12 de jan. de 2011

Um microconto, do livro inédito Tesselário (Reprise)

Por Geraldo Lima
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XXXII. JOÕES.
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Parecia-lhe impossível a execução do plano: como poderia um simples personagem agir fora dos limites impostos pelo autor? Como saltar da ficção para a realidade? E não fora fácil tomar aquela decisão. Entre a amolação da faquinha e aquele momento, travara-se uma batalha infernal entre a parte boa e a podre da sua consciência. Um maioral dentro dele. Por fim, ei-lo ali. O escritor, pasmo:
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— Epa, João. Que fazes aqui?!
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Merecido espanto. Então se dava ao prazer de expô-lo nas mais diversas tragédias, estripando a mulher, estuprando mulheres, estragando os filhos, estocando o amante da cadela... Brandiu a faquinha, quase já roçando a cara do escritor.
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— Que merda é essa, João? Sou teu criador. Sou Deus!
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Orra, ainda por cima um herege. Bem merecido.
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Chovia em Curitiba, gotas vermelhas pingavam das vestes.

2 comentários:

Enéias Teles Borges disse...

Salve!

Estou seguindo o seu blogue. Muito bom.

Parabéns!

Geraldo Lima disse...

Obrigado!