25 de mar. de 2011

Deserto Amarelo

Por Claudio Parreira
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1

Cedo, muito cedo ainda. Ele despertou, como sempre. com o ruído dos malditos passarinhos, com a luz abundante empurrando a janela, invadindo o sono escuro.
Olhos semi-abertos, no quase foco a primeira imagem se formando: uma garrafa de uísque. Vazia? Vazia sim, mas havia outra, outras. Sem muito esforço, ele apanhou a mais próxima e tomou um longo gole, um gole libertador, o gole capaz de afastar os fantasmas do corpo e da noite.
Agora sim no foco, repetiu o inútil ritual de conferir o quarto: dezenas de garrafas pelos cantos, cheias e vazias, garrafas quebradas, latas e latas de cerveja, papéis espalhados e sujeira, muita sujeira. Tudo em ordem, portanto.
O seu olhar aquecido pousou então sobre os livros, as dezenas de livros da pequena estante que a luz acariciava. Num primeiro momento sentiu carinho pelos livros, sentiu conforto. A imagem mais doce da manhã, das manhãs. Depois, na onda da ressaca, veio a crítica: por que, pra que livros? Por que ler, cheirar, acariciar o livro como se ele fosse o corpo da amada? Pior ainda: por que o exercício inútil de escrevê-los? Ofício de loucos, isso sim, ofício tão inútil quanto a velha Remington que ele via agora esquecida num canto, longe da luz. E, ridículo, ainda carregada com uma folha de papel que já fora branca, uma folha agora amarelada e cheia de sombras, uma folha há muito ausente das palavras.
Pensando nisso, ele pulou da cama, tomou um gole mais longo ainda e foi em direção à máquina. Ficou diante dela por muito tempo, observando, acariciando as teclas. Aí suplicou, com ternura:
- Por favor...
Nenhuma tecla se mexeu. Ele então exigiu:
- Escreve, caralho!!!
A máquina permaneceu calada.
2

Ela já entrou no bar com o andar desordenado. Escolheu uma mesa, desabou na cadeira. Praguejou qualquer coisa e fez um gesto com a mão. O garçom que acompanhara a cena balançou a cabeça e veio atender.
- Uísque! - trovejou ela.
Depois de servida, a mulher fixou os olhos no copo como se nada visse - ou como se visse muito além. No girar das pedras de gelo, talvez, o girar dos seus sonhos e decepções, o inevitável girar do desespero.
- Algo mais, senhora? - interrompeu o garçom.
Após um breve silêncio, ela olhou bem nos olhos do homem, sorriu e fingiu bom-humor:
- Quero um homem ao ponto. Tem aí?
Sem perder a pose, o garçom indicou a última mesa, do outro lado do bar.
- Será do seu gosto? - falou ele, sarcástico.
- Não sei. Vou lá provar.
Ela atravessou a distância que separava as mesas com a dignidade de um navio prestes a naufragar. Na mesa, o homem ergueu lentamente a cabeça. Demorou alguns segundos para focar a mulher.
- Sento? - perguntou ela.
- Senta aí - ele concordou.
No girar das pedras de gelo, agora, o encontro dos desencontros.
Alheio à cena, o garçom espantava moscas com uma disposição quase juvenil.

3

Uma única vela iluminava o quarto, lançando fantasmas de luz aqui e ali. Mas os fantasmas de fato estavam na cama, lado a lado mas sem se tocar, e conversavam:
- ... tantos livros!
- Houve um tempo em que eu lia, lia muito.
- E não lê mais? - perguntou ela. - Por quê?
- Porque é inútil - respondeu ele. - Inútil como tudo, aliás.
- Inútil como escrever?
- Principalmente escrever. Mas como sabe?
- Por causa da máquina, quase escondida. E pelo papel amarelado, que parece esperar ...

- Ele espera há anos. Mas tudo já foi escrito. Agora as minhas palavras são estéreis, são o deserto.
- O deserto amarelo.
- É isso aí.
Um sopro de vento apagou a vela e mergulhou o quarto na mais profunda escuridão. Devolvidos à escuridão também o homem e a mulher, que durante muito tempo permaneceram calados, pensativos. E quando, séculos mais tarde, a mulher perguntou algo sobre o amor, um sonoro ronco de cansaço foi a resposta.

4

Cedo, muito cedo ainda. Ele despertou, como sempre, com o ruído dos malditos passarinhos, com a luz abundante empurrando a janela, invadindo o sono escuro.
Olhos semi-abertos, no quase foco ele percebeu: a mulher se fora. Mas não sem deixar um recado: no papel amarelado da máquina de escrever um adeus riscado a batom.

10 comentários:

Ricardo Novais disse...

Sensacional, Parreira! Teu estilo é um deleite para o leitor.

Um abraço.

Geraldo Lima disse...

Parreirão, gostei muito. Estilo elegante que só. E esse pessimismo que nos deixa intranquilos.

Daniella Caruso Gandra disse...

Cláudio escreve com muita veracidade, misturando figuras de linguagem, e nos prende do início ao fim, ao mesmo tempo que todo escritor se pergunta às vezes:"Pra que escrevo?". Muito bom mesmo, e no fim da história, a personagem já tem sim um belo motivo para escrever... ;)

Paulo Laurindo disse...

Maduro e adoravelmente pessimista. Um romântico idealista que não vendeu a alma.

Maria Dias disse...

Q delícia ler vc Cláudio...

Vc escreve assim de uma forma q nao se consegue mais parar(sua escrita nos prende).Com certeza já deve ter livros publicados e tudo!Encantada!

Parabéns!

Maria Crika

Anônimo disse...

Sem elucubrações:

PARREIRA, TU É FODA, PORRA!!!

Abraço, véi.

Pedro Du Bois disse...

Meu bom Parreira, o enxuto em seu texto leva consigo a possibilidade de que a virtude (quem?)(que?) inunde as circunstâncias. Esse o gosto na sua leitura. Excelente. Abraços, Pedro.

Parreira disse...

Queridos e queridas,

agradeço a todos pelos comentários e pela leitura. Fiquei muito contente de ver tanta gente reunida!

Chico Pascoal disse...

Parreira remete a vinho, a Baco, a Dionisio...
literatura de boa cepa!
embraguai-vos da prosa deste notável!

abraço

Chico Pascoal.

Anderson José - Ansso - disse...

ESCREEEEEEVE MUITO.. ADOREI.