11 de fev. de 2011

Especial Micronarrativas n'O BULE

Micronarrativas de Ana Mello
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O monstro embaixo da cama
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Duvidei dos seus poderes e da sua existência, estendi a mão trêmula e sentencie:
– Se existe mesmo, pegará minha mão. Senti o calor e o toque mais quente que alguém com seis anos é capaz de imaginar.

Esquartejada
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Só cortei porque não cabia na caixa.
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No ônibus
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Ela furtiva lia meu Quintana. Sentia seu coração batendo forte no meu braço, só não sabia se era por ele ou por mim.
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Na rede
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Rolou o maior romance e foram pra cama no primeiro encontro.
Ele em SP, ela em Paris.
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Audácia
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Ele disse:
– Só por cima do meu cadáver.
Tentei não pisar na cara, para não estragar meu sapato novo.
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Ana Mello é licenciada em Ciências e Matemática pela Unisinos. É colunista do site Sortimentos.net, do Diário de Cachoeirinha (edição de sábado), coeditora da Revista Veredas e editora de literatura e ilustração do site Artistas Gaúchos. Escreve poesias, contos e crônicas. É coordenadora do Movimento Poetrix no Rio Grande do Sul. Publicou em 2009 seu primeiro livro em papel, Minicontando, pela editora Casa Verde. Ministra oficinas de minicontos, crônica e poetrix para público jovem e adulto. Seus e-books, Verbetrix, Aleivosias e Céu & Inferno podem ser acessados gratuitamente.
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Micronarrativas de Felipe Valério
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Árido
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– Faço 2 por 20.
– Só tenho 15.
– Então o caçula fica.
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Distraído
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Chegou atrasado na suruba e levou um pé na bunda.
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De joelhos
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– O que posso ser quando crescer?
– O meu coroinha preferido
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Teimoso
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Todas as manhãs mandava o marido comprar cigarros. Mas ele sempre voltava.
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Recaída
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– Como posso provar que eu mudei, filha?
– Tirando a mão do meu peitinho.

Felipe Valério lançou o livro de microcontos Sem Casca (2009) e teve contos publicados nas antologias Maus Escritores (2009) e Mamãe, Vim Só Fazer Uma Visita Rápida (2010). Hoje, seu maior orgulho é fazer parte do coletivo literário Edith (http://visiteedith.com/). Seu livro de estreia, Hotel Trombose, tem previsão de lançamento para 2011.
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Micronarrativas de Tiago Moralles
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A moeda foi na direção da fonte, a mente na direção da infância e o pedido na direção errada. Nunca encontrou o filho desaparecido.

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No fundo do bar, em sua nuvem particular de nicotina, gole a gole, ele e o garçom, já cansados da mesma música, flertaram a noite toda.

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Os moradores de rua brincavam de escolher cardápio em frente a um outdoor do McDonalds.

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Prestou os primeiros e últimos socorros.

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Revirando o porão, Seu Felipe resmunga baixinho, como pode caber tanta saudade dentro dessas caixinhas de brinquedo?
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Tiago Moralles tinha o sonho de ser escritor, virou cronista por gosto, redator por necessidade e hoje escreve microcontos por falta de tempo.
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Micronarrativas de Hélverton Baiano
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Príncipe
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Era carnaval e ele beijou, beijou, beijou, beijou muito, até se embriagar de tanto beijar. Beijou até a boca do Rei Momo. Queria mesmo virar sapo.
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Assunção
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Fantasiou-se. Aproveitou o carnaval para soltar a franga, vestir-se de mulher, pintar o rosto, passar batom e cair na folia. Nos cinco dias de Carnaval, Marcelo afogou-se em fantasias e cachaça. Na Quarta-Feira de Cinzas já não era mais o mesmo.
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Memória
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Foi o melhor carnaval de todos os tempos. Niéle, na flor da mocidade, se esbaldou de prazer, alegria e muita cerveja. Ficou ligadona e curtiu demais. Foi uma festa que ficou na memória por toda a vida, lembrada principalmente quando tinha de trocar a fralda de Claudinho.
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Festa
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Álvaro não deixava de brincar o carnaval por nada deste mundo e nem do outro. Nem mesmo quando, na terça-feira gorda, teve de ser levado ao cemitério.
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Corno inusitado
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Ela não se aguentava com shopping, não podia com ele ou com qualquer loja ou venda que aparecesse no meio do seu caminho. Logo se sentia atraída, uma vontade louca de comprar, mesmo tendo ido lá apenas para passear. Acabava que o cartão de crédito e a conta no banco ficavam nas contas do maridão. Era a única forma possível que encontrava de traí-lo. Corno inusitado, ele nem percebia que tirava chifres do bolso. Mas ela sabia o prazer que sentia.
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Hélverton Baiano é jornalista e escritor. Mora em Goiânia, GO, e mantém uma coluna no jornal Diário da Manhã. Já publicou alguns livros, entre eles: Algemas de algodão (contos, Ed. Instituto Goiano do Livro, 2002) e Paraíso Profano (poesia, ND Editora, Lei Goyazes de Incentivo à Cultura, 2009).
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Micronarrativas de Wilson Gorj
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Microcontista
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Com seus pequeninos contos, quisera tornar-se um grande escritor. Mas grande mesmo foi a sua desilusão. Pouco lido, pouco conhecido. Morreu frustrado.
Seu obituário no jornal lembrava um microconto.
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Circenses
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II
O Atirador de facas descobriu que ela o traía com o Domador de leões.
Naquela noite, o atirador lançou sete facas ao encontro da roda onde a esposa infiel girava sem desconfiar de nada.
Nenhuma delas acertou a madeira.
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III.
Ao redor do mágico comprimia-se a criançada a fim de ver as coisas que ele retirava da cartola: coelho, buquê de flores, metros e metros de lenços amarrados.
Até então excluído, o menino maltrapilho venceu a vergonha e aproximou-se.
– Tem como tirar daí um prato de comida?
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Variações sobre a pedra
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II.
Havia uma merda no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma merda.
Ah. Quem dera fosse uma pedra...
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III.
No meio do caminho havia uma pedra. Havia uma pedra no meio do caminho...
"Azar de quem a perdeu", comentou o viciado antes de fumá-la num cachimbo improvisado.
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Wilson Gorj (1977 - Aparecida, SP) é autor dos livros Sem contos longos (2007) e Prometo ser breve (2010), ambos constituídos de micronarrativas. Tem participação em várias antologias, revistas e sites. Escreve para os jornais O Lince e Comunicação Regional. É editor do selo 3x4 microficções, da editora Multifoco/RJ. Seus textos podem ser lidos no blog O Muro & Outras Páginas. Contato: gorj@jornalolince.com.br
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Micronarrativas de Raphael Gancz
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Luta armada
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É a sua última chance. Trate de desperdiçá-la.
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Brinquedo
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Quanto mais o pai se divertia com a filha, mais ela entendia que aquilo
não era brincadeira.
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Ordem
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Empurre os indecisos primeiro.
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Um apelo
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– Se você for embora, por favor, não demore.
– Para ir ou para voltar?
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Na linha
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Acordou e não conseguiu abrir os olhos. A mulher, além de ciumenta,
era costureira.
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Raphael Gancz tem 30 anos, nasceu no Rio de Janeiro e faz parte, junto com outros artistas, do coletivo Edith. Teve textos publicados nas antologias Maus Escritores e Mamãe, vim só fazer uma visita rápida. Acaba de publicar ContraBandos, seu primeiro livro de manifestos poéticos.
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Micronarrativas de Angela Schnoor
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Limites humanos
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Por favor, Tomé! Resolve logo sua dúvida e tira o dedo da minha chaga. Posso ser divino, mas também sinto cócegas.
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Genioso
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No oriente, passou por uma feira e encantou-se com uma lamparina como a dos contos de fada. Em casa, ao esfregá-la, foi tragada. O Gênio aprisionado a desejou primeiro.
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Viajante
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Diziam ser uma criança difícil. No natal e no aniversário era sempre o mesmo problema, em sua lista de desejos não constavam brinquedos. Só queria voar e tornar-se invisível.
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Rituais
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Ao ficar idoso, começou a preparar-se serenamente para a morte. Desfazia-se de todas as coisas num ritual tão puro e belo que a morte, encantada, distraiu-se aproveitando a homenagem e se esqueceu de chegar.
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Manhãs
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Um gato com uma cor impossível, verde como maçãs, cantava à beira de minha janela esta manhã. Não gosto de ser acordada, mas quis ser gentil e lhe ofereci um pouco de leite ao que ele retrucou dizendo que pássaros preferem alpiste.
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Angela Schnoor é carioca. Psicóloga, publicou os primeiros minitextos em 2001, nos 300 toques do fanzine Falaê. Colabora com Minguante e Veredas, revistas on line dedicadas a minificção, e edita o blogue Microargumentos, uma publicação exclusiva de seus minicontos, que são também editados em Espanha, Argentina e Itália. Participou das coletâneas Contos de Algibeira, da editora Casa Verde-RS, e Entrelinhas, organizada pela Editora Andross-SP. Em outubro de 2010 lançou o livro O olho da Fechadura pelo selo 3x4, da Editora Multifoco.
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Micronarrativas de Chico Pascoal
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Lux
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Nove meses depois do blecaute ela deu à luz.
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Ensaio
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Fiz o ensaio fotográfico da garota da laje, disse o papiloscopista.
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Curare
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Dose única. Milimétrica - só pra relaxar.
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Lei da oferta e da procura
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Vendo apenas o corpo - disse a prostituta ao pobre diabo.
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Psicotrópico
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À terceira tragada no narguillé, o tapete moveu-se inquieto sob os seus pés.

Chico Pascoal é cearense, e reside em Sampa. Escreve principalmente brevidades; mas fugindo do padrão, ultimamente tem se alongado em suas narrativas.

8 comentários:

Tiago Moralles disse...

Amigos.
Parabéns pelo conteúdo publicado.
E principalmente a organização do Especial.
Microabraço a todos.

Ricardo Novais disse...

Excelente! Excelente!

Chico Pascoal disse...

Muito bom ver os minicontistas ocupando o seu (mini)espaço. ... y Viva Monterroso!
Parabéns à Galera do Bule, Geraldo, Parrreira & Cia...

Anônimo disse...

Geraldo,

Mais uma vez o agradeço pela oportunidade e parabenizo os colegas pelos textos, autores habilidosos na arte de dizer o máximo com o mínimo.

Parabéns também a equipe d'O Bule pela iniciativa e pelo trabalho ímpar que vocês estão fazendo em prol da nossa literatura.

Abraços.

W. Gorj

Marcia Barbieri disse...

Todas maravilhosas!!!!! Me diverti muito!!!!! Parabéns ao O Bule e aos autores.

beijos

Adalgiza disse...

Parabéns a equipe d`O Bule! Sorvi cada gole, saboreando todos os gostos.

Abs

Angela disse...

Geraldo, agradeço a você e à equipe de O Bule pela oportunidade de estar acompanhada por excelentes companheiros de concisão.
A matéria ficou muito bem feita.

Um abraço da Angela.

Giovani Iemini disse...

sim, muito bom.