9 de fev. de 2011

e-Oficina para novos escritores: Uma advertência necessária

Por Paula Cajaty.

Quem busca escrever, seja profissionalmente ou não, e quer publicar sua produção escrita, enfrenta três fases bastante distintas, cada uma com suas dificuldades específicas: uma primeira, em que produz o seu conteúdo e prepara esse conteúdo até a aceitação de uma editora; uma segunda fase, em que concentra seu tempo e energias na interação com a editora ou a gráfica e administra os detalhes do lançamento; e, finalmente, a terceira, que é a divulgação desse livro, bem como a retomada da produção escrita..

Todas essas fases possuem desafios, sendo que a primeira fase é a mais fácil entre as três. Isso acontece porque, antes de publicar, não há cobranças, não há as aflições e questionamentos que as demais suscitam. Escreve-se com facilidade e todos os passos são vistos como parte do crescimento pessoal e amadurecimento da obra..

Antes de começar a escrever profissionalmente, é imperativo responder a alguns questionamentos..

O primeiro se refere à vocação literária..

José Castello (Prosa&Verso, Jornal O Globo, 14.02.2009), adverte, com propriedade: "O escritor iniciante não deve se preocupar em escrever, ou escrever corretamente, ou em escrever para brilhar. Tudo isso queima - e passa. Tateando às escuras, ele deve se preocupar, apenas, em escrever. Pode parecer fácil, mas é o mais difícil.".

A vocação literária é, sem dúvida, o principal componente que deverá conduzir à escrita profissional. No entanto, com o advento da internet e suas facilidades, todos vêm se tornando escritores. Escritores de blog, escritores de spams, escritores virtuais. Isto, no entanto, deve ser examinado com especial atenção..

Uma coisa é gostar de escrever um diário, para contar a todos os amigos o que tem acontecido na vida recente. Não há mal algum nisso e, talvez, esse texto de blog poderá até mesmo se tornar um livro. Mas não creiamos que esse escritor seja aquilo que se identifica por um escritor profissional..

Uma segunda coisa é ter uma tendência jornalística nata e externar comentários, também em blogs, sobre os acontecimentos recentes que dizem respeito a uma determinada matéria, seja a defesa dos animais, seja moda, ou um folhetim sobre as notícias do bairro. Isso, na verdade, não é vocação literária, é vocação jornalística, aqui seja bem entendido..

A vocação literária pode despontar no início da alfabetização, no início da adolescência ou até mesmo na idade adulta ou provecta. Se o vocacionado abraçará, nesses momentos, sua vocação, já é outra história. A opção por caminhar na vida literária pode ser feita de acordo com as conveniências de cada um, certo que cobrará seu preço no futuro. Mas o fato é que, se a tendência tiver se mostrado nestes momentos-chaves do desenvolvimento individual do escritor, aí temos um vocacionado para a causa literária..

Então, como identificar esse chamado?.

Todas as pessoas reagem de forma singular aos estímulos externos. Algumas sentem uma determinada urgência em, por exemplo, defender injustiçados, já outras têm inequívoca habilidade na mediação de conflitos, e há ainda aquelas que conseguem escutar problemas alheios, racionalizá-los e resolvê-los. Com facilidade se tornarão advogados, juízes, psicólogos. Isso acontece inicialmente num pequeno círculo, familiar e de amigos, e acaba se transferindo para a vida pública e profissional. Estamos, aqui, falando daquela pessoa que veja a literatura como meio único para o alívio dessa urgência, um contador de histórias, um inventivo criador de histórias diferentes, alguém que privilegie a leitura e a escrita em detrimento de diversos programas alternativos..

Escritor não será, pois, aquele que destina apenas as horas vagas ao exercício do seu prazer. Ao contrário, é aquele que elege como essencial à sua vida o uso de todo seu tempo disponível e prioriza as atividades de leitura e escrita, deixando outras de lado..

Pergunte-se, então: quantas vezes eu deixei de ir à praia, ou a um restaurante, para me dedicar aos livros? Quantas vezes eu me aborreci ao ter um compromisso social ou profissional, e contei os minutos para voltar aos textos? Quantas vezes, num espaço público, tive a urgência de anotar algo num papel para desenvolver mais tarde?.

Todas essas respostas - e mais outras, a perguntas que não foram aqui feitas - indicarão a vocação para a profissão de escritor. Não a profissão de professor de literatura, não a profissão de tradutor ou jornalista, mas a profissão de escritor. E o que se vai fazer enquanto a atividade não gera lucros é outra questão, a ser enfrentada em outro momento.
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BIBLIOGRAFIA INDICADA: Vargas Llosa, Mario. Cartas a um jovem escritor. Ed. Campus, 2006..


Paula Cajaty - escritora, formada em Direito e em Publishing Management na FGV. Em parceria com sites, blogs, editoras e agências literárias, produz o Boletim Leituras para mais de 4 mil leitores, prestando serviços de leitura crítica, consultoria em marketing e produção editorial e literária através de seu site www.paulacajaty.com Autora de Afrodite in verso (7Letras, 2008) e Sexo, tempo e poesia (7Letras, 2010).


8 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns Galera pelo novo site. Está ótimo, bem clean e bem leve, perfeito até para leitura em celular - uma nova constante em nosso cotidiano corrido. O fundo branco é sempre uma ótima pedida para posts longos. Crescimento sempre a todos vocês.

Agora, uma ressalva: esse logo também precisa de uma reformulada, está destoando do restante do site.

Grande abraço e literatura sempre!
Nunes

Parreira disse...

Querida Paula:

Muito bom esse primeiro texto da e-Oficina. Inovação. Aguardar a próxima é que vai ser doloroso.

Parabéns!!!

Giovani Iemini disse...

eu quero participar. sou assim. não tão, mas um tanto.

William Fontana disse...

Acompanho seu blog pelo meu onde adicionei-o, e desejo saber como faço para ter alguma resenha feita por vocês de algum livro meu que já foi publicado?? sou escritor de ficção e de filosofia - e de outros temas em obras menores - e tenho sofrido enorme discriminação neste meio.
Agradeço a atenção e ótimo fim de semana!

Débora Gauziski disse...

Ótimo texto.

Eu tenho muita vontade de escrever um livro. Aquela velha história "plantar uma árvore, ter um filho, escrever um livro" (não necessariamente nessa ordem, heh). Sempre anoto as ideias em papeis, no meio da rua, no ônibus etc. Alguns personagens vivem dentro da minha cabeça. No entanto, o José Castello está certo: o mais difícil é escrever. Eu nunca acho que está bom o suficiente. Quem sabe um dia...

Ah, e o template está bem mais bonito! Parabéns ao pessoal do blog!

Roberto Dias disse...

Que interessante essa oficina para escritores, e não podia começar melhor da forma como foi iniciada aqui. Estes conselhos ou verdadeiros meios identificadores serviram para verficar algumas delas em mim. Tem sido uma luta de identificação e aceitação. Por quantas vezes me vi entre um copo de cerveja e as leituras pendentes que deveria fazer- se bem que em algumas vezes a inspiração vinha com algumas taças de bom vinho. No entanto, tenho me transformado nesse ser levemente misântropo, lidando bem com os livros e deles tirando proveito, e avesso as conversas chatas entre amigos.
A percepção precoce, a visão premunitória de antigos professores sobre minhas primeiras redações, isto tudo casa de fora tão reveladora e pacificadora que faz até acreditar que realmente deve ter alguma coisa por detrás dessas identificações.
Parabéns à escritora Paula Cajaty e ao BULE por promover esta oficina. Estarei sempre presente...se for possível.

Anônimo disse...

Gostei dos questionamentos.

Márcia Luz disse...

Oi, Paula

Gostei muito da forma como começou a e-oficina. Não quero perder nada!

Beijos.