12 de dez. de 2010

A nossa falta de tempo

Por Geraldo Lima
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A minha vida anda muito agitada, corrida à beça. Vou assumindo compromissos e, de repente, já angustiado, descubro que o tempo é curto para cumprir todos eles. Mas será mesmo que o tempo encurtou? que está passando mais rápido? “O dia está passando mais rápido e isso me assusta”, escreveu uma jovem dia desses no twitter. E eu pensando que somente nós, a galera das antigas, é que tem essa sensação de que os dias e os anos estão passando mais rápido. Tudo está acelerado. E o resultado dessa aceleração é que nos falta tempo tanto para cumprir os compromissos assumidos quanto para a reflexão. Nossas ações acontecem e caem no vazio.
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Há, eu sei, uma explicação científica para esse encurtamento dos dias. Teria a ver, segundo cientistas da Nasa, com os terremotos do Chile e de Sumatra. Mas não vou entrar em detalhes aqui sobre as consequências dessas catástrofes naturais. Poderia citar, também, para a sensação de sufoco e falta de tempo, o ditado popular que diz assim: “Para quem trabalha, os dias parecem curtos”. Pode ser isso: estamos trabalhando demais e nos distanciando da profecia do ócio criativo de Domenico De Masi.
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Mas prefiro pensar essa questão de um viés mais metafísico.
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Talvez o que tenha se acentuado seja a nossa consciência do presente e a nossa expectativa em relação ao futuro, em contraposição a uma visão de mundo mais centrada no passado. Os antigos viviam mais ligados à tradição, àquilo que permanecia intacto anos após anos. Hoje, como diria Karl Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Cabe ainda entendermos que o presente é uma fração do tempo já contaminada pelo passado e pelo futuro. Em si, o tempo presente dura uma fração de segundos, pois logo já é passado, tendo sido antes a expectativa de futuro. Jorge Luis Borges, no texto O Tempo, do livro Borges Oral, indaga a partir do pensamento de Santo Agostinho: “Consideremos o momento presente. O que é o momento presente? O momento presente é o momento que consta de um pouco de passado e de um pouco de futuro. O presente, em si, é como um ponto finito da geometria. O presente em si não existe”.
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Então me vem esta ideia: temos, hoje, uma vida mais ligada ao que vai acontecer do que ao que já aconteceu. A angústia maior, imagino, origina-se disto: vivemos nesse presente em que o futuro chega mais rápido, e as coisas acontecem numa velocidade mais intensa por conta da tecnologia. Não foi outra a impressão que tiveram os artistas no início do século XX com o aparecimento do automóvel, do telefone, do rádio etc. A ideia de velocidade contaminou o pensamento moderno. E aqui estamos nós, neste início de século XXI, enredados por essa sensação de rapidez no passar dos dias.
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Há os que vivem ainda a expectativa de retornar ao interior para reencontrar o sossego numa cidadezinha pacata, como aquela do poema “Cidadezinha qualquer”, de Drummond, em que ele descreve a mansidão e o tédio do passar lento da vida e das coisas:
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Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
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A pergunta é: Com a globalização e as novas tecnologias chegando aos mais distantes rincões, ainda podemos encontrar uma cidadezinha assim, onde nos parece que o tempo parou ou não tem a mínima pressa de passar? E mais: havendo ainda, poderia a pessoa, já contaminada por toda essa agitação dos grandes centros urbanos, acostumar-se com ritmo tão lento? Quando me pego tecendo projetos nesse sentido, bate-me essa dúvida e penso que estou mesmo condenado a viver nessa correria. Porém, sei que esse estilo de vida não é saudável. O mínimo que posso fazer, então, é desacelerar, encontrar momentos para a reflexão, para que os meus atos não sejam apenas uma sucessão de ações vazias. O pensamento não pode se assemelhar assim a objetos descartáveis. O que nos faz falta hoje é uma maior duração das coisas, dos sentimentos e das ideias.

7 comentários:

Anônimo disse...

É isso aí meu amigo Geraldo. Às vezes, desejo que o mundo pare por 24h para que eu possa descansar um pouco. Haja correria!! Parabéns pela crônica. Valéria

@sobrecomum disse...

Adorei o texto, principalmente a conclusão. Existe mesmo uma fragmentação dos sentimentos e a substituição e uma carta por um sms é uma clara imagem dessa falta de elaboração das idéias. Por outro lado, a cidade anda toda cheia de pedágios. Praças arborizadas onde se possa descansar são nichos comerciais dos informais, dos ilegais e daqueles que possuem CNPJ.

Essa cidadezinha calma onde o autor da crônica quer morar foi murada, loteada e agora se chama condomínio garden sei lá das quantas. Se vc puder pagar pelo sossego, ele será todo seu.

A vida anda conforme os interesses das pessoas. Antigamente descansar era sinônimo de aposentadoria. Hoje em dia é um pouco mais difícil.

Ando pensando nessas mesmas questões e não consigo me desvencilhar das armadilhas que eles nos preparam. Acabo tropeçando vez por outra.

Anônimo disse...

Muito bom, e ainda perdemos tempo com tantas besteiras e coisas banais.

Sayonara Salvioli disse...

Geraldo,
Belo texto! O tempo talvez seja o tema que mais suscite minhas divagações e “filosofações”. Tenho em meu blog discutido a respeito, incansavelmente (risos). Como você, no intuito de tentar compreender e justificar a tal implacabilidade cronológica, já recorri a explicações científicas como a ressonância Schulmann, a previsões lúdicas constatadas, como o mundo antecipado dos Jetsons (mais risos) e a viajoras buscas metafísicas...
No fim de contas - contas do chronos! –, acho que a minha principal preocupação nesse sentido é a responsabilidade que temos de utilizar o tempo do melhor modo, pois nos é cobrado o tal compromisso da posteridade, do legado que precisamos deixar (num futuro remoto, espero!) para nossos filhos, amigos, contemporâneos e, mesmo, irmãos de outras épocas. Assusta-me a finitude terrena e o pouco tempo que temos para sanar e extravasar nossas lacunas e aspirações! No início de novembro, movida por uma revelação onírica (outra temática que desbravo), escrevi justamente sobre essa efemeridade do instante (http://www.sayonarasalvioli.blogspot.com).
Seu texto, além da excelência, nos brinda também com uma visão racional e elucidativa, especialmente no enfoque da contemporaneidade tecnologizada. Sim, isso deve realmente trazer o efeito aceleração pelo qual temos sido tão arrebatados!
Adorei "O bule"! Por isso, passarei sempre para um chá (não necessariamente na "hora do chá", pois o tempo não deixa)!...
Saudações atemporais :)

Sayonara Salvioli disse...

Geraldo,
Belo texto! O tempo talvez seja o tema que mais suscite minhas divagações e “filosofações”. Tenho em meu blog discutido a respeito, incansavelmente (risos). Como você, no intuito de tentar compreender e justificar a tal implacabilidade cronológica, já recorri a explicações científicas como a ressonância Schulmann, a previsões lúdicas constatadas, como o mundo antecipado dos Jetsons (mais risos) e a viajoras buscas metafísicas...
No fim de contas - contas do chronos! –, acho que a minha principal preocupação nesse sentido é a responsabilidade que temos de utilizar o tempo do melhor modo, pois nos é cobrado o tal compromisso da posteridade, do legado que precisamos deixar (num futuro remoto, espero!) para nossos filhos, amigos, contemporâneos e, mesmo, irmãos de outras épocas... Assusta-me a finitude terrena e o pouco tempo que temos para sanar e extravasar nossas lacunas e aspirações! No início de novembro, movida por uma revelação onírica (outra temática que desbravo), escrevi justamente sobre essa efemeridade do instante (http://www.sayonarasalvioli.blogspot.com).
Seu texto, além da excelência, nos brinda também com uma visão racional e elucidativa, especialmente quanto ao enfoque da contemporaneidade tecnologizada. Sim, isso deve realmente trazer o efeito aceleração pelo qual temos sido tão arrebatados! Você também colocou muito bem – de uma forma muito clara – o fato de hoje estarmos mais voltados para circunstâncias e expectativas futuras. Acredito mesmo que possa ser esse um importante viés da questão.
Adorei "O bule". Por isso, passarei sempre para um chá (não necessariamente o chá das cinco, pois o Senhor Tempo nem sempre deixa!)...
Saudações atemporais :)

Joel Pires disse...

Além do texto primoroso de Geraldo Lima, o comentário do Tiago Leal foi sensacional (desculpem o eco)rs!

Geraldo Lima disse...

Bom vê-la aqui, Valéria. Muito obrigado!
Um abração.

Tiago, tudo isso nos leva a uma visão bem pessimista sobre o tempo presente, sobre esse cotidiano intranquilo. Então, os condomínios tornaram-se os substitutos das cidadezinhas interioranas. Mas o espírito não é o mesmo, não recupera aquele clima de pessoas que se conhecem há tempo, os laços de antigas amizades. Obrigado pelo comentário. Um abração.

Origado, Anônimo.

Sayonara, o 'tempo' é um tema que desperta paixão. