31 de mar. de 2011

Hammerskins

Por Danielle Sousa
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Lembrei que o Alexandre fez uma tatuagem aos treze anos quando todos nós estávamos preocupados em completar o álbum de figurinhas da copa do mundo de 1998. Então que, quando ele me mostrou o ombro ainda inchado pela agulha e pela tinta preta, eu pensei: mas ele só tem treze anos! Apesar de rapidamente ter passado pela minha cabeça de não ser o caso dele desconhecer uma suástica.

- Minha avó tinha sobrevivido a Auschwitz. Se casou e teve filhos. Chorava quando via um documentário na tevê sobre a Segunda Guerra. Me contou de como escapou por sorte da morte. Confessou que, durante um tempo, perdeu a fé. Me mostrou a suástica.

- Mas tudo aquilo, quando a vó falava, ficavam a léguas de distância de mim. Mais de meio século de distância, então que tudo era eco. Mesmo quando olhava o livro de história: Hitler, por exemplo, sempre me pareceu meio bobo naquelas calças frouxas com aquele bigodinho de Charles Chaplin. O exército alemão, enfileirado e impecável na posteridade da foto em preto e branco, me parecia enfadonho. Os judeus em pele e osso por trás das cercas me faziam ter pena, não indignação, porque estava muito preocupado em sair correndo até a mercearia da esquina e torcer para encontrar a figurinha do Zidane. Mas naquele dia que a suástica brilhou no ombro do Alexandre, bem, ela não estava a meio século de distância de mim. De modo que ali, todas as histórias da vó fizeram sentido.

- — Cara, mas nem alemão tu é! — Porque pensava que só alemães podiam ser nazistas.

- Crescemos, e eu só via o Alexandre no meio da escuridão. Com uma turma que fedia a cigarro e cerveja. Que usava umas botinas sujas e raspavam a cabeça. Era na esquina da treze com a nove onde se reuniam. Dava para ouvir de longe o barulho pesado das guitarras e da voz em grade que vinha do Galpão. Umas meninas de cabelo engraçado ficavam em rodinhas do lado de fora, fumando um beck que passava de boca em boca. Era por ali que o via, porque o point dos skins ficava no caminho entre minha casa e a faculdade.

- Lembrei também de que nessa época eu sentia raiva dele. Raiva daquele 1998, onde suas piadinhas com vários “câmera de gás” e “campo de concentração” fizeram a graça da copa ir embora.

- Mas o tempo foi meu amigo e, durante todos esses anos, não lembrava nem do Alexandre, nem da suástica do Alexandre ou, sequer, que os dois tinham participado da minha vida em algum momento. As lembranças só vieram quando senti essa mão no ombro.

- — Putz, cara. Coincidência rever você!

- E eu penso que é mesmo uma baita coincidência: O Zidane já se aposentou faz tempo. Não coleciono mais álbuns de figurinhas e na tevê, Holanda e Espanha decidindo uma das vagas para a final de 2010.

- — Aposta em quem? — E eu bem quero dizer que não sou de apostas, mas, provavelmente, ele não vai achar a graça necessária nessa minha piada sem propósito.

- Seu cabelo cresceu. Eu prendo o riso porque, debaixo daquele cabelo ainda existe o velho Alexandre: o skin da suástica no ombro. Que é mesmo que dizer que sou daqueles que acreditam que pessoas não mudam velhos costumes. Ele ainda deve sentir nojo do mundo porque o mundo não pensa como ele (e graças a Deus por isso).
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Danielle Sousa nasceu em Natal, em 1985. É formada em História e constantemente atormentada por ideias fixas, como aquela de escrever. Seu livro de estreia — A História de Guilherme O. — será lançado esse ano pela Editora Multifoco. Bloga sempre no seusuperego.wordpress.com

Um comentário:

Jacob Galon disse...

Ótimo texto! Gostei especialmente pela temática, que muito me diz respeito. Parabéns!