18 de jun. de 2011

Leituras dramáticas da peça ‘Trinta gatos e um cão envenenado’, de Geraldo Lima



Sobre ‘Trinta gatos’ e as ‘Quartas dramáticas’


Por Augusto Rodrigues e Francisco Alves


A apresentação de Trinta gatos e um cão envenenado proporcionou mais uma etapa do projeto de extensão Quartas Dramáticas, no qual o objetivo é trazer à tona a leitura de textos dramáticos, canonizados ou não. Através de uma estética marcada por tons escuros, o público, já contaminado pela performance do lado de fora de um dos personagens, adentrou a casa onde os dramas familiares, fadados à desgraça, se desvelaram todos num cabedal de fraquezas, que ganhou força graças à recepção do público.

Por meio de diálogos tensos, marcados por concisão e instabilidade, o imaginário da desgraça familiar que Geraldo Lima criou foi se delineando, ao longo da leitura, através de uma operação que impedia que o público se sentisse confortável, ou bem-vindo nesta casa. A memória, nesta leitura, ganhou status e performatividade, quase um personagem dotado de autonomia e leveza, pois o crime contra a dignidade humana, apresentado no texto, só é visível por conta dos mecanismos da memória. A casa e a memória se fecham num ciclo fantasmagórico a assombrar os personagens em constante limite.

Os conflitos, empostados pelos alunos e professores que emprestaram corpo e voz aos personagens de Lima, foram bem defendidos. Aqui se faz interessante assinalar que os participantes não fazem parte diretamente do universo cênico, mas uma mescla, pois o grupo, constituído de alunos das Letras, Ciências Sociais e até um de Química, em nenhum momento da leitura deixou a tensão natural do texto cair, ou transformar os personagens em meras caricaturas humanas, ao contrário, os personagens de Geraldo Lima, por um triz, não devoraram a plateia. O banquete esteve pronto. O vinho envenenado, a casa, uma “crônica da casa assassinada”, pois os enfrentamentos estabelecidos entre os viventes eram calados pela energia da própria casa que, além de ter sido o palco do crime, era a um só tempo o álbum de família deturpado pelo cão envenenado.

A presença de Geraldo Lima, autor de Trinta gatos e um cão envenenado, teve impacto tanto no público quanto nos leitores. O autor, como sistematizador destas vozes, muitas vezes abafadas na vida real, ganhou não só legitimidade por conta da leitura dramática, enquanto ato coletivo, mas individualizou-se no meio artístico de Brasília. Portanto, que Trinta gatos e um cão envenenado tenha vida longa, e que muitos possam ter em mãos essa bomba-relógio a configurar-se nas páginas de uma tragédia que liga o antigo e o moderno num jogo de espelhos quebrados, logo, azarados, onde gatos encaram suas almas destroçadas pelo desejo de um homem por uma quase mulher, sua filha, seu sexo, enfim, seu prêmio de outros tempos.

Augusto Rodrigues é poeta e Professor Adjunto de Literatura Brasileira da UnB. Autor dos livros Niemar (poesia, Editora Vieira, 2008) e Onde as ruas não têm nome (poesia, Thesaurus Editora, 2010).
Francisco Alves é Mestrando em Literatura na UnB.



Duas leituras dramáticas que me emocionaram


Por Geraldo Lima

‘Em diálogo com o teatro do absurdo, Geraldo Lima realiza um trabalho de transformação do mito da vingança.’ (Do prospecto de apresentação da leitura da peça Trinta gatos e um cão envenenado)

Sabemos que o texto teatral só se realiza, por completo, ao ser encenado. É no palco que ele ganha vida. Através da ação do ator e da atriz, que incorporam o personagem e o apresentam diante de uma plateia, ele se expande, encanta e desperta reflexões. Mas o que dizer da leitura dramática, que não é ainda a encenação de fato do texto teatral? Já tive a imensa alegria de assistir a duas leituras dramáticas da minha peça Trinta gatos e um cão envenenado e posso dizer que, em ambas, saí com uma visão renovada sobre o meu texto. Foram leituras que o iluminaram.



A primeira foi realizada em 2009, na 5ª Mostra de Dramaturgia de Brasília, coordenada por Paula Braga. Foi uma leitura branca, sob a direção de Eduardo Suindara, com as atrizes Vanessa Di Farias e Eloisa Galeão, e os atores Pecê Sanváz e Danilo Lins. Nesse tipo de leitura, os atores permanecem sentados, fazendo, às vezes, apenas gestos e algumas expressões faciais. Mas não deixa de cumprir o objetivo de apresentar ao público o texto na sua íntegra e dar uma primeira impressão de como ele pode funcionar no palco. É uma oportunidade também para o autor fazer ajustes no texto. No caso dessa primeira leitura, pude sentir que a minha peça correspondia ao que eu esperava dela como dramaturgia. Foi uma leitura feita por atores, alguns com larga experiência nos palcos brasilienses, como é o caso da atriz Vanessa Di Farias e os atores Pecê Sanváz e Eduardo Suindara (este último dirigiu e fez a leitura das rubricas). O resultado, como era de se esperar, foi excelente. O legal é que esse tipo de leitura permite (e até exige) que o público construa parte do espetáculo na mente, ao imaginar o cenário e a movimentação dos atores e atrizes no palco enquanto dão vida aos personagens. No debate que ocorreu após a leitura, tive esse tipo de feedback de alguns espectadores, ou seja, aquela leitura, feita de modo concentrado, denso e acentuando a carga emotiva de cada fala, permitiu que a plateia construísse no seu imaginário uma possível montagem do texto. Foi, para mim, uma experiência gratificante.





