5 de mar. de 2011

Micronarrativas – Do livro ‘Doutor Avalanche’

Por Rui Manuel Amaral
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O fantasma de FABRICE BOREL
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A eternidade é uma chatice. Mas cada morto tem o seu método particular de combater o tédio. O actor Fabrice Borel, por exemplo, continuou a fazer teatro depois de morrer. Era muito requisitado para desempenhar o personagem de pai de Hamlet, sendo um dos seus mais proeminentes intérpretes.
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Quase todas as temporadas o fantasma de Borel regressava ao mundo dos vivos para assombrar os grandes palcos mundiais:
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- Hamlet, eu sou o espírito de teu pai.

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E dizia o texto na sua terrível voz de morto e de forma tão convincente que o público gelava nas cadeiras, arrancando aplausos entusiásticos e excelentes críticas nos jornais.
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Tudo correu muito bem ao longo de anos e anos e anos e anos. Até ao dia em que, durante uma representação no Theater an der Winkelwiese*, lhe caiu uma parte do cenário em cima, tendo tido morte imediata. A sua segunda morte, bem entendido. Depois do acidente, que comoveu o meio artístico e o público da época, decidiu abandonar em definitivo o teatro. Actualmente, dedica-se ao negócio de cavalos.
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* Winkelwiese 4, 8001 Zurique.

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Um passarinho malicioso
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Lazaros Leumorfis tinha o hábito de segurar a cabeça com as mãos porque acreditava que a qualquer momento esta podia desprender-se do pescoço e cair ao chão. Por isso, nunca se distraía da sua importante tarefa, segurando a cabeça com o maior zelo de que era capaz.
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Mas fosse porque algum passarinho malicioso lhe soprara qualquer coisa ao ouvido, fosse por outro motivo que não procurarei determinar, o certo é que houve um momento em que Lazaros se distraiu e largou a cabeça. Esta caiu instantaneamente ao chão, saltou duas ou três vezes com a elasticidade de uma bola de borracha, e rolou rua abaixo e em contramão, rumo à Place Dauphine, que brilhava lá ao longe.
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Em que estado de espírito se encontrou Lazaros depois deste infeliz acontecimento, é algo que não nos atrevemos sequer a imaginar. Diremos apenas que não se poupou a esforços para recuperar a cabeça, procurando-a por toda a parte, durante dias a fio. E de bom grado teria continuado a procurá-la se entretanto vários assuntos de maior importância o não tivessem chamado a outro lado.
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O que os peixes decidiram fazer
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Todos os dias, um pescador lançava as redes, plaf, à água. Longas horas no meio do mar, lançando as redes, plaf, plaf, plaf, com gestos de semeador apaixonado. Os peixes, esses, aguardavam alegre e pacientemente a vez de serem pescados, borbulhando intermináveis declarações de amor ao pescador.
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O caso é que, por uma sucessão de intermináveis azares e infortúnios, pescador e peixes falhavam sempre os seus encontros. Os peixes corriam como loucos, de olhos esbugalhados, atrás do pescador e este sulcava incansavelmente as ondas no encalço daqueles. Mas parecia que quanto mais insistiam neste assíduo labor, mais excitavam a crueldade dos elementos. E, dia após dia, semana após semana, mês após mês, as redes permaneciam vazias.
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Ora, cansados de tanta correria para nada, os peixes decidiram acabar com aquilo. “Chegou o momento de lançarmos as nossas redes”, disseram os peixes que tinham barbatanas vermelhas. “Chegou o momento de recuperarmos o tempo perdido”, disseram os que tinham barbatanas azuis. E assim foi. Os peixes lançaram as suas redes e pescaram sem dificuldade o pescador. Em poucos segundos, o homem evaporou-se da superfície das águas como se evapora uma aparição da Virgem.
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De alma tão leve como sombra de borboleta
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Christoph Robbé perdeu todos os dentes num só dia. A coisa começou pela manhã e ao princípio da tarde já não restava nenhum na arcada superior. “Apesar de tudo”, pensou, “a situação não é grave, pois restam-me vários na arcada inferior”. Mas tinha acabado de pensar isto quando caiu mais um.
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Seguiu então, como habitualmente, pela Avenida Bommel e, detendo-se por momentos na frente de uma tabacaria para ler os títulos dos jornais, perdeu outro. As coisas começavam a ficar feias. Christoph tirou um lenço, assoou o nariz e caiu outro ainda. Apanhou-o e observou-o entre os dedos: era o molar que o incomodava há anos e que o dentista declarara sempre, contra todas as evidências, saudável e cheio de vida.
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Entretanto, a própria língua começara a empurrar um incisivo com a maliciosa intenção de pô-lo fora da boca, o que veio a suceder por volta das três da tarde. Christoph arranjou a gravata, passou a mão pelo cabelo, olhou o horizonte com ar sonhador, imaginou prados cobertos de papoilas, deu alguns passos decididos e caíram sete dentes de uma vez. “Os dentes têm uma maneira muito própria de se expressarem”, pensou filosoficamente. E acrescentou em voz alta, por dentro, para si mesmo: “É uma coisa que salta logo à vista.” Nesse preciso instante, o penúltimo dente caiu no chão e deu dois pulos à sua frente.
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Chegou, por fim, a noite, mas também não trouxe nada de bom. Sobrava um único dente. Um triste, desolado e solitário canino do lado direito. Foi quando aconteceu aquele clarão branco. E o dente voou, de alma tão leve como sombra de borboleta, para muito longe.
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A arte de ler a sina nas linhas dos pés
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Entre os mortos é costume algumas pessoas dedicarem-se a ofícios que os vivos consideram pouco edificantes. Quem já morreu sabe do que falo. Um dos ofícios que goza aqui do maior prestígio é o de ler a sina nas linhas dos pés. Este trabalho é desempenhado por poetas. E dizer que é muito bem desempenhado é dizer pouco. Trata-se de verdadeiros profissionais: fazem-no com impressionante competência, curvando-se respeitosamente sobre os pés, pousando a mão no peito e proferindo somente três ou quatro palavrinhas muito doces. Toda a gente tem por eles sincera estima e admiração.
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Ora, os mortos acreditam que o seu destino é sempre muito feliz. Não receiam nenhuma desilusão, nenhum contratempo ou revés. O destino não contém para eles qualquer surpresa. Mesmo assim alegra-lhes escutar as circunstâncias de que se reveste o seu futuro. E se um morto se sente feliz, os outros não lhe querem ficar atrás.
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Contudo, é muito provável que os poetas mintam e digam apenas aquilo que os interlocutores querem ouvir, com o propósito de assegurarem uma boa remuneração. Na verdade, não faltam casos de mortos a quem aconteceram coisas, digamos, esquisitas. Kluszczynska, por exemplo, escutava com um largo e significativo sorriso a sua alegre sina quando, nesse instante, nesse preciso instante, tombou como que cortado por uma foice.
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Rui Manuel Amaral nasceu no Porto (Portugal), em 1973, cidade onde vive. O seu primeiro livro intitula-se Caravana e foi publicado pela Editora Angelus Novus, em 2008. Doutor Avalanche é o seu segundo livro.

2 comentários:

Parreira disse...

hehehehehe, muito bom esse Amaral!!!

Anônimo disse...

Sim, sim: boas narrativas. Gostei mesmo.
Abraço,