13 de mar. de 2011

Concepção de literatura – # Malagueta 9


O contraste entre a concepção tradicional de literatura e a concepção interativa, muito em voga nestes céleres tempos cibernéticos, pode nos fazer entender melhor o processo de mudança constante que esta arte está submetida. Sempre fora assim...

As abordagens tradicionais de escritores clássicos, quase sempre, são ligadas às concepções instrumentais da escrita – na literatura clássica há uma expressão fiel do pensamento do autor, por meio de um conjunto de regras estilísticas rigorosamente seguidas. Foram poucos os escritores consagrados que deram, mesmo que pouco, mais valor ao enredo, em suas vertentes livres e espontâneas, do que à maneira e forma de produção. Machado de Assis, por exemplo, introduziu a metalinguagem em seus textos com maestria, mas me parecia, por demais, ligado à escola realista francesa, por hábito. Flaubert é muito elogiado pela qualidade de sua escrita e perfeição textual e descritiva; isto é excelente! Contudo, não nascem todos os dias Flauberts em cercanias de Paris ou de Marselha e bruxos em morros cariocas; entretanto, todos os dias nascem por todo o planeta novos escritores, e estes, geralmente, privilegiam o estudo da regra ante a criatividade.

A prática mecânica, calcada nas listas de coletivos, adjetivos, conjugação de verbos, regras de concordância, pontuação etc., opõem-se à exploração da metalinguagem e criação livre. Para blogueiros escritores – e nisto discordo da opinião da querida e talentosa escritora Paula Cajaty, quando ela diz que blogues não produzem literatura –, a perspectiva interativa e metalinguística só podem ser inseridas no universo das práticas sociais, discursivas e, ainda, das criações imaginativas. De fato, não me parece correto afirmar que textos memorialistas são literatura, pois esta arte me alvitra mais a um lugar difícil, entre a imaginação e a realidade, onde apenas a escrita ficcional consegue chegar; mas integrar o leitor como co-autor do texto, discutindo e proseando com ele, até lhe zombando à cara às vezes, é uma maneira muito mais eficaz, além de mais divertida, de se produzir um texto de ficção do que a maneira unilateral de literatura tradicional.

O autor não é o dono do texto, e o leitor não é o submisso da história. Há o conhecimento, pelo menos intuitivo, de construção e interpretação de um texto. Relembremos que a literatura é eterna e frenética mudança; pois não é arte solitária, como as pinturas de telas ou as composições musicais, por exemplo. A literatura só pode ser classificada como tal se estiver inserida no meio social onde surgiu, mesmo que o enredo seja fictício, e deve ser, e a criatividade venha da imaginação do autor antevendo o pensamento de seu leitor. A competência textual de um escritor permite-lhe, ainda, averiguar se em um texto predominam sequências de caráter narrativo, descritivo, expositivo e/ou argumentativo daquele que o lerá. Não se torna difícil, na maior parte das produções metalinguísticas, distinguir um horóscopo de uma anedota e esta de um regimento político ou carta pessoal, bem como, por outro lado, um texto real de um fabricado, um texto de opinião de um texto predominantemente informativo e assim por diante.

Concordo que o estilo é apenas do escritor, mas todo o resto é daqueles que tomam conhecimento do enredo – incluído os direitos autorias. Hein?! Deixemos isto, caro leitor, que isto é outra história... Em literatura, por fim, só sabemos que o leitor é tão importante quanto o autor e que escrever é infinito... Daí a preferência deste autor pela criação metalinguística ante a concepção tradicional de se produzir ficção; coisa de blogueiro, como sabe.

4 comentários:

Paulo Laurindo disse...

Penso que você está correto ao afirmar que ao autor o estilo. Tudo o mais é coletivo. Porisso é tão dificil o Grande Romance, o romance nacional. Para isto é preciso que o leitor se queira escrito e assuma qual ou quais escritas lhe descreve. É é justamente aqui que vejo o valor dos bloqueiros. Penso que não estamos em busca de uma história e sim em busca de uma linguagem que sirva de suporte a esta História.

beronique disse...

Adoro o ambiente da blogsfera para trocar informações literárias e ler muita coisa boa, foi através deles, aliás, que me vi inserida em diversos projetos literários, antologias de contos. Os contos, que eram meu ponto fraco viraram material justamente para me desafiar,e me aprimorar. Ainda tenho passos arduos a dar, mas esses primeiros foram de suma importancia para todo o processo e acredito também ser para muita gente ^^!

Giovani Iemini disse...

em 2010 avaliei os projetos de literatura da secretaria de cultura do DF como conselheiro ad hoc. indeferi alguns processos pois achei que "NÃO ERAM LITERATURA". tratavam de questões religiosas ou técnicas. dai fui pesquisar e me deparei com as tais LITERATURA COTIDIANA e TÉCNICA. a primeira é um apanhado dos acontecimentos diários, que serve para descrever a contemporaneidade, e a segunda serve para esclarecer sobre fatos. bem, me arrependi da decisão no conselho pois descobri que a literatura É MUITO MAIOR que a mera definição de um grupo num espaço temporal.
só depois de muito tempo é que se define o que ERA literatura ou não.
as cartas de Caminha não o eram, agora são.
e ai?

Ricardo Novais disse...

Paulo, isto que você pensa me parece correto. Faz todo o sentido a questão de parecer que se procura uma linguagem em literatura - sabe-se lá...
Abração, meu amigo.

Que bacana, Beronice! Vou querer saber mais de teus contos, devem ser fascionates. =)
Um beijo.

Pois é, Giovani; também creio que a literatura seja atemporal. E mais: tenho a esperança que a literatura não seja apenas um título ou um rótulo; que seja mesmo arte!
Ah, mas espero que está tua pergunta final seja retórica... Ha-ha-ha!
Um grande abraço, meu caro.