Na segunda leitura da peça, realizada no dia 15 de junho de 2011, no Anfiteatro 09 da UnB, pelo projeto de extensão Quartas Dramáticas (coordenado pelos professores André Luís Gomes e Augusto Rodrigues), pude ter uma nova percepção da carga dramática do meu texto, da sua alta voltagem teatral. O modo como o concebi, mesclando uma linguagem densamente poética com uma mais seca, cotidiana, denotativa, pareceu-me render o esperado ao abrir zonas de puro lirismo e assombro diante do vago, ao mesmo tempo em que deixava exposta a ferida gangrenada da realidade bruta e rotineira na qual transitam os personagens. Mas só foi possível perceber tudo isso porque o elenco, composto por alunos e professores, todos da Universidade de Brasília, incorporou os personagens de maneira tão intensa e convincente que o texto, embora vindo ainda a público numa leitura, mostrou-se eficaz como dramaturgia. Ali, no palco do Anfiteatro 09, optou-se por uma leitura encenada. Nesse caso, o público pôde assistir a uma quase montagem do texto. Havia um cenário, alguns adereços e um figurino. Embora estivessem lendo em cena, os atores e as atrizes traziam no rosto e na expressão corporal uma imagem precisa de cada personagem. Pude ter, naquele momento, pela capacidade de interpretação do elenco, uma ideia mais clara de como o meu texto pode funcionar no palco. Impressionaram-me, sem dúvida, as atrizes Ana Cristina Vilela (Dona Altina) e Débora Andréa (Zeza) com sua capacidade de transmitir emoção e de nos convencer em relação ao sofrimento da personagem. Vi as duas criaturas concebidas por mim ali, inteiras, esmagadas pela carga de medo, dor e loucura que trazem em si. O Coro das Máscaras (Pedro Couto, Geovanni Timbó, Artur Dias, Francisco Alves) foi uma grata surpresa também: impactante e assombrosa presença a desvelar as zonas obscuras que cercam a vida de uma família mergulhada num irreversível processo de desintegração física e psicológica. Na boa interpretação do professor Augusto Rodrigues, visualizei, mais uma vez, a figura ébria e cínica do José assim como a imaginei: capaz de provocar o riso, em algumas passagens, ao contrapor sua fala profana ao fanatismo religioso da esposa. Boa também a interpretação do Marcelo Paiva para o quase insípido Augusto. Deu-lhe uma certa agressividade que tornou sua presença até mais forte do que eu havia imaginado. A solução cênica encontrada para a Consciência Ideal de Zeza (Ana Clara Medeiros), falando em off, foi bem acertada. Essa é uma solução entre outras tantas que podem ser usadas. Se tudo isso funcionou assim, bem orquestrado, é porque a direção do professor Augusto Rodrigues e do Mestrando Francisco Alves encontrou o caminho certo entre a simples leitura e a encenação de fato.

Minha peça Trinta gatos e um cão envenenado encontrou, dessa forma, nas duas leituras de que foi objeto, atores, atrizes e diretores que souberam captar muito bem sua carga dramática e poética. Dou-me por satisfeito então, aguardando, a partir de agora, sua montagem definitiva.

A peça Trinta gatos e um cão envenenado, de Geraldo Lima, foi publicada recentemente pela Ponteio Edições.

6 comentários:

Angela disse...

Muito bom texto, deu vontade de ler o texto na hora! Desejo que a peça seja levada à cena em breve e que chegue ao Rio de Janeiro.
Parabéns Geraldo, deve ser gratificante ver paridos e viventes nossos personagens.

Christiane Angelotti disse...

Orgulhosa desse meu amigo!
Imagino a alegria e emoção ao ver a obra ganhando uma outra linguagem.
Sou fã do escritor e da pessoa do Geraldão!
Sucesso! que ganhe logo os palcos e viaje Brasil a fora.

Wagner Bezerra disse...

Fiquei curioso, adoraria ler o texto!

Abraço!

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Angela. Vamos torcer para o texto chegue mesmo aos palcos. E ao Rio, com certeza.
Um abração.

Diário de uma Paulistana, muito brigado. Suas palavras me enchem de ânimo. Um abração.

Wagner, você pode encomendar o livro na Livraria Cultura ou na FNAC. Obrigado. Um abração.

Poliana disse...

É sempre emocionante saber da literatura viva! A resenha desperta a curiosidade... Pelo empenho de todos, imagino que a noite deve ter sido brilhante. Parabéns pelo trabalho.

Geraldo Lima disse...

Foi uma apresentação inesquecível, Poliana. Obrigado pelo comentário.