25 de abr. de 2011

Cortázar e a Obra Definitiva - parte 2

Por Claudio Parreira



O ANDAR INFERIOR, apesar de abandonado há muito, guardava no entanto uma adega de incontáveis preciosidades e exibia um frescor incomum, como se ainda na véspera gentes das mais variadas posições tivessem feito dos corredores ainda atapetados e salões de estilo neoclássico seu mais aprazível refúgio[1].

Foi para esse ambiente insólito que Braga e Miguel conduziram Dédé e Narinha, as duas mais novas habitantes de Lugar Nenhum.

- O aspecto é de um puteiro francês decadente – falou Miguel, sem meias-palavras -, mas posso garantir às senhoritas que a cozinha e os fogões ainda estão em perfeito funcionamento.

As duas mulheres se olharam por um segundo e deixaram escapar um sorriso maroto.

- O senhor, seu Miguel – falou Dedé -, já deve ter percebido que a cozinha é o que menos nos interessa, não é, seu Braga?

O Braga assentiu imediatamente, um sorriso também pendurado no canto da boca.

- Vamos deixá-las a sós para que se instalem com tranqüilidade – falou, seriíssimo, Miguel. As mulheres recolheram suas malas e, sem palavras, desapareceram escada acima.

- Eu peço cozinheiras e me mandam putas! – falou Miguel, indignado.

- Tá reclamando do quê, nobre suíno? – falou Braga. – De qualquer maneira, elas vão nos dar de comer...

- Vão matar todos vocês, isso sim.

- A mais bela das mortes, morrer entre as pernas de uma mulher!

- Vão morrer de fome, todos vocês. Acho que essas duas aí são mais ignorantes em matéria de cozinha do que você, Braga.

- Em compensação, aposto que são PhD em matéria de sacanagem!

Miguel percebeu que era inútil discutir com o Braga, que já se mostrava apaixonado pelas duas. Mais fácil era dar a questão da comida definitivamente por encerrado.

Dedé e Narinha se meteram imediatamente na grande banheira do quarto principal.

- Que que cê acha desse lugar, mãe? – perguntou a garota.

- Um lugar como outro qualquer. Nessa profissão, menina, a gente não escolhe: encara. E olha, tenho cá pra mim que aqui a gente vai ser tratada como princesa. Somos as únicas mulheres num raio de quilômetros e, pelo que ouvi, aqui tem pra mais de cem homens, que vieram pra cá escrever A Obra Definitiva.

- A Obra Definitiva? Queísso?

- Sei lá. Mas pouco me importa. Vamos ter muito trabalho pela frente.

- Por trás também, mãe.

- Nem me fale!

- Cê num acha que são muitos?

- A gente dá conta. Cem homens, digamos, divididos por nós duas, cinqüenta pra cada uma. A gente pega dez por dia, em cinco dias de trabalho a gente liquida a fatura. E ainda sobram o sábado e o domingo para o sagrado negócio do ócio.

- Já estive em piores condições. Quinze, vinte por noite, todas as noites. Se bobeasse, de dia também. E olha que o dinheiro nem era tão bom assim. Aliás, quem é que tá bancando esse negócio?

- Disseram pra mim que é o Miguel, mas eu não acredito.

- Nem eu. Um porco, onde é que já se viu?

Neste momento um uivo medonho atingiu as paredes da Casa Rosada.

- Ouviu isso, mãe?

- Ouvi.

- Lobo?

- Nada, menina. Deve ser o Miguel uivando.

- O Miguel?

- Por que não? Ele fala, fuma e bebe cerveja. Por que não uivaria?

No Pombal, os hóspedes também ouviram o uivo. O Braga, lembrando-se mais uma vez de Poe, falou:

- Creio que Lugar Nenhum acaba de receber mais um hóspede...

A cena clássica do lobo enorme, de olhos vermelhos como fogo, cruzando as ruas desertas numa noite de lua cheia invadiu os seus pensamentos.

- Senhores – falou ele. – Acho que temos um problema por aqui.

Zé Mario, o poeta maldito, concordou:

- Também acho, Braga. Largamos os nossos afazeres, os nossos projetos particulares, a família e o escambau, para virmos aqui para este fim de mundo escrever A Obra Definitiva. E o que temos até agora? Porra nenhuma!

- Temos as meninas da Casa Rosada... – lembrou o Braga.

- Puta por puta eu ficava com as minhas – continuou Zé Mario. – Vim porque achei o projeto fantástico, me senti privilegiado por ter sido escolhido para a feitura de tamanho empreendimento. Mas aqui escrevo menos do que em casa, escrevemos nada todos nós. Só essa expectativa em torno de coisa nenhuma, essa interminável punheta metafísica cujo gozo não passa de um peido.

Os outros sábios, que em maior ou menor grau também viam a questão nos termos de Zé Mario:

- É isso aí!

- Apoiado!

- O povo unido jamais será vencido!

Percebendo que a coisa ia descambar para a bandalheira, o Braga, os pensamentos já longe de Poe, resolveu organizar:

- Que tal se nos sentássemos e discutíssemos as diretrizes d’A Obra Definitiva? Não podemos escrever a obra das obras sem um projeto, um ponto de partida. O que é que vocês acham?

Uma grande interrogação pairou sobre os homens no Pombal. Um rumor desordenado passou a ganhar volume, conversas isoladas aqui e ali, uma crescente e ruidosa discordância prestes a explodir e que só foi interrompida, bruscamente, por outro uivo ainda mais terrível que o primeiro.

- De novo, mãe!

- Sabe o que eu acho? Devem ser aqueles tarados lá do Pombal, só pode ser. Tanto tempo sem mulher, vai ver estão uivando pra nós!

- Isso não é uivo de gente não, mãe. Isso é coisa de animal!

- E o que você acha que eles são? Esse povo aí, todos metidos a besta, escritores e professores e sei lá o que mais, é tudo bicho, menina. Não ponho minha mão no fogo por nenhum deles.

- Maldade. Acho que eu já gosto deles todos!

- Pega pra você, menina, que de homens desse tipo eu já estou farta. Estou aqui para trabalhar. Gostar já é outro departamento. E por falar em trabalho, que tal se a gente der um trato neste casarão? Parece que aqui não tem mão de mulher há pelo menos duzentos anos...

Depois de acalmar os ânimos com abraços, cachaças e sopapos, o Braga finalmente conseguiu juntar os homens e colocá-los todos de acordo: a primeira reunião em torno d’A Obra Definitiva seria realizada na Casa Rosada, e nessa reunião seriam discutidos os temas, os rumos que se pretendia dar, as bases do trabalho e, por fim, uma possível data para o efetivo início da escrita.

- Por que na Casa Rosada? – quis saber um dos homens.

- Porque aqui – respondeu o Braga –, aqui nos amontoamos uns sobre os outros como sapos no cio, numa espécie de promiscuidade viscosa e inevitável. Na Casa Rosada, por outro lado, o espaço é maior, temos salões amplos e iluminados e, além do mais, para o necessário lazer, que todos aqui somos ateus mas filhos de Deus, 17 quartos à nossa inteira disposição para crescermos e multiplicarmos se assim quisermos.

- E as raparigas já sabem disso? – perguntou Zé Mario.

- Ainda não – respondeu o Braga. – Mas isso não é problema. Eu mesmo vou avisar.

- Não é justo! – gritou um antropólogo, que pelo aspecto não comia desde a queda do Império Romano. – Ou vamos todos ou não vai ninguém!

A gárgula de olhos esbugalhados e dentes de serpente ficava exatamente embaixo da janela sobre a qual estava debruçada Dedé, os olhinhos muito vivos acompanhando o avançar da multidão de homens que se dirigia à Casa Rosada.

- Acho que o nosso trabalho vai começar mais cedo, Narinha – falou ela, um sorriso entediado no rosto.

- Já?

- Pois é. Às armas, minha querida, que a batalha vai começar!

O maior grupo de sábios já reunidos no planeta, liderados pelo Braga, avançava a passos rápidos. Com a desculpa de comunicar a Dedé e sua pupila a abertura dos trabalhos d’A Obra Definitiva, pensavam mesmo é em festa e esbórnia, em afogar nas carnes do prazer as suas mágoas de poeira e de solidão. Quantos anos sem mulher, quantas noites de vaziez? Os solteiros conheciam bem o significado da solidão das letras, do desamparo literário, das carícias que só encontravam nas páginas dos romances. Os casados, embora se esforçassem em mostrar o contrário, também padeciam do mesmo mal: viviam aos pares com suas esposas mas no fundo sozinhos com as palavras, nelas e só nelas a única oportunidade de companhia e abrigo, o incurável vício das letras preenchendo uma lacuna que mulher alguma seria capaz de preencher.

Movidos por esses motivos e outros tantos mais, os homens rumavam para a Casa Rosada como um exército de aflitos, paradoxalmente exibindo o que mais lutavam para esconder. Dedé, mulher experiente e de coração triste, educada na fria cartilha dos sorrisos forçados, sabia muito bem do que se tratava. Acolhia o desespero alheio entre as pernas desde muito cedo, e se considerava uma espécie de cura possível, um oásis na imensidão do deserto humano. Sabia que era mentira, uma farsa necessária, mas era essa ilusão que a mantinha viva e seguindo em frente.

Foi dessa maneira então que os homens invadiram a Casa Rosada: com sorrisos e festas, sendo recebidos por Dedé e Narinha igualmente com abraços e beijos cálidos de estudada emoção. Era um jogo sem vencedores, sabiam todos, mas não importava. Cada qual ali desempenharia o seu papel da melhor maneira possível; a verdade que se fodesse.

- Viemos fazer um comunicado – falou o Braga, o braço direito envolvendo a cintura de Narinha.

- Pois que seja breve, Braga – sentenciou Dedé. – Tenho certeza que vocês não vieram aqui só para ficar de papo-furado.

Desvencilhando-se de um beijo, o Braga pigarreou, estufou o peito magro e disparou:

- Com a sua permissão, Dedé, queremos escrever aqui A Obra Definitiva, que será o livro dos livros, a mais importante obra já escrita pelo espírito humano.

- Na minha casa vocês podem tudo, até mesmo escrever...

Dando então por abertos os trabalhos d’A Obra Definitiva, o Braga se agarrou às coxas de Narinha e uns tantos outros cercaram Dedé, que organizava as investidas e lambidas entre gemidos e gritinhos e gargalhadas artificiais.

- Calma, meus queridos, que aqui tem pra todo mundo!

Três dias depois, sem que uma só linha d’A Obra Definitiva tivesse sido escrita, Zé Mario pôs a cabeça para fora da janela e avistou uma porta improvável plantada bem no meio da poeira de Lugar Nenhum. Em silêncio, desceu as escadas, pulando corpos e mais corpos de soldados adormecidos e orgulhosamente vencidos pela árdua batalha sensual que ali se travara sem trégua, e foi para a rua, ainda de cueca e com os cabelos todos em desalinho.

A porta, que se erguia com natural leveza numa paisagem que jamais a suportaria em outras circunstâncias, não era de mais nem de menos: madeira escura comum, os batentes igualmente escuros e vagabundos, uma maçaneta simples, sem requintes de espécie alguma, ora vermelha ora azulada.

Zé Mario sabia-se acordado, mas aquilo tudo era cena de sonho ou pesadelo, uma porta plantada no vazio cujo propósito sequer se atrevia a imaginar.

- Quem vai por esta porta não volta jamais – falou subitamente Miguel, que Zé Mario não notara chegar.

- E aonde leva esta porta? – quis saber o poeta.

- Só você poderá saber, se fizer a travessia.

Zé Mario estudou a situação. Uma simples porta, certamente plantada ali pelo próprio Miguel, que, à falta do que fazer, resolvera se divertir às custas dele e dos seus amigos.

- Isso é alguma espécie de brincadeira, Miguel?

- Eu não brinco.

A expressão de Miguel não aceitava contestação.

- Pois vou atravessá-la – falou Zé Mario, invocado. – E vou provar que tudo isso não passa de bobagem.

- Você vai e não volta, já avisei. Em troca, alguém vem no seu lugar.

- Não entendi. Quem vem no meu lugar?

- Aquele que tornará A Obra Definitiva possível.

Considerando as palavras de Miguel tolices sem tamanho, Zé Mario girou a maçaneta e se meteu porta adentro. Desapareceu para sempre no mesmo instante.

O homem que veio em seu lugar era alto, os cabelos negros e volumosos, a barba cerrada feito uma floresta.

- Bem-vindo à Lugar Nenhum, Cortázar – saudou Miguel, enquanto a porta se desvanecia no ar.

Assim que colocou os pés na Casa Rosada, Cortázar foi envolvido pela canção Ne Me Quitte Pas, na voz personalíssima de Maysa.

- Madame Dedé logo vem atender – falou Miguel, e se retirou, rápido, como se aquele ambiente estivesse contaminado por terrores indizíveis.

Cortázar olhou para o amplo salão e viu, desacordados, pelo menos duzentos homens. Riu. A um canto mais retirado, imerso em sombras, um velho senhor sentado numa poltrona alta balançava lentamente a sua bengala. Cortázar riu novamente e se aproximou.

O velho, com os olhos vazios ancorados no nada, falou:

- Estou aqui desde o início, e só você me enxergou.

- Também existem os cegos de espírito, Borges.

- Mas estes homens são intelectuais! Deveriam ir mais além.

[1] Eis aqui um trecho barroco. Parnasiano, talvez. Chato, todavia.

* No dia 10/05, a conclusão, enfim!

3 comentários:

Chris Araújo Angelotti disse...

Muito Bom , Parreira! Parabéns!
Texto ágil, inteligente, cheio de metáforas.
Que vida complicada a de Dedé e Narinha... voltando ao foco:
Seu texto me reforça a ideia de que muitos vêem e poucos enxergam. Muito se intitulam intelectuais,poucos têm a sensibilidade e o dom.

Paulo Laurindo disse...

Só espero que com a chegada do Cortázar o humor não arrefeça.

Geraldo Lima disse...

Será que o Cortázar vai cair na esbórnia também? Aguardemos o próximo capítulo.