6 de mai. de 2011

Vermelho Sangue

por Marcia Barbieri

Meu rosto tem linhas duras e assimétricas. Eu - carne de pescoço. As arcadas são grandes relinchos de cavalo. Uma pintura cubista em mão de criança. De todas as anomalias, a feiúra é a única imperdoável. Ele costumava dizer enquanto enfiava os dedos no meio das minhas pernas e afastava minha calcinha.

Estou te fazendo um favor, era o que ele dizia nas entrelinhas viciadas dos seus dentes. Era nojento e eu cedia, eu gostava.

Um favor, é só um favor, não se acostume.

Uma década depois você se tornou uma metáfora cansada, catacrese, teu pau músculo rançoso na minha boca. Uma casa de espelhos. Quebro todos eles. Recolho os cacos. Enfio na sola dos meus pés. Acupuntura. Vejo o sangue escorrendo.

Escoliose. Aberração. Minhas vértebras sinuosas, comprimidas, hérnia de disco, a serpente castigada, o ventre abaulado cravando estrias no chão. O útero velando fetos suicidas. Minha cabeça dói, em todos os tendões, campos minados. Trago no inconsciente a morte de 10 mil soldados. Sonhos de Kurosawa. Fumo um cigarro sozinha no escuro. Não alivia a dor, mas dissimula minha mágoa.

Um metro e sessenta, trinta e nove quilos. Imagem borrada. Todos os olhos se voltam para os meus ossos. Um cão saliva. Observo meu corpo nos vidros dos carros. Gorda. Meninos rindo. Morfina naufragando veias.

Passo os dedos em torno do umbigo. Portas, vãos e umbrais. Conto as fissuras. Só, advérbio da solidão. Côncavo. O nascimento traz consigo a amputação da morte. Os dias são próteses mal acabadas. Furo. Toda imundície se acumula ali. Arredio. A vida é um pouco dessa matéria escura. Nenhuma grande decisão foi tomada sem que antes um revólver ameaçasse explodir minhas tripas. As vísceras são feitas de merda e merda é sólida, é pulsação – comentava o filósofo que frequentava o boteco da esquina enquanto comia uma buchada de bode.

Ainda consigo enxergar os lábios roxos do meu tio sussurrando, é só um favor, é só um favor, não se acostume.

Na calçada em frente, uma figueira branca racha o asfalto, as raízes entopem o esgoto. Ninguém vê. O homem não fareja a própria bosta.

15 comentários:

Alessandra Safra disse...

menina, menina. que fôlego para esse voos nada rasos. adoro ler vc e o que sua literatura provoca em mim. cada frase é navalhada nos meus sentidos.

abraços

luciano fraga disse...

Márcia,pura intempérie diante das dores e da catarse humana, sempre dolorida e maravilhosa sua escrita, uma forte abraço.

pianistaboxeador21 disse...

Acho que já li esse conto em algum lugar. Não sei onde.rsrsrsrs.
De qualquer modo é Sublime. No sentido que a palavra tem no século XIX. O prazer que só as paixões crueis e primitvas nos causam
Beijo

Anônimo disse...

Forte e perturbador; gostei, parabéns, Márcia!

Victor Lima disse...

Legal.

Sonhos melodias disse...

Marcia,já sabe que sou sua fã de carteirinha né? Menina danada pra escrever! Seu texto carregado de imagens ao mesmo tempo poética e visceral mexe literalmente com minhas entranhas.Não mude nunca seu modo de escrever amiga. Bjs

Luciana Iser Setúbal disse...

Oi, Márcia!

Entre todos os escritos que conheço de tua autoria, para mim um dos melhores, com linguagem, estilo e narrativa combinados em equilíbrio. Lindo!

Parreira disse...

La Barbieri: vertigem!

cirandeira disse...

"O homem não fareja a própria bosta", porque não pode farejar a si mesmo, mas o teu texto
vai às entranhas desse submundo fétido e cruel
despindo, rasgando a sordidez dos seres humanos.
É preciso muita garra, muita força interior para
mostrar com sensibilidade e clareza como vivem(?)os marginalizados pela nossa sociedade.
"É só um favor, não se acostume". !!!
Obrigada, Márcia

Paulo Laurindo disse...

Na falta do que dizer, digo: desconcertante!

Anônimo disse...

Cara Márcia, senti nojo....tesão, vertigem,inquietação, curiosidae. Construí imagens familiares e vi novas paisagens.
Enfim ; literatura de qualidade.
Um beijo e até a vista!
Josafá

Marcia Barbieri disse...

Amigos,
agradeço demais a leitura atenta do texto, tão bom saber que me fiz entender através da Literatura.

um beijo a todos

Assis de Mello disse...

Márcia, você não apenas se fez compreender, mas sempre nos faz derrubar o queixo. Exatamente como os amigos já disseram aí em cima: lindo, desconcertante, perturbador, vertigem, poética e visceral, sublime, paixões crueis e primitivas, navalhada nos sentidos, intempérie, um dos melhores, nojo, tesão, vertigem (de novo),inquietação, curiosidade... E o pior: tudo isso se aplica a cada um dos seus contos- não de réis, mas de reis e rainhas. A sua força expressiva, ousadia, domínio da escrita e bom gosto a tornam singular e imprescindível. Pense no livro de papel que eu já venho imaginando autografado.
Chico

Lohan Lage Pignone disse...

Marcia, como disse uma das pessoas acima, na falta do que dizer: desconcertante. Sua descrição da feiúra humana, física e espiritual, escorreu diante dos meus olhos como um sangue - vermelho e da mais pura linhagem.

Parabéns.
Bjs, Lohan.

Marcia Barbieri disse...

Chico e Lohan,
muito obrigada pelas leituras!!!!!!
beijos