaremos. Chegará a hora em que meu corpo não terá mais conserto. Será a falência. Ele desconfia disso? Já o vi algumas vezes melancólico ao retornar de minhas frequentes visitas ao médico. Numa conversa que não sei como começou nem como terminou me falou do morador que me antecedera: um velhinho aposentado. Morreu subitamente após três anos de grande amizade. Por isso relutou em tornar-se meu amigo. Resistiu o quanto pôde em criar laços afetivos comigo. Mas o zelo de inquilino novo, a cera constante no piso, a lavagem periódica das paredes, o desembaciar dos velhos vidros das janelas foram mimos que o fizeram render-se. Por pura vaidade sentiu-se remoçar. Ah, esse quarto de hotel parece mais humano que eu. Mas, como dizia, sei que há hora para tudo. Até para nossa despedida.

Mas antes de partir vou demolir a sua fé na eternidade. Sim, vou mesmo. Detesto a empáfia em pessoas e em imóveis, ora bolas! E em nossas conversas sobre história gabou-se muitas vezes de ter sido testemunha ocular (quando o olho mágico lhe permitia esses prodígios!) do desassossego do Golpe de Getúlio em 1930, da Revolução Constitucionalista de 1932, da recepção aos pracinhas vitoriosos em 1945, do nefando golpe militar de 1964, da vibração da conquista da taça Jules Rimet em 1970, das multidões na rua em favor da redemocratização na década de 1980, e por aí afora. Acredito piamente que não sabe nada sobre demolições. Vê com uma ponta de ciúme os altos prédios que o rodeiam, construídos muito depois do prédio que o abriga. Mas ignora que pode também um dia ter o mesmo destino dos que deram lugar aos arranha-céus de aço e vidro, tão cheios de saúde e vigor a sua volta.

Vou esconder esta carta na manga até a última hora, como ele escondeu de mim a incontinência urinária. Quando jactar-se em uma de nossas constantes lides sobre história, pam!, faço desmoronar o seu castelo de sonhos. Melhor que o seu fim venha sem dor, rapidamente como nas injeções letais das execuções americanas, pelo moderno método da implosão. Não o quero ver sofrer. Apesar de ser um humano, e só os humanos tramam às costas dos que amam, não quero que sofra a terrível dor de ver seus tijolos retirados um a um sem poder opor resistência.

jjLeandro – Jornalista e escritor de Araguaina – TO. Autor do livro de poesias Quase Ave (2002); Em 2008 lançou o ensaio histórico Babaçulândia. Em 2009 publicou o romance A Morte no Bordado, prêmio de 2008 da Bolsa de Publicações Maximiano da Mata, da Fundação Cultural do Tocantins. Edita o blog http://jjleandro-jjleandro.blogspot.com/

Um comentário:

Paulo Laurindo disse...

Somos o que percebemos. Requintado monologo de grande apelo dramático.