9 de abr. de 2011

Cortázar e a Obra Definitiva - parte 1

Por Claudio Parreira


LUGAR NENHUM recebeu o primeiro trem ao cair da noite. Não houve festa na plataforma, nem aplausos, nem comemorações de espécie alguma. Pelo simples fato de que em Lugar Nenhum não havia ninguém. Por ali, a uns cem metros de distância, talvez, apenas o velho porco Miguel, enorme em suas banhas, com o eterno Montecristo pendurado no canto da boca flácida e sua inseparável lata de cerveja, que, por milagre ou outra arte fabulosa qualquer, jamais ficava vazia. E nada mais.

No trem, além do maquinista, um velho retorcido e sem rosto, vinha apenas um passageiro: um homem alto, pernas e braços extremamente finos, os cabelos longos e brancos enfeitando uma cabeça envolta em sombras. Esse homem, no entanto, poderia desembarcar em qualquer lugar do mundo, Paris ou a Casa do Chapéu[1], que não faria a menor diferença. Ninguém iria reparar nele somente pelos seus atributos físicos. O que chamava a atenção para o homem não estava nele, no seu corpo. O que despertava interesse naquele único passageiro do trem ancorado em Lugar Nenhum era a sua bagagem: dezenas, centenas de malas dos mais variados tipos e tamanhos, pequenas médias e grandes, lotadas de livros e rascunhos, manuscritos e impressos sobre os mais variados assuntos.

Dom Luis Cortez de Aldaya y Bragança, ou Braga, este o nome do passageiro, era um sábio, como gostava de ser chamado. Chamá-lo de intelectual era briga na certa. Porque intelectual, na sua opinião, era um tipo de gente inerte, inimiga da ação e produtora de vento.

- Uns porras! – dizia a todo mundo. – Eles falam do peido[2]com palavras tão bonitas e polidas que os ignorantes chegam até mesmo a achar que se trata de algo de muito bom gosto e cheiroso!

No meio da plataforma, portanto, apenas o sábio Braga sozinho de tudo, rodeado de malas e mais malas. Mais adiante, dentro da escuridão, brilhava a ponta vermelha da brasa de um charuto. Miguel. Que vinha se aproximando no seu passo suíno, lento, balançante.

O Braga não se surpreendeu quando descobriu por detrás da ponta vermelha do charuto um porco enorme e velho. Lugar Nenhum tinha dessas coisas, fora avisado com antecedência.

- Você é o Miguel, não é? Me recomendaram que o procurasse.

O porco se aproximou o suficiente para que Braga lhe sentisse o bafo carregado de tabaco e cerveja.

- Eu mesmo. Venha comigo.

- E minhas malas? Alguém pode roubar...

- Não se preocupe. O ladrão mais próximo deve estar a uns mil quilômetros daqui.

O edifício de três andares ficava bem próximo da estação de trem e parecia ter sido construído um pouco depois da Torre de Babel. As paredes externas mostravam rombos por toda parte e aquilo que no passado fora tinta azul exibia agora apenas fuligem e cansaço. O endereço ideal para os contos de Poe, pensou Braga enquanto cruzava a larga porta de entrada.

- Você foi o primeiro a chegar – falou Miguel. – Tem direito a escolher o quarto.

Braga abriu a boca para agradecer mas Miguel já desaparecia dentro da escuridão. Mais uma vez sozinho, Braga abriu então a porta do primeiro quarto: era apertado, sufocante, as paredes de um branco pastoso, um penico sob a cama magra, uma cadeira e uma escrivaninha. A paisagem que se observava pela janela também era econômica: a estação de trem, apenas. Nada mais à esquerda, nada mais à direita. Só escuridão.

Os demais quartos eram idênticos ao primeiro. Irritantemente idênticos, pensou Braga, para quem a estadia ali naquele fim de mundo, Lugar Nenhum, começava a se mostrar chata demais. Mas o sacrifício, continuou ele, será em nome de uma boa causa. A Obra Definitiva será o livro dos livros, mais importante do que a Bíblia, até. Pretensão? Talvez. Mas possível, sim, ainda mais com a ajuda dos maiores sábios do mundo, dos cérebros mais notáveis gerados no planeta.

Quando pensou na frase “os cérebros mais notáveis gerados no planeta”, Braga sorriu. Imaginou cérebros flutuantes desprovidos de corpo, pulsando feito corações, vagando pelo espaço deserto e fantasmagórico de Lugar Nenhum. Novamente a imagem de Poe lhe veio à cabeça. Não seria a última vez.

Com o espírito embalado por cérebros voadores, contos de terror e charutos fedorentos, Braga finalmente decidiu se instalar no último quarto do último andar. Por ser mais alto, dali poderia assistir com um pouco mais de conforto à chegada dos demais. E foi da janela que viu, pela primeira vez, a Casa Rosada[3].

O porco Miguel era um mistério. Também misteriosos eram os seus charutos e a lata de cerveja, sempre cheia e gelada, mesmo sob o calor constante que varria Lugar Nenhum de cabo a rabo. Mas de mistérios, porém, Miguel não se ocupava. Era porco, sim, mas prático, coisa raramente vista nos outros de sua espécie. Aquela história dA Obra Definitiva, por exemplo, precisava muito do seu senso, caso contrário poderia acabar em água. Não que ele se importasse muito. Achava aquilo uma tremenda inutilidade, conversa pra boi dormir. Mas ao final, dando certo ou não, foda-se, lhe renderia alguns trocados. E isso sim era importante.

A Obra Definitiva, segundo ele, era apenas mais uma entre tantas outras tentativas malucas de colocar no papel a essência do Humano, se é que isso é possível. Mas, conhecedor que era dos humanos, assim mesmo, em minúscula, sabia que era um projeto desde sempre fadado ao fracasso. Os homens, pensava, só conheciam duas coisas na vida: buceta[4] e poder, sendo que uma se conquistava através da outra e vice-versa. Sabedor de que buceta não havia em quilômetros, Miguel logo percebeu que os homens que chegariam a Lugar Nenhum estavam todos mesmo é atrás de poder. Que porra de poder conseguiriam escrevendo essa tal de Obra Definitiva, não tinha a menor idéia. Mas não era pago para especular nem supor.

E foi assim, com suína disciplina, que Miguel foi recebendo os homens na estação de trem, um a um, dia após dia, e os conduzindo até o edifício que já abrigava o Braga, que a essas alturas já havia decorado as paredes do seu quarto com umas tantas fotos de mulher pelada.

- É pra lembrar da vida civilizada – falou o Braga. – Um pouco de luz nessas trevas de barbárie!

Miguel, direto ao ponto:

- Luz o caralho, Braga. Isso aí é a tua desculpa pra punheta!

O Braga sorriu, vermelhíssimo. A objetividade de Miguel era mais implacável que um coice de mula.

Os homens, que não paravam de chegar, eram todos intelectuais, ou sábios, como insistia o Braga, vindos de todas as partes do mundo. Alguns não traziam bagagem alguma; bastava uma caneta e o conhecimento. Outros, por sua vez, traziam livros e malas e, dentro das malas, mais livros e outros intelectuais que traziam suas malas também e dentro delas outros intelectuais e assim por diante ad infinitum. Em resumo: gente pra caramba que Miguel, sempre com o charuto pendurado, instalava como podia no edifício, já batizado festivamente de O Pombal.

No sétimo dia depois da chegada do Braga, o último intelectual arriou suas malas e livros no Pombal. Veio roxo de fome:

- Cadê o restaurante? Sou capaz de devorar até mesmo o grunhido de um leitão!

Miguel não gostou nada da fala do recém-chegado; quem come o grunhido de um leitão é capaz de querer se assanhar pra cima de um porco também, e isso não seria nada recomendável para a sua saúde. Havia na fala do sujeito, porém, um detalhe que lhe escapara: aqueles homens todos, intelectuais ou não, precisariam, mais cedo ou mais tarde, comer. O último restaurante de Lugar Nenhum fechara as portas há bem mais de duas décadas.

- Não temos restaurante aqui – falou Miguel, rezando para que o homem não lançasse sobre ele o mesmo olhar que lançaria para cima de um pernil assado.

- Não tem restaurante? E eu vou comer o quê?

Pela primeira vez em dias o Braga se deu conta de que também não comera.

- É mesmo, nobre Miguel – falou ele. – Vamos comer o quê?

Desde que não seja eu, pensou o porco, o problema é de vocês.

- Vocês não vivem dizendo que a poesia é alimento? Pois então! Duvido que entre vocês não haja um poeta capaz de suprir-lhes todas as necessidades...

- A poesia é o alimento da alma, Miguel – falou o Braga. – O alimento que bem precisamos agora é aquele para o bucho, entendeu? Falta-nos a nobre matéria-prima do cocô! Muitos consideram que um sábio de estômago vazio é uma coisa sublime, mas eu lhe digo: sublime porra nenhuma! Não existe nada mais sublime do que uma bela feijoada regada à caipirinha.

Os demais sábios, ou intelectuais, subitamente se deram conta de que também estavam famintos. Ao ouvir do Braga a menção à feijoada, aplaudiram e gritaram urras! e putaquelospariuses foram lançados ao ar numa clara indicação de qual era a disposição geral.

- Só se reabrirmos o restaurante – continuou Miguel. – Mas tem um pequeno probleminha...

Os homens todos perguntaram em uníssono:

- Qual?

Miguel, sentindo-se minúsculo entre tantos famintos, falou, um fiozinho de voz:

- Quem é que vai cozinhar?

Braga, que não sabia a diferença entre um ovo frito e um cozido, foi logo propondo uma votação democrática para resolver a questão. Os intelectuais acolheram a proposta e imediatamente foram criadas chapas e campanhas, essas coisas do gênero às quais estamos acostumados a ver e que sabemos desde sempre que não resolvem porra nenhuma.

- Antes, porém – falou Zé Mario, antropólogo bissexto e poeta maldito -, não seria melhor discutirmos profundamente o assunto?

Uma parte dos homens gostou da idéia e se propôs a escrever teses sobre a macarronada à bolonhesa, suas origens e tradições; outros, mais refinados, se dispuseram a escrever O Tratado Universal do Escargô à Baiana, cujo sabor permanece um mistério até hoje.

Prático, Miguel atalhou:

- Bem, senhores, enquanto vocês discutem sobre a comida, a comida de fato não surge na panela. Não seria o caso aqui de passarmos da teoria à prática?

- O Braga cozinha! – gritou um filósofo.

- Zé Mario faz um excelente sanduba de mortadela! – falou um professor de artes.

- Telefona e pede uma pizza, porra! – arrematou um sociólogo.

A discussão se instalou entre os homens. Dois três dias depois, após discursos apaixonados e teorias surrealistas, tapas na orelha e palavrões, os intelectuais chegaram enfim à óbvia conclusão: nenhum deles sabia cozinhar.

- E agora? – perguntou o Braga.

- Só há uma alternativa – falou Miguel. – Precisamos de uma cozinheira!

Embora um pouco envergonhados pelo dilema ter sido resolvido por um porco, os intelectuais todos se sentiram muito bem e comemoraram a solução do problema com muitos abraços e goles de cachaça de alambique. Foi dessa maneira então que se instaurou em Lugar Nenhum o estado de fome festiva.

Madame Odete Proença chegou dois dias depois no trem das onze. E em sua bagagem, para espanto geral, não havia panelas, pratos ou qualquer outra ferramenta destinada às artes da cozinha. Havia sim calcinhas e sutiãs multicoloridos aos montões, correntes e chicotes dos mais variados tipos e tamanhos, máscaras e roupas de couro preto destinadas a práticas nem um pouco ortodoxas. Trazia também pela mão uma ninfeta infernal, garota dos seus 16 ou 17 anos, o rostinho tão delicado quanto endiabrado era o resto do corpo. Na plataforma, boquiabertos, o Braga e Miguel, mastigando bovinamente[5] o seu charuto.

- Nenhum dos cavalheiros vem me receber? – falou Madame Odete.

Braga sacudiu a surpresa e se adiantou, dando a mão fina e esquálida para que a mulher a segurasse.

- Muito obrigada, senhor Miguel. Sou Odete Proença, sua criada.

- Miguel é o porco, dona Odete. Eu me chamo Braga.

- Dona Odete nada – continuou a mulher. - Deixemos os formalismos pra lá. Aqui sou apenas Dedé, pronta para lhes servir.

Miguel se aproximou e a ninfeta foi em sua direção.

- Adoro charutos, sabia? São tão... másculos!

O Braga, que tinha entre as suas mãos a mão de dona Odete, ou Dedé, engasgou ao ouvir a observação da ninfeta.

- E esta, senhores, é a minha afilhada, Narinha.

- Sua ajudante, Dedé? – perguntou o Braga, já íntimo.

- Quando o cliente paga bem... - falou Dedé às gargalhadas.

Naquele momento o Braga percebeu, finalmente, que as recém-chegadas eram muito mais do que simples cozinheiras.

A Casa Rosada era uma construção de dois andares, robusta, imponente – mas indecisa. Sua arquitetura emprestava dos gregos as colunas, dos romanos os arcos, gárgulas francesas pontuavam a construção aqui e ali. Uma impressionante pirâmide composta por placas de barro rosado (talvez aí a origem do nome) fazia as vezes de telhado. Numa breve descrição: era um edifício de mau gosto. Seus dezessete quartos, no entanto, todos situados no andar superior, apresentavam um equilíbrio que contrastava largamente com o exterior: eram amplos, iluminados pela luz do sol, as paredes brancas acentuando ainda mais a sensação de espaço.


[1] A Casa do Chapéu, geograficamente falando, é até pertinho. Longe mesmo é a Casa do Caralho.
[2] Também conhecido como “Flatulência”. Só que existe uma diferença profunda entre peidar e flatular.
[3] A Casa Rosada é o edifício-sede do governo argentino.
[4] Ao leitor mais pudico, os meus perdões. Inclino-me desde cedo ao encanto das palavras chulas e vis.
[5] Pode um suíno mastigar bovinamente?


* no próximo dia 25 tem mais. Não perDa!!!

9 comentários:

Paulo Laurindo disse...

Equação bem formulada. Vamos à demonstração!

Revista Literária disse...

Muito Bom!
anamerij

Ricardo Novais disse...

Fantástico, Parreira!

Stéfanni Brasil disse...

WOOOOOOOW, é só o que consigo dizer!!!

pianistaboxeador21 disse...

Híbrido. O título nos leva a crer que se trata de um ensaio não é bem esse o caso.
Acertou, Claudio,
Abraço

Cindy Dalfovo disse...

O texto estava interessante, mas parar por aí? Que anti-climático =/

Anônimo disse...

Digno demais, Parreira! E depois você vem com "mimimi" de que eu vou ensinar? Ah vah! Isso sim é mestrar, meu véi!

Abração,
André.

jorge mendes disse...

blz, parreira. agora, tem o lugar do caralho da canção do wander wildner que é fodão.
abraços.

Parreira disse...

Gostaria de agradecer a todos pelos comentários. E acrescentar: vem mais Cortázar por aí, muito mais!