20 de fev. de 2011

Uma semana agitada

Por Antônio Augusto Mariante Furtado
-
segunda-feira.
-
Onze horas da manhã. Enterro da ex-famosa modelo. Pouco luto. Muito pretinho elementar. Meias pretas ao sabor do footing. Cigarros saltitantes. Olhos vermelhos discretos ocultos por negros Dolce & Gabbana. Jasmins e círios ardentes. Sufocante. Ar condicionado da capela não dando conta. Calor de rachar. Alguém soltou que a defunta era uma múmia hollywoodiana. Alguns novatos se atrapalharam com o livro de presença. O champanha estava quente. Rejeitamos os canapés. Um indignado, pelo entrevero dum Pai Nosso, desafiou um ou eu ou o cigarro, ao que a outra respondeu: o cigarro. Pontualidade quase inglesa na hora do sepultamento. Todos estavam presentes. Betinho flertou com um dos rapazes da funerária, mas ele parecia com medo de perder o emprego. Muitas discutiram a possibilidade do vestido da morta ser Chanel. Alguém comentou sobre o exagero do anúncio fúnebre. Um quarto de uma página do jornal. Outro esperava maior discrição para a missa de sétimo dia. Contamos próximo de duzentas e quarenta e oito pessoas. Bem concorrido. Houve retardatários. Escaparam de nossos cálculos. Um sucesso.
-
Três horas da tarde. Almoço no Clube Inglês. Calor de rachar. Todos estavam presentes. Ninguém deixou de usar branco. Alguns novatos não sabiam muito bem o que fazer com a alcachofra. Betinho flertou com um garçon uruguaio, mas ele estava muito atarefado com os pratos. Chuva torrencial e saraivada de vento sem aviso. Segunda carne do prato principal interrompida. Os toldos brancos sumiram do mapa em fração de segundos. Não houve feridos, só encharcados. Sobremesa, café e licor no Salão Gótico. Permitiu-se cigarros e assemelhados. Um sucesso.
-
Nove horas da noite. Calor irrespirável. Joguinho de biriba na morada de Alzirinha Pimenta. Todos estavam presentes. Betinho beliscou a coxa dum dos copeiros. O rapaz ficou um pimentão, mas continuou indo e vindo com os copos. Telefonema súbito. Todos debandamos para a piscina de Dora Azevedo. Alzirinha não quis ir. Na saída, Betinho piscou para um dos guardas. Não gostou muito do que ouviu. Um sucesso.
-
Meia noite. Betinho bebeu tanto que quase morreu afogado na piscina. Alguém o pôs para dormir num dos quartos de hóspede. Por determinação da dona da casa, todos os empregados homens trancaram as portas de seus quartos durante essa noite. Um sucesso.
-
terça-feira
-
Dormimos até às quatro da tarde. Dezenove horas. Lançamento da nova coleção de produtos da TAKANOKU do Brasil. Todos estavam presentes. Myriam Diva achou uma gracinha o Sempre Nova, um tipo especial de absorvente que provoca constrição vaginal, oferecendo a sensação de virgindade. Cármen Dora Vargas adorou o Cinderela, creme facial que provoca rejuvenescimento instantâneo, com efeito temporário, garantindo uma noite de beleza e muito prazer. Outras ficaram apenas com o Bronze 24 horas, que oferece uma cor de cobre fabulosa, pelo corpo inteiro, evitando os perigos dos banhos de sol. Os homens apaixonaram-se por Permanência, um gel afrodisíaco que sustenta a ereção por mais de 8 horas ininterruptas. Volume & Extensão também foi um sucesso de vendas, pois aumenta o tamanho peniano, oferecendo a possibilidade de um visual muito atrativo. Recomenda-se o uso de ambos para uma performance adequada. Os mais jovens aderiram ao Sem Sinal, um colírio próprio para os consumidores de marihuana, que evita a vermelhidão da esclerótica, garantindo uma aparência saudável e sem vestígios do uso do estupefaciente. Betinho foi ao banheiro e experimentou o Sempre Nova, mas os efeitos foram aquém de suas expectativas: além de não diminuir o diâmetro, precipitou-lhe uma irritação insuportável, entre a ardência e a coceira, obrigando-o a abandonar o coquetel muito antes das onze horas da noite. Foi conduzido a um táxi pela própria Midore Takanoku, uma criatura adorável, caminhando com muita dificuldade. Confessou-nos, no dia seguinte, pelo telefone, que sua vontade, no momento mais crítico, era arrastar-se pelo chão como um cachorrinho repleto de vermes. Bom champagne. Ar condicionado impecável. Muitas sacolas adejando na direção de seus automóveis. Um sucesso.
-
Observação:
-
Mas não houve um de quarta a sábado, com direito a descanso no domingo. O avião em que estavam depositados, tendo como destino Paris, sofreu um sabe Deus o quê, desaparecendo pelo meio do Atlântico. Todos estava presentes, exceto o narrador que não tinha euros para que pudesse acompanhar a entourage. Até o presente momento, só destroços foram encontrados boiando. Mas as notas do suposto falecimento de muitos foram discretas, embora provenientes de várias fontes, enchendo o necrológico dos jornais durante alguns dias. Logo todos foram esquecidos pela mídia. Um sucesso!
-
Antônio Augusto Mariante Furtado participou de Geração 80 (Mercado Aberto, Porto Alegre, 1984) com dois contos – Sonho I (Caso Objetivo) e Zona Tórrida. Ganhou o prêmio literário da Unicamp em 1987 com o conto A Putrefação de Vovó, entre outros. E-mails: antonioa.mariantefurtado@gmail.com e mariantefurtado@hotmail.com

2 comentários:

Paulo Laurindo disse...

Penso que o nome da empresa japonesa destoa, fere um pouco a maestria com que o autor nos faz adentrar ao universo da moda.

Lajedo Hélverton Baiano disse...

Uma delícia de narrativa, ainda mais pela irreverência e critaividade. Muito bom!