10 de mar. de 2011

Nacos de Necas & Outras Histórias - 12

Por Claudio Parreira

1
Todos os dias, às seis da tarde, eu ponho o meu banquinho perto da janela e espero. Às seis e dois, exatamente, ele aparece, também com o seu banquinho, perto da sua janela.
Ficamos olhando um para o outro, em silêncio, durante uma hora, ao fim da qual ele se levanta e desaparece na escuridão. Eu faço a mesma coisa, e o que me conforta é a certeza de que no dia seguinte tudo se repetirá.
Minha filha nos observa há anos - e nunca emitiu nenhuma opinião. Nunca nada a favor, nunca nada contra. Gosto desse seu comportamento. Evita constrangimentos e conversas desnecessárias.
Hoje, porém, fui obrigado a romper o silêncio:
- O desgraçado não veio! - protestei. - O filho da mãe não veio! É a primeira vez que falta...
Para me tranquilizar, a voz até então desconhecida da minha filha:
- Calma, paizinho. Ele veio sim. Quem não está hoje é o senhor.

2
Um dia, então, percebemos que tudo nos fora tomado. Nossos empregos, nossas casas, nossas famílias. Nossos carros, nosso dinheiro. Nosso orgulho. A única coisa que nos havia sobrado era a fome. (Restou-nos também uma bruta indignação, que foi se desgastando e, por fim, desapareceu.)
Nesse dia encontramos um livro. Nada mais havia para ser encontrado, mas ainda assim encontramos um livro. Antigo, sujo, mas completo.
- O que podemos fazer com ele?, perguntei.
- Comê-lo!, foi a resposta.
Eu protestei, romanticamente. Livros devem ser devorados, sim, mas de outra maneira. São alimento, sim, mas da alma. Devem ser tratados com respeito.
- Respeito os livros - ele disse. - Mas respeito muito mais o meu estômago.
Lembrei-me dos bons tempos, outros tempos: a última coisa que um homem pensaria em comer era um livro. Por diversas razões, mas por uma em especial: os livros eram sagrados.
- Comendo um livro, portanto, estaremos comendo Deus, ele disse.
Achei curiosa a idéia.
- E será que, comendo um livro, que é Deus, conseguiremos nos livrar dessa pindaíba?, eu perguntei.
- Se vamos nos livrar dessa, eu não sei. Mas comendo o livro a gente acaba com a fome. Acho que isso é uma coisa divina.
Concordei, naturalmente, mas ainda assim considerei tudo isso um grande pecado. Protestei, como sempre se espera nessas ocasiões, falei do absurdo que isso representava, xinguei, falei o diabo. Mas, por fim, me rendi:
- Passa o sal!

3
Mesmo porque correr seria bobagem. Sei dele há anos e, de mim, ele sabe o suficiente. Sempre soube. A segurança como me segue. Houve tempos em que ele disfarçava, tirava um cigarro do bolso, essas coisas. Depois, perdeu o medo. E medo, aliás, não era. Uma prudência. Nunca se sabe, comigo poderia ser perigoso.
Logo, bem cedo ele percebeu: eu não ofereceria resistência. Como agora. Correr pra quê? Nem apressar o passo eu vou. E ele pode se ocupar das borboletas que voejam aqui e ali, pode até parar na esquina para uma cerveja ou duas. Ele sabe, sabemos: estarei lá, mas não à espera como um boi, ruminando perguntas inúteis.
Cairá a noite, com certeza, e estaremos os dois, como há séculos, debruçados no parapeito da janela, espiando o movimento da rua. Veremos pela milésima vez o navio partindo em direção ao nada, o anão que cospe pianos, as bailarinas tailandesas que repetem há cem anos a mesma coreografia. Em silêncio contemplaremos um céu de intenso vermelho, que se diluirá até não restar nada além da lembrança. Fizemos isso ontem, amanhã será igual.
Enquanto eu estiver nesta terra ele estará por perto. Dez passos atrás, observando borboletas, ou ao meu lado acenando para o navio que parte.
Jamais lhe perguntarei o nome. Porque sei quem ele é, da mesma maneira que ele sabe quem eu sou. Somos, no fundo, dois sujeitos bem educados e esse é o nosso acordo: ele me persegue, isso o mantém vivo; e eu vivo porque o deixo me perseguir. Um jogo. Ridículo, mas tão digno quanto qualquer outro.
Se algum dia me alcançar, ele perderá a razão de ser. E eu serei obrigado a contemplar navios e anões e bailarinas, sozinho, o que, convenhamos, não tem a menor graça.

4
Ousado. Genial. E um dia o engenheiro mundialmente reconhecido foi à TV anunciar sua mais nova obra:
- Um muro de palavras. O maior e mais alto muro de palavras já visto pelo Homem.
A obra gigantesca foi posta em execução: milhares de homens trabalhando, máquinas, e palavras, palavras, palavras.
Volta e meia um jornalista aparecia com a pergunta:
- Quando será concluída a obra?
O engenheiro respondia sempre, cretinamente:
- Esse muro só termina quando me faltarem as palavras.
Durante anos o muro cresceu em direção ao céu. Palavras, quilômetros delas. A impressionante obra já consumira milhares de vidas, homens. Fora até mesmo comparada às pirâmides do Egito, tamanha a sua grandeza.
- E essa porra não acaba nunca? - começaram a perguntar.
Diante do silêncio do engenheiro, o mundo passou a acreditar que o muro estaria pronto em breve. As palavras, afinal, já lhe faltavam. Tudo era uma questão de tempo. Pouco tempo.
Mas as obras do muro, como se constatou, não foram concluídas em uma semana. Nem em um mês. Um ano depois e o muro ainda crescia vertiginosamente, sem previsões de término.
O caos se instalou: jornalistas e autoridades nacionais e estrangeiras falavam coisas sem nexo. Todo mundo tinha uma teoria sobre o muro mas ninguém era capaz de provar. A pirâmide havia se transformado em torre de Babel.
***

Vinte anos depois o muro foi enfim concluído. Não pelo engenheiro, já morto, mas sim por um poeta.
O mundo quis saber:
- Como é que o senhor, poeta, realizou tal proeza?
- O engenheiro que inventou este muro de palavras só entendia de números.
Todos permaneceram calados. O poeta continuou:
- O seu projeto era grandioso, sim, arrojado. Mas ele, o engenheiro, deteve sua atenção somente sobre as palavras, e ignorou que as palavras, assim como os números, também estão condicionadas a certas regras. O engenheiro foi brilhante, sim, mas esqueceu algo que jamais poderia esquecer quando se trabalha com palavras.
- E o que foi que ele esqueceu? - perguntaram.
- Uma coisa que os poetas podem até não utilizar, mas jamais ignoram: o ponto final.

>>> E termina aqui, queridos leitores, este Nacos de Necas & Outras Histórias. Volto em breve com mais novidades - e agradeço pela atenção.

2 comentários:

Anônimo disse...

Não podia ser diferente.. adorei teus contos.Abraços

Sonhos melodias disse...

Maravilhosos! Amei mesmo! E vou esperar por mais.
Abraço,