23 de abr. de 2011

e-Oficina para novos escritores: Preparação de originais: quer pagar quanto?

Por Paula Cajaty

Como dito na última oficina, um escritor, hoje em dia, tem à sua disposição minimamente as seguintes opções de publicação: (a) edições compartilhadas; (b) edição do autor; e, felizmente, o (c) meio virtual, organizados por grau de dispêndio.

No primeiro caso, as edições compartilhadas são caras, mas há quem considere que vale o esforço. O autor recém-lançado recebe o selo da editora e apresenta um trabalho de melhor qualidade e a editora transfere parte do risco de seu negócio para o autor. Se o autor possui condições de pagar e aceita vender parte da produção, é a melhor saída, pois se beneficia de toda a rede de suporte profissional que trabalha para a editora. No entanto, há quem não concorde com essa opção, pois a editora, em tese, poderia perder o interesse na divulgação e na venda do trabalho de seu autor-pagante, uma vez que não possui estoque de livros para desaguar no mercado (quem faz isso é o próprio escritor, que leva os pacotes para casa).

A segunda hipótese (edição do autor) é bem mais em conta. No entanto, o problema da divulgação permanece e, além desse, somam-se outros, como a provável incapacidade do autor em se tornar, em tempo recorde, editor, revisor, diagramador, ilustrador, capista, divulgador, despachante, distribuidor, vendedor, assessor de imprensa, projetista (ufa!) etc etc. Além disso, para o escritor, como pessoa física que é, os custos da gráfica sempre encarecem. Sem contar o desespero de não conseguir entrar em contato com os canais corretos para inclusão do livro em livrarias físicas e, especialmente, nas virtuais.

O terceiro e último caminho – o meio virtual – é, digamos assim, um modelo experimental. Conteúdo online se multiplica avassaladoramente e em tempo recorde e já existem vários programas e instrumentos de alta tecnologia que permitem ao escritor divulgar e distribuir sua obra, mesmo que ela não esteja fisicamente impressa. Tais ferramentas, mesmo quando não usadas para a publicação do livro, propriamente, são imprescindíveis para a divulgação do autor – e sua chegada até o leitor – como se verá adiante.

Essas tecnologias são de fato excelentes, especialmente num mundo informatizado como o nosso. No entanto, o escritor se perde um pouco nesse mar de bytes, e ainda passa por dificuldades no registro de seus direitos autorais e na cobrança para o fornecimento de seu conteúdo - normalmente fruto de muito estudo, trabalho, dedicação e tempo -, pois, via de regra, conteúdo virtual é gratuito.

Pelo que se pode notar, há quatro opções viáveis para a publicação de um livro e todas elas apresentam prós e contras.

Tudo irá depender, portanto, da pretensão do escritor, da sua capacidade financeira, e, claro, do perfil do autor e do conteúdo da sua obra.

De todo modo, não vá se animando todo assim que imprimir aquilo que será a primeira espiral com o seu novo livro, assim que você tenha terminado de digitar a palavra FIM.

Depois de impresso o texto, ainda há muito o que se fazer.

Antes de tudo - e eu juro que sei que você não aguenta mais isso - você terá de ler pela enésima vez o seu livro, tentando encontrar erros de digitação, concordância, regência. Depois dessa pseudo-última-leitura, o ideal é que distribua para algumas pessoas conhecidas, se possível as mais isentas, de forma que elas possam ler e te dar um retorno fiel.

Não vale pôr a mãe, a avó, ou a madrinha nesse trabalho. Tente com pessoas mais distantes e que não terão qualquer dificuldade em apontar suas falhas. Sua sogra, seu cunhado ou o vizinho, por exemplo, são ótimas cobaias. É fato corriqueiro que, num primeiro momento, eles irão sofrer bastante com os seus escritos, mas à medida que se formar um círculo de amizades dentro da literatura, seus leitores-críticos naturalmente passarão a ser professores, colegas de oficina, amigos de correspondência, autores da mesma editora, etcetera, o que aliviará bastante suas cobaias-literárias.

Feitas essas duas revisões iniciais – pelo próprio autor e por pessoas de seu círculo mais íntimo – é a hora de tentar alguém que possua mais intimidade com o mercado editorial. Nem sempre o fato de que você e seu irmão gostaram será garantia de que o corpo editorial de uma editora de médio ou grande porte se apaixone pela sua história.

Neste exato momento, o autor começará a decidir efetivamente o quanto pretende investir na sua carreira literária – se prefere publicar apenas para o seu círculo de amigos, ou se pretende alçar voos no Brasil inteiro e ver seu livro exposto em todo canto: na internet, nas livrarias, nos sebos, nas vitrines, nas gôndolas de ofertas e especialmente na queima do estoque. Lembre-se que até o Augusto Cury é obrigado a se deparar com seus livros na promoção de R$ 9,90...

Bem, se o autor prima por um trabalho feito de forma mais profissionalizada, certamente buscará uma análise crítica ou o que se chama de leitura crítica. Tais análises feitas por outros autores, ou até por editores (na acepção de "pessoas que editam textos de outrem"), são muito válidas e sérias e, recentemente, apenas a título de exemplo, soube-se que até mesmo um autor experiente como Chico Buarque recorreu a Rubem Fonseca, outro escritor consagrado, para que este último fosse o primeiro leitor qualificado de seu romance Leite derramado.

Autores inexperientes e recém-ingressos no mercado editorial não têm, realmente, uma leitura especializada como a do Rubem Fonseca, mas podem contar com excelentes autores e leitores-críticos free-lancers ou de editoras, para que façam esse trabalho, naturalmente remunerado.

A leitura crítica, em 2009, variava dos R$ 300,00 (trezentos reais) a R$ 2.000,00 (dois mil reais), a depender do tamanho da obra, do prestígio do Leitor Crítico/Parecerista no mercado editorial, e do que está incluído no contrato de consultoria: se há parecer assinado, se há reunião, se há orientação editorial. No Rio de Janeiro, por exemplo, Oficinas Literárias como a Estação das Letras (http://www.estacaodasletras.com.br/) atuam como intermediárias de pareceristas e autores iniciantes, o que já fornece uma primeira alternativa para quem busca uma análise de sua obra.

Há leitores críticos, contudo, que trabalham mediante indicação para evitarem excesso de demanda, o que acontece, por exemplo, com os autores Marcelo Moutinho (http://www.marcelomoutinho.com.br/) e Márcio Vassallo (http://www.marciovassallo.com.br/), entre outros. Em São Paulo há também a Página da Cultura (http://www.paginadacultura.com.br/) e outras oficinas literárias que fornecem esse serviço. Tenha em mente que basta circular no meio literário, que você encontrará a informação mais adequada à sua intenção.

É de se lembrar, neste ponto, que a Leitura Crítica não é a mesma coisa que a Revisão.

São serviços diferentes, ambos prestados para a mesma obra. A revisão, normalmente, é feita por pessoas contratadas de dentro da editora, e também é fundamental.

Um dos exemplos de revisão mal elaborada foi a fornecida ao autor Milton Hatoum que, na edição de bolso de Dois Irmãos, editado pela Cia. das Letras (selo Companhia de Bolso), escreveu que seu personagem desceu de um navio no Cais da Praça Mauá e foi andando até a Praça Paris para depois chegar à Cinelândia, na cidade do Rio de Janeiro, quando se sabe que no mapa da Cidade a Cinelândia chega antes da Praça Paris, para quem vem da Praça Mauá.

Como o autor não precisa ser um exímio geógrafo, ou conhecer afundo cada cidade por onde passam seus personagens, esse é um evidente erro do revisor, espécie de trabalho que geralmente a Editora fornece e cuja missão é checar todas as informações específicas contidas no livro.

Deixe, pois, o Leitor Crítico apontar todos os possíveis erros em seu trabalho. Não se enerve com isso, não brigue com o seu Consultor, e muito menos fale mal dele. Na verdade, todas as correções indicadas lhe serão muito úteis, ainda que você as aceite ou não, pois é preferível a crítica de alguém que está sendo pago para isso e que lhe permitirá a correção, do que a crítica de um leitor exigente sobre um livro finalizado, que falará mal de você para todas as centenas de amigos na blogosfera, Orkut, Twitter, Facebook, LinkedIn, e em outras milhares de redes sociais da internet, espalhando uma péssima propaganda do seu trabalho literário.

Portanto, lembre-se de ser criterioso e exigente, da mesma forma como você mesmo é exigente ao ver um longa-metragem cujo roteiro é malfeito, cuja fotografia é pobre, em que os diálogos são inverossímeis, ou que tenha uma trilha sonora dissonante do contexto. Lembre-se de ser, sobretudo, humilde: você é apenas um autor iniciante. E sente-se novamente e pacientemente para refazer o livro e re-enviar ao seu Leitor Crítico, ou ao seu Parecerista, até que ele diga que sua obra está no ponto para ser enviada às editoras.

Afinal, você não vai querer que, depois de ter a sorte de um editor-júnior abrir o envelope que contém seu original, ele folheie seu trabalho aleatoriamente, encontre as ÚNICAS duas páginas mal escritas (ou que por azar não tenham qualquer frase minimamente interessante) e depois descarte todo o seu material elaborado anos a fio, junto com todos os outros tantos livros que nunca chegam à glória da publicação.

Não é verdade?


>>> Leia o quarto texto da e-Oficina, Editora - necessidade ou desperdício?, AQUI


Paula Cajaty - escritora, formada em Direito e em Publishing Management na FGV. Em parceria com sites, blogs, editoras e agências literárias, produz o Boletim Leituras para mais de 4 mil leitores, prestando serviços de leitura crítica, consultoria em marketing e produção editorial e literária através de seu site http://www.paulacajaty.com/ Autora de Afrodite in verso (7Letras, 2008) e Sexo, tempo e poesia (7Letras, 2010).

8 comentários:

tracks disse...

Oi,

vou pensar no assunto. Por enquanto, meu livro está em mente... em breve, no papel.

Abs

Fernando Fagundes Ferreira disse...

òtimo texto e dicas que me fazem perceber todas as dificuldades contra as quais prometo lutar para me tornar um escritor querido dos meus leitores.

Velton Clarindo ✍ disse...

Pra não fugir a regra, um belo texto! Destaque pra a observações [pertubadoramente] sinceras. Vida de amador é mesmo um tormento, não tem como escapar.

Anônimo disse...

ah nem, credo, q coisa mais cheia de táticas de mercado, jogos de prestígio e estrategias de marketing - respeito estas opções, mas literatura pra mim é guerrilha, é correr por fora destes controles de estdo e mercado

a internet é uma chance de experimentar isto, formar tribos, fugir dos poderes editoriais estabelecidos: escreveu no blog, tá publicado

eu n quero mais estados ou igrejas literárias, quero é correr por fora disso, nomadismo, bruxaria nas margens da cidade...

paula disse...

Olá a todos, e obrigada pelos comentários!!!
O intuito da e-oficina é estabelecer roteiros. Mas devo sempre lembrar aos leitores-escritores que estamos em um espaço que não há roteiros certos e estanques. Claro que não prego a caminhada por uma única e estreita via. É possível utilizar o não-roteiro, correr por fora numa estratégia inteiramente nova, e se impôr pelo conteúdo e pela força da palavra. Mas, para isso se realizar (como geralmente acontece em todas as áreas da arte) será necessário uma convergência rara de competência e sorte, e o curso de uma boa parcela de tempo.

Cris disse...

Muito bom o artigo, Paula.
Fico grata novamente ao Bule por trazer conteúdo tão interessante e também esse norte pra quem tá aprendendo. Bom, nunca se para de aprender, é bom frizar.
Meus textos já saíram da gaveta, já estão impressos, já estão na internet, e a necessidade de aprimoramento é absurda e desesperadora. Este trabalho meticuloso do escritor em tornar visível o seu invisível é delicado, doloroso e belíssimo. Esse outro lado necessário da divulgação é complicado, a gente tem que se virar em tanto improviso e descidas de paraquedas que correr estudar é instinto de sobrevivência. E quando falta capital, como em toda area, é mais complicado ainda.
Só que ter recurso não é ter qualidade. É preferível manter na gaveta um texto muito bom do que circulando um texto muito ruim, corrigir uma 'queimação de filme' assim demora.
Estarei acompanhando seus outros artigos, certamente serão de grande valia.
Quanto ao que o Wilson escreveu, concordo também. A gente afia o gume, mas tem que ter o bom senso de não afiar demais pra não perder a beleza do rasgo falho que ele dá.

tomadour disse...

Excelente, Paula!
Se todos os escritores seguissem suas sugestões, mais autores seriam publicados no Brasil.

Unknown disse...

Não precisa publicar; basta corrigir o "afundo"... o correto é conhecer
a fundo. um abraço. Tania