25 de mai. de 2011

O Estranho

Por Claudio Parreira

Até os meus cinco anos eu não tinha percebido nada. Havia um muro à minha volta, ninguém falava naquilo, todo mundo me apertava as bochechas e as tias viviam repetindo lindinho lindinho.

Daí que achei que eu era isso mesmo, o lindinho das tias. Mas eu via nos olhos dos adultos um brilho estranho, as conversinhas às minhas costas, os risos.

Os risos. Muitas vezes, tonto, eu ria junto. Aí eles riam mais ainda, ficavam vermelhos que até as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos. Era muito engraçado.

Mas eu comecei a desconfiar de tanta graça. Era bom demais, e eu, no fundo, não me achava tão engraçado assim. Foi aí que eu percebi que eles riam de mim.

No início foi uma sensação incômoda, e eu não fiz a menor questão de esconder. Quanto mais eles riam mais eu chorava. Até que minha mãe falou algo que não me tranqüilizou, mas me deu a exata noção do futuro:

- Não liga pra eles. Vai ser sempre assim. Ou você aprende a lidar com isso ou eles acabam com você.

Uma constante na minha vida: entrar num restaurante e pedir um bife com fritas era um escândalo. Os outros me olhavam de lado, alguns me repreendiam abertamente, uns tantos riam e riam. A frase da minha mãe sendo repetida mentalmente, dia após dia.

Comprar uma calça era difícil, eu precisava mandar fazer. Assim também com as camisas. Os sapatos eram raros. As coisas mais idiotas do cotidiano exigiam de mim duplo esforço. A única coisa fácil era a minha indignação.

— Pai, quero te apresentar uma pessoa — falou a minha primeira namorada.

O sujeito olhou pra mim, a boca aberta, os olhos arregalados de susto.

— Isso aí? — ele perguntou. — Você tá namorando isso aí?

No mesmo dia o namoro acabou. E não foi por falta de amor; ela não merecia passar o que estava passando ao meu lado, uma humilhação atrás da outra. Ela não precisava disso.

Estou sozinho hoje, bem mais velho do que eu imaginava, e mamãe já se foi faz tempo. Dela guardo apenas um retrato e a frase que me situou no mundo. Não sinto mais raiva, nem ressentimentos, vivo apenas, da melhor maneira possível. O tempo me deu a sorte de saber que não é fácil ser humano neste mundo de cavalos.

5 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Pô Parreira, muito bonito, realista e triste. Teu texto encontrou ressonância em mim. Sério mesmo. Lembrei da musica dos bee gees:

I started a joke
Which started the whole world crying
But I didn't see
That the joke was on me
I started to cry
Which started the whole world laughing
Oh if I'd only seen
That the joke was on me.

Abração parceiro,
D

Christiane Angelotti disse...

Divertidíssimo, Parreira.Parabéns!

Como vivo em outro mundo, lembrei do que me é familiar: Andersen, O Patinho Feio...

De certa forma todos nós somos estranhos. Às vezes a nós mesmos. O que é mais preocupante.

Então, viva a estranhice.

Ass Lady Angie/ Pocahontas... pronto, já entreguei até meus apelidos, também sou estranha.

Parreira disse...

Ass Lady é ótimo rsrsrsrsrs

Geraldo Lima disse...

Parreira, eu estava quase chorando, mas esse finalzinho aí( este "neste mundo de cavalos") interrompeu meu quase-choro e desatou meu riso. Muito bom!

Chico Pascoal disse...

O texto me comoveu. Rir pra você e rir de você são coisas bem distintas. O conto trata do bullying cruel do mundo que se mostra mais perverso quando temos olhos infantis como os olhos de um bandido.

Este é o Parreira, fiquem ligados!