30 de abr. de 2011

O pequeno vasto universo de Ferdydurke


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Por Carolina Silvestrini

Publicado em 1937, na Polônia, “Ferdydurke”, de Witold Gombrowicz, é precisamente o que se chama de Universo Contido, no caso, Em Um Livro. A sinopse é simples: Józio Kowalski, escritor de trinta anos, é arrastado de volta para o colégio por Pimko, um professor obcecado com a idéia da juventude, com a desculpa de que “seus escritos são por demais infantis”; ele também é retirado de sua casa e levado à residência dos Lejeune, que será sua hostfamily, e que o vêem como um jovem de maneiras antigas, inadequado à sociedade moderna, opondo Józio à filha adolescente, Zuta, que incorpora o “estilo moderno” com maestria. No colégio, ele encontra o estudante Mientus, cujo grande objetivo é deixar a cidade e morar no campo, para encontrar um jovem camponês com quem travar as mais inocentes relações de amizade. Após grandes desentendimentos com os Lejeune, Józio e Mientus fogem juntos para o campo, onde acabam hospedados na casa de sua tia – a qual, como todos os outros, o toma por uma criança; lá Mientus acaba por encontrar exatamente o que procurava, na criadagem da casa. Mais desentendimentos, e Józio termina por fugir outra vez, desta vez na companhia de sua prima, com quem promete se casar.

Simples? Não, não tanto assim. Gombrowicz constrói situações e personagens altamente complexos e simbólicos, e, com tanto, acaba por expor minuciosamente a sociedade ocidental do século XX como um todo, com ênfase especial ao sentimento de progresso e obsessão com a novidade, (herdados evidentemente da era moderna, recheada de novas invenções, novas descobertas científicas, novas correntes de pensamento e, sobretudo, a rejeição intensa do passado).

A narrativa é iniciada com o sentimento de inadequação de Józio, falando exatamente sobre – oh! – quão infantilizado ele se sente, incapaz de compreender seus colegas escritores, tão adultos. Sentado em sua cadeira, ele vislumbra um homem, que identifica como sendo ele mesmo, e, na tentativa de alcançá-lo (num esforço de descoberta do eu-próprio), ele acaba por se afugentar. Entra Pimko.

Pimko é um professor de cerca de sessenta anos que, ao se manter em frequente contato com a juventude (o futuro!), busca manter-se também jovem, atualizado em relação à modernidade que entra pelas portas e janelas sem pedir licença. Pimko: o Passado que tenta reinventar-se de modo a andar lado-a-lado com o Futuro, sem ser deixado para trás.

Os Lejeune – tradução literal do francês Ojovem –, que acolhem Józio por intervenção do professor Pimko, são a família ideal da geração do pós-guerra: mamãe e papai engenheiros, jovem filha moderna. Zuta é uma espécie de Dolores Haze polonesa; jovem, bela, ativa, insolente. Mecanismo de borboleta preso na teia da modernidade, onde não há tempo para meditações profundas e contemplação – é preciso estar sempre em movimento, sempre ocupado, sempre inalcançável como quem adeja sobre a realidade sem tocá-la. Dentro desse contexto, ela desempenha seu papel com admirável desenvoltura; ela é o resultado da influência norteamericana crescente sobre a Europa, esportes e jazz e ultra individualidade, esta última estampada com orgulho no rosto de milhares de outros jovens. A atração que ela exerce sobre Józio é exatamente aquela de Lolita sobre Humbert Humbert, a oposição da juventude contra a maturidade, o que faz com que – fenômeno previsto e evitado a todo custo pelo protagonista – ele não mais queira voltar à sua vida anterior, adulta, e prefira aceitar a condição de apequenamento em que ele se encontra.

Mientus, por outro lado, é o jovem que rejeita a complicadíssima sociedade moderna e deseja voltar a um estado de, digamos, ressacralização da natureza, do simples. Para isso, ele precisa ver-se na mesma condição de um camponês (o qual, como ele mesmo diz, deve ter uma cara ao invés de um rosto, e patas ao invés de mãos, dessa forma o aproximando mais de um animal do que de um humano “civilizado” – pois é exatamente desta civilização que ele deseja escapar); encontrado o camponês na casa da tia de Józio, ele tenta por todos os meios demonstrar a ele que não é como os patrões burgueses, forçando uma equalização impossível entre os dois, pedindo-lhe que lhe dê tapas no rosto a fim de transformá-lo numa cara.

Encontramos assim três núcleos de pensamento, em relação às transformações da sociedade: Pimko, a geração do pré-guerra que deseja modernizar-se; Zuta Lejeune e seus pais, a modernidade em busca de uma imagem ainda mais moderna; e Mientus, que rejeita as tendências da modernidade e deseja a volta a um contexto mais simples.

Józio apenas observa. É do tipo contemplativo.

Mensagem dada: considerações sobre a sociedade do pós-guerra; certo. No entanto, Gombrowicz não se dá por satisfeito. É preciso que a forma do livro acompanhe seu conteúdo, pois pássaro algum pode voar com uma asa só. Entremeados ao enredo principal, estão quatro capítulos contendo dois contos (Philidor Doublé D'Enfant e Philibert Doublé D'Enfant) e suas introduções, pequenos – porém muito relevantes – tratados sobre a literatura: o livro sobre o livro, a palavra sobre a palavra.

Mesmo dentro da narrativa de Ferdydurke, encontramos situações onde palavras e gestos banais performam o papel de Deus Ex Machina; Mientus trava um duelo com outro colega de escola, Siphon, usando como armas seus próprios rostos e olhares, sem se tocarem; uma palavra repetida durante um jantar livra Józio da atração que Zuta exerce sobre ele; e a Sra. Lejeune vive a berrar para seu marido: “nada de diminutivos!”

O jovem escritor Witold Gombrowicz disfarçado de jovem escritor Józio Kowalski traça desta forma um retrato fiel do que observa a seu redor, já prevendo diversas características presentes em nossa era atual, inclusive no que diz respeito à posição do indivíduo na sociedade em mutação, onde ele não tem escolha a não ser dançar de acordo com a música. Józio, apesar de tudo, deve aceitar o papel imposto a ele, a modernidade e tudo o que a ela segue. Mesmo em suas fugas, ele não consegue se afastar daquilo que já lhe foi dado, aquela pequena vida de engrenagem de relógio que precisa do relógio tanto quando ele precisa dela; o homem que foge de si mesmo, logo nas primeiras páginas.

Carolina Silvestrini. Pintura abstrata na sala de espera, recém-formada em Cinema pela FAAP. Publicou nas antologias Expresso 600 (Ed. Andross) e Em Busca da Sabedoria (org. Arnaldo Giraldo), tendo participado também da edição 12 da Revista Offline. Atualmente escreve seu primeiro romance, Estudo de um Pássaro. Adepta da literatura subaquática, bloga em O Peixe Solúvel.

Um comentário:

pianistaboxeador21 disse...

Comprei o Cosmos, tb do Gombrowicz, e vou iniciar em breve a leitura. Gostei muito da sua resenha.
Parabéns.