2 de mai. de 2011

Juca Brasil, herói particular – Parte VI

O casamento real



Que honra! Recebi convite para a cerimônia matrimonial das realezas. Não, não se trata de casamento real britânico ou de outra corte de grande ilha; o evento foi por paços de cá mesmo. Como a moda é um traje rejuvenescido que se tira do guarda-roupa de tempos em tempos, as traças também saem à luz dos dias celebrados.

Jovem senhora oriunda de nova classe média quis imitar costumes das majestades do velho mundo por estas terras, quase, republicanas; o evento se deu lá para as subidas de Petrópolis, a Cidade Imperial – província dos ares frescos e pouco mais fidalgos. O reino ordinário tinha lá castelo, corte com figurantes de príncipes e princesas, duques, condes, viscondes, arquiduques. Contratados diretamente das barraquinhas de cachorro-quente e churrasquinho de São Cristóvão, serviçais fazendo vez de criados e pajens, amas e babás. Também vieram os vira-latas, as aves fugidas do Ibama, os cavalos emprestados de carroceiros da Marquês de São Vicente e assim por diante; todos a tratar do pragmatismo real. Cavaleiros, arqueiros e lanceiros – de ofício, seguranças de boates e cabarés – protegiam todo o reino. Serviam a festança cozinheiros, padeiros, confeiteiros parentes dos próprios noivos, mas quando estes viviam republicanamente – o bufe majestoso tinha suculenta feijoada, coxinha e carne-louca. Os brindes eram com sidra, e cerveja a rodo. Alguns davam lições de bons modos e raros de espírito; havia alimento divino sob dízimo do Antigo-Testamento. O castelo estava cercado por magros pastores cuidando de gordas ovelhas. Desenhos de celebridades instantâneas, isto é, de artistas se misturavam às insígnias dos fantasmas imperiais trazendo pouco de luz às trevas do ambiente. Os nobres nubentes mandaram vir músicos da capital do condado, o funk rolou solto por toda aresta do castelo com o “Bonde da realeza”. Pintores, de parede; dançarinos, de pagode; poetas, de esquina; dublê de atores e todo tipo de renomado comensal a alegrar o banquete hipócrita onde se elogiou a feiúra das marquesas, apalpando também o ego de reis e barões, encenando o que os homens gentis quisessem ouvir ou ver. Como vê, foi este tablado imaginário de troca de alianças de ouro aristocrático às avessas, em Petrópolis.

Ah! Mas tudo perfeito, leitor; não fosse um fato. Doença. Semanas antes, em serviço de caridade ambígua à dona Gorete, a minha secretária particular, peguei indisposição libidinosa. Sim, está bem. Exato, não posso mentir a quem acompanha tamanhas aventuras: este herói que tanto admiras está enfermo de doença sexualmente transmissível. Arghhh!

Sim. Não é caso para mandar embora minha funcionária, nem cogito isto; o saldo seria negativo. Além de que a culpa não é dela. Seu ofício na esquina dos cabarés é imperativo. Também nada de contrário cogito porque dona Gorete estende tapete bem grande à entrada da porta de sua casa com os seguintes dizeres: “Proibido a entrada de desaforos!”.

Extenuando o fato da convalescência, ainda havia uma prosopopéia típica de super-herói vindo de alma humana: como deixar de aparecer em celebração de gala? Mas e o tal achaque? Mas e como faltar sendo eu legítimo representante da classe heróica do país? Que dilema! Então fui à festa.

Devidamente embecado, mal eu pisei no tapete vermelho desenrolado às pressas, escutei todas as línguas dos súditos do vilarejo.

- É celebridade?

- É artista?

- É jogador de futebol?

- Não, é super-herói!

- É o super-homem?

- É o Batman?

- É o Jaspion?

- Não, é o fantástico Juca Brasil!

- Quem?

- É convidado.

- Ah... Ah é! Ô, seu Juca, seu Juca, me dá um autógrafo?!

Imperioso. Conto-lhes aventar que nessas e outras apresentações, saudações e tapinhas às costas, alcancei as intenções principescas da irmã da noiva. Ana Bolena, tal qual, que por questão de classificação, também era daquela corte. Os olhares dela me impetraram em cheio, instantaneamente. Que princesa gostosa! Embora não fosse do mesmo séquito de bons costumes da nobreza, ô mulher gostosa! Nisto acometeu-me outro litígio moral: Ter ou não ter relações libidinosamente fidalgas com aquela belíssima dona à estronda, eis a questão. Diria o famoso poeta metido a estudar reinos, reis, príncipes e plebeias de toda a ordem que há mais mistérios entre o mar e a serra do que sonha a nossa vã ética impudica... Fui aos lençóis da realeza no início do final de semana e só saí de lá no domingo depois de conferir os gols da corte – ou da república, àquela altura o excesso de sidra e espumante de toda qualidade etílica já perturbava completamente a minha pouca noção política.

Foi o casamento real de dois corações republicanos mais bonito que assisti – confesso! E foi uma festa mesmo inesquecível, este sim o adequado casamento do século!

Apenas hoje, logo pela manhã, fui abordado pela consciência heróica e tive de telefonar à Ana Bolena, minha princesa querida, mais bela que qualquer Catherine, fugaz amor fidalgo, contando-lhe a verdade sobre o meu estado de saúde:

- Alô, Ana? É o Juca, tudo bom? Então, tenho que te falar uma coisa... Então, sabe, desculpe-me, mas eu estou com gonorréia...

- O quê? E não disse nada, cacete? Porra! Seu filho da p... Transamos o final de semana inteirinho naquela festa de metidos à besta e você não diz que está com... com essa porra?

- Pois é; perdoe-me, querida...

- Está bem, esta bem; tudo bem. Pelo visto você é herói mais para sapo do que para príncipe, né?

- Não sei o que te dizer... – E, naquele momento, não soube mesmo; tive receio do espírito vingativo de Ana Bolena, e, sentindo-me já no cadafalso da torre de algum suntuoso palácio, veio-me repentinamente o medo da decapitação.

- Não é preciso dizer mais nada, senhor Juca Brasil; mas me faça um favor?

- Claro! Que quer, amor?

- Não me ligue nunca mais, cafajeste!

Interrompeu-se bruscamente a conversa, creio que tenha ocorrido queda de ligação; essas companhias telefônicas... Telefones, gonococos transmissores da burocracia! Serviços republicanos de merda! Ah, se estivéssemos na monarquia, quiçá com parlamento e toga de reverência... Fiquei a pensar isto relembrando todo deslumbramento da festa e do requinte da corte. Ah, a monarquia! Ah, a monarquia!

***

* Todos os episódios podem ser lidos AQUI
Vamos à próxima aventura, em breve. Bons dias e boas noites.

3 comentários:

Chris Araújo Angelotti disse...

Super divertido! Tadinho do Juca...

Cris disse...

Muito bacana! E eu que nem sabia que tínhamos um herói brasileiro, que ultraje!

Paulo Laurindo disse...

Esse nosso super herói anda mal das éticas.