2 de mar. de 2011

Juca Brasil, herói particular – Parte II

A devassa do trem



No episódio de hoje, Juca Brasil, herói particular, socorre o casamento de jovem senhora casada. Casamento recente, perturbações eternas: infidelidade.

I – A cliente inexaurível

Ao saltar do táxi, Camila já me aguardava na porta do elegante café. Entramos, sentamos e pedimos – dois cappuccinos e água com gás. Os olhos dela, tão intensos e calmos que transpassaram meus pensamentos, contrataram-me para tarefa esdrúxula.

- Juca, cure-me; sou devassa!...

- Ora, pelo amor de Deus, minha querida! Não há mulher assim; oh, não! Não diga essas coisas... Além do mais, não sou médico, muito menos psicólogo; sou tão-somente simples super-herói de lugar comum e compassivo...

- Não, Juca! Você não me entendeu. Só você pode me ajudar... Só você!

- Conte-me, o que ocorre?

- Meu marido é bom, generoso e manso... Um partidão! Mas depois do sexto mês de casados, senti necessidades sobre-humanas, de... sentir-me... Quer dizer, eu sentia-me... Ora, sentia-me humana. Meu marido já não me satisfazia, entende?

- Hum...

- Moramos perto do entroncamento férreo... Passei a frequentar então as estações de trem, depois a passear por todas da cidade, e, por fim, fixei-me na linha que as locomotivas são bonitas e arejadas com ar-condicionado; ali se tornou meu garimpo de esmeraldas – ela disse isto e sorriu discretamente, demonstrando certo prazer na frase. – Eu, Juca, jogo olhares oblíquos aos passageiros homens, mas não seleciono nenhum. Quero a todos; seja velho, novo, crente ou professor de universidade, eu os atraio e transo com eles em algum canto remoto da margem do rio...

- Ei, espere! Desculpe-me, querida, mas esta história está impedindo que meu café desça às urgências do estômago. Não que a história não seja boa e que o caso não seja digno de super-herói. É. Mas deve compreender que antes de herói, muito profissional, sou homem, e não é tão fácil a um homem viril ouvir certas coisas...

- Sim, tem razão, Juca. Façamos o seguinte: vamos à estação, pegamos o trem, a este horário é bem tranquilo a observações... Bem sei... E, então, assim você verá com seus próprios olhos a desgraça que é minha vida e como estou perdida... Oh, Deus!

- Ô vida vazia... Este é um trabalho para o super-herói brasileiro!

II – Trem do amor e da discórdia

Assim foi. Na estação, nos separamos. Ela entrou no vagão e se sentou logo à frente, eu, na mesma composição, sentei-me três ou quatro fileiras atrás dela, a uma distância que não a perdesse de vista e nem aos seus atos libidinosos.

Por um momento, entretanto, distraí-me de meu ofício por reparar em coisa distinta entre os passageiros de trem desta cidade: justamente a falta de cidadania. Ocorreu-me compor uma homilia mental para bons modos dos que frequentam transportes públicos. Por exemplo; não é bonito, além de contrário à lei, ligar dispositivos sonoros e por todos dentro do coletivo a se ouvir funk’s com letras mal postas e mal escritas. Da mesma maneira é inconveniente tossir três, quatro vezes; os doentes que se recolham aos seus leitos ou ao diabo que os carregue. Fumar, comer, beber ou falar mal da atriz da novela da tevê só deveria ser permitido em dois casos: o primeiro é se algum diretor da companhia férrea estiver na mesma viagem; e o segundo é ao sair da estação. Também é grande falta de educação abrir as pernas encostando-se à pessoa ao lado – caso seja forçoso este comportamento, dever-se-ia exigir ao cidadão pagar dois bancos; assim como é constrangedor, além de vergonhoso, ver um homem sentado e uma dama em pé; conversas íntimas travadas em alto tom não deveriam ultrapassar mais que dez ou doze palavras; e, ainda, importunos, vendedores de balas, pedintes expondo feridas ou crianças de colo, crentes de toda a ordem, filósofos urbanos, numa situação de excelência, ficariam apenas na calçada da estação, vendo a locomotiva passar estridente, de longe.

Contudo, deixo estas ideias às autoridades. Não tive mais tempo para distrações, tornei ao meu dever; afinal, sou Juca Brasil, herói particular, e não sociólogo de comportamento das massas. Camila continuava sentada no mesmo banco do vagão, mas parecia apreensiva. Entrou um rapaz magro, trajado de calça e camisa social sem gravata. Ele não se sentou no mesmo banco que o dela, mas no assento diagonal. Começaram uns olhares transversais entre eles. Três estações à frente, conversavam e sorriam; mais outra estação e já estavam se beijando vigorosamente. De imediato, usando de meus poderes mágicos, tive de salvá-la. Esperei o trem parar, fui até ela, puxei-a pelo antebraço esquerdo e saltamos à plataforma.

O trem foi embora; o rapaz quis também desembarcar, mas faltou-lhe tempo de raciocínio para entender o que acontecia. O apito soou, a porta automática fechou por prudência e a paisagem mudou por completo. Camila chorou copiosamente, arrasada. A lascívia deu lugar à resignação. Sentamos nos bancos de espera da plataforma. Enfim entendi tudo do caso de adultério furtivo, já tinha também a solução para este problema da jovem senhora dos amores entre trilhos com infinitos destinos.

III – A solução ferroviária

Não julgue Camila mal, dona leitora. Compreendendo que a compulsão dela é pelas locomotivas, com as emissões sonoras e de movimentos aludindo ao sexo, e não por homens extraconjugais. Do mesmo modo não seria correto dizer que Camila não ame ao marido, ama-o sim, e verdadeiramente; mas a moça é uma composição com vários carros de paixão engatados. Sendo assim, a única coisa que um salvaguarda de tão alta estirpe pode fazer para solucionar caso tão complexo é procurar o esposo da vítima e explicar-lhe tudo; certificando-me, claro, se não há perigo de arma de fogo e, também, se ele a ama de fato, como ela me asseverou entre olhares.

- Sim, é minha amada e será mãe de meus filhos! – confidenciou-me o marido, que não é maquinista e nada tem que ver com sistemas teleguiados. – Entendi tudinho, Juca. E se você, grande herói desta república, diz que minha mulher é boa esposa, mas tem doença psíquica incurável, quem sou eu para discordar e recriminá-la. Posso somente aceitá-la, como ela é, pois a amo. Agradeço a você, bom homem, grande vulto!

Meus honorários pela resolução do caso de infidelidade ferroviária, caro leitor, foram bem menores que a nova lua-de-mel que eles realizaram em tradicionais e extensas linhas férreas do velho mundo; sempre com as saidinhas dissimuladas e proveitosas de Camila, entre uma lêveda estação europeia e outra.


***
* Na próxima aventura, no dia 16 de março, Juca Brasil resolverá caso grave ocorrido nas Minas Gerais. Até breve. Bons dias e boas noites.

7 comentários:

Tuca Zamagna disse...

Dá-lhe, Ricardo Neymar... digo, Novais!

Finalmente passo n'O Bule pra tomar um cafezinho com você e conhecer o Juca Brasil. Estou em falta com os amigos blogueiros, mas é que o tempo anda mais curto que o dinheiro no bolso.

Gostei da forma e do tom folhetinesco da história. Mantenha esse pique que o samba só vai esquentar!

Abração

Paulo Laurindo disse...

As aventuras do Juca nada fica a dever aos sherloques do mundo ocidental e civilizado, sobretudo por suas reflexões deveras perspicazes a respeito dos embalos nas composições sacolejantes que infestam os trilhos que conduzem ordeiramente as nossas massas em direção a um futuro presumivelmente cor de rosa.

Unknown disse...

Esse Juca, aqui nesta crônica, não passa de um empata f...! Deixasse a mulher devassiar, oras!

Nardélio Luz disse...

Muito bom o conto/crônica. Curto, fluído e numa linguagem gostosa de se ler.

Parabéns ao autor.

Márcia Luz disse...

Bem pensada essa comparação entre a mulher e uma locomotiva. Mas tenho por mim que esse Juca "escondeu o ouro" em algum vagão, pois, se mal conseguia tomar o café, como conseguiu depois manter olhos de detetive?

Abraços, Ricardo.

Anônimo disse...

Juca é um Contra herói...

Ricardo Novais disse...

Tuca, valeu pela força (alvinegra, sempre!)

Paulo, você sempre tem um olhar reflexivo que me inspira a também pensar. Grato, meu caro amigo.

Meu caro Cogumelos, você tem toda razão; este Juca é um grandíssimo filho da p... mãe. Valeu.
Ah; não me vá fazer sopa de cogumelos, hein... Abraço.

Muito obrigado, Nardélio. Abração procê, rapaz.

Márcia, minha querida poetisa, perdoe-me por fazê-la ler texto nada poético; em realidade, devasso é o autor.
Um grande beijo a ti.

Senhor Anônimo, Juca não é herói nem anti-herói. Juca é Brasil!!!!
Cuide-se bem nas reuniões dos anônimos...
Abração.