23 de mar. de 2011

e-Oficina para novos escritores: Editora - necessidade ou desperdício?

Por Paula Cajaty
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Há um momento em que o escritor já descobriu seu caminho, seu tema, sua voz. E já escreveu e re-escreveu muitas vezes, até chegar no ponto em que tomou coragem de se exibir e mostrar seus escritos para os amigos, para a família, para os professores. E foi além: procurou e contratou consultores personalizados, editores frila, revisores, jornalistas, e realizou oficinas livres com os escritores que julgava mais capazes.

Esse escritor sente então a vontade de alçar seu primeiro voo. De se libertar de sua própria obra, de inaugurar sua voz agora ampliada e divulgar sua fé num megafone, até para que possa continuar escrevendo outras histórias.

Nesse momento, é hora de reunir o material, montar um breve currículo e começar a tomar as atitudes certas para ingressar no mercado.

Como fará isso?

A primeira coisa: editoras não existem à toa, nem existem para publicar livros de algum pequeno grupinho de escritores sem-grana que orbita em torno dela. Lembre-se que, quando há dinheiro envolvido, não há espaço para incompetências.

Cabe a uma editora (ou casa editorial) de livros a reunião de elementos para eleger, organizar, coordenar e divulgar adequadamente a publicação das obras literárias que se julga que (1) vão render bons frutos em dinheiro e (2) vão se tornar marcos importantes para a editora, angariando prêmios pela excelência do conteúdo.

Se o seu trabalho não prima pela excelência, não traz uma nova visão sobre o mundo, e se não é um potencial de investimento com boa promessa de retorno, esqueça o patrocínio de seu livro por uma editora e pode começar a juntar as mesadas da sua madrinha.

Editar conteúdo não é uma atividade sem importância, tendo-se em conta que editoras servem para fazer uma triagem do que há de melhor sendo escrito no mercado, escolhendo quem são as pessoas de maior confiabilidade e referência em sua área de trabalho e as que têm as maiores habilidades na formação da opinião pública, ou (ainda que não tão excelentes) as mais aptas ao entretenimento de um determinado público-alvo.

O doce veneno do escorpião, livro da garota de programa Bruna Surfistinha não é uma ode à literatura. Mas lança uma nova visão sobre o mundo, utilizou como interlocutora uma pessoa de referência em seu "mercado de trabalho" e, talvez, bastante apta ao entretenimento de um determinado público-alvo. O resultado? Um best-seller da editora e um blockbuster nacional da video-produtora que filmou a história - o que, inclusive, pode resultar em fôlego financeiro para outros projetos mais, digamos assim, "culturais".

Normalmente, as editoras buscam se especializar em um tipo de publicação ou área, pois gerenciar uma casa editorial é uma atividade muito dispendiosa, que envolve fundamentalmente a leitura de originais e sua seleção criteriosa, bem como a atualização dos seus profissionais com as informações quentes do mercado literário, permitindo que eles "inventem" e produzam livros que possivelmente sejam de boa aceitação de público.

É exatamente a editora que, em tese, se incumbe da produção, divulgação e distribuição do livro. Faz isso através da contratação de alguns profissionais (a equipe editorial) e, geralmente, com a terceirização de cada um desses serviços já que todos eles são complexos e se regem por uma disciplina própria.

Julius Wiedermann, editor brasileiro no segmento de design da Taschen, em sua aula inaugural no curso de mercado editorial da Fundação Getúlio Vargas, explicou exatamente o seu trabalho: inventar livros que ainda não existem. Surgida a ideia, basta identificar pessoas-referência para co-editar, escrever conteúdo, organizar, produzir e administrar a questão dos direitos sobre imagens. Depois, diagrama-se conteúdo de texto e imagens, o arquivo segue para a China e lá é rodado em larga escala, em diversos idiomas, para distribuição mundial.

O que isso significa? Que a Taschen é um gênio financeiro? Claro que não. Significa apenas que ela possui uma linha de produção clara, e um projeto editorial muitíssimo bem definido.

Buscar uma editora que aceite publicar seu livro é o primeiro passo - e o mais seguro - para uma edição bem-sucedida, pois a editora é a intermediária mais confiável entre autores e seu público-alvo.

Ocorre que essas coisas não acontecem com facilidade.

Uma editora é também uma casa comercial, que depende de dinheiro e enfrenta todos os riscos e flutuações de mercado. Aliás, um mercado complexo, pois é mais fácil vender água, café e pão de queijo numa mega-livraria do que algum livro (dentre milhares).

Para reduzir riscos, as editoras atuam de forma conservadora, o que, por exemplo, já fez com que várias editoras perdessem grandes chances de encher o cofre (como, p.ex., a lendária história da editora que não apostou na saga de Harry Potter e perdeu de figurar dez anos seguidos no topo das listas de mais vendidos).

O mercado editorial é, pois, uma engrenagem intrincada e que possui um equilíbrio muito fugidio. Não é por outro motivo que editoras abrem e fecham, com a mesma facilidade que outros negócios mal-concebidos e mal-geridos. Felizmente, o mercado está aquecido e em expansão desde 1994, quando houve um boom literário, precisamente quando a moeda se estabilizou e se iniciaram diversas políticas de redistribuição de renda e incentivo à educação e à leitura.

Mas há a real possibilidade de um autor, com seu livro debaixo do braço, enviar vários originais para as editoras certas, e essas sequer responderem aceitando, ou não, tal desafio. Ou o risco de se ouvir uma resposta negativa, o que também é muito, muito decepcionante mesmo.

Nesse caso, se o autor confia no seu potencial e sabe a dificuldade de furar o bloqueio imposto por essa "censura" mercadológica, se o autor tem tanta fé em seu trabalho que não esmorecerá com tantos espinhos, caberá a ele buscar novos recursos para realizar seu intento.

Terá à sua disposição algumas opções, como por exemplo: (a) edições compartilhadas; (b) edição do autor; e, felizmente, o recém-descoberto (c) meio virtual, tudo organizado por grau de dispêndio. Na próxima e-Oficina, veremos os prós e contras de cada uma.


>>> Leia o terceiro texto da e-Oficina, A hora de cair dentro, AQUI

Paula Cajaty - escritora, formada em Direito e em Publishing Management na FGV. Em parceria com sites, blogs, editoras e agências literárias, produz o Boletim Leituras para mais de 4 mil leitores, prestando serviços de leitura crítica, consultoria em marketing e produção editorial e literária através de seu site http://www.paulacajaty.com/ Autora de Afrodite in verso (7Letras, 2008) e Sexo, tempo e poesia (7Letras, 2010).

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito interessante o texto escrito por Paula, e há de se louvar a sua posição. Mas penso que muita atenção se dá, principalmente aqui no Brasil, nas obras de autoajuda, que estão a acumular as prateleiras das livrarias, quando editoras poderiam ceder um pouco daquele espaço aos novos escritores de crônicas, contos, poemas, onde todos também ali tendem a se enxergarem! Não seria possível também compararmos a área da literatura com a da música, em que muitos são censurados ou negados de mostrarem seus trabalhos devido a umas três ou cinco opiniões de entusiastas do lance, porém, pouco flexíveis?? Abraço e obrigada.

Parreira disse...

É aquela história: editora não é casa de caridade. Faz negócios. Vc escreve, e ela decide se quer vender ou não. Cruel, mas é assim.

Rogers Silva disse...

Devo dizer que concordo em gênero, número e grau com este texto, apesar de usar palavras duras (e realistas) para com os aspirantes a escritor.
Beijos, Paula!