27 de mai. de 2011

Um miniconto do livro 'Tesselário'



Por Geraldo Lima

VI. Malês.

Pelas ruas de São Paulo, seguindo-a. Um negro em seu encalço. Assustada? Passos lépidos, ancas envolventes: uma princesa nagô, sem dúvida alguma.

— Luíza Mahim. Senhora Luíza Mahim!

Aproveitou a multidão e estacou. Uma princesa nagô, não tenho dúvida.

— Que merda é essa! Não me chamo Luíza...

— Mahim... Luíza Mahim, mãe de Luiz Gama...

Perplexa. Querendo entender e não podendo.

— Lembra-se dos malês? O Recôncavo Baiano, o quintal da sua casa...

Já havia virado as costas, aborrecida. Fez assim com uma das mãos, como se dissesse: cada maluco que me aparece.

Não a segui mais. Que se fosse, desconhecendo quem realmente era. Havia outras. Mais dia menos dia, uma se apresentaria diante de nós, uma princesa nagô:

— Senhores, é por aqui. Eis o meu quintal... Vamos começar tudo de novo.


O livro Tesselário foi publicado recentemente pelo Selo 3 x 4, Editora Multifoco.

3 comentários:

Christiane Angelotti disse...

Que encanto!
Parabéns,Geraldo! e recheou o miniconto com elementos tão ricos.

Paulo Laurindo disse...

Original homenagem a Abdias do Nascimento: trazer à baila a lembrança desta guerreira, numa das muitas revoltas (esquecidas, pouco lembradas?) contra a opressão em solo brasileiro.
A luta continua, Geraldo, bem atesta teu personagem neste curioso e provocativo "reclame".

Geraldo Lima disse...

Diário de uma Paulistana, muito obrigado pelo comentário elogioso. Um abração!

Pois é, Paulo, acho que a figura da Luíza Mahim é muito importante, deveria ser lembrada sempre. O Luiz Gama, então: primeira grande consciência do que se chamaria posteriormente de "negritude". Obrigado pelo comentário!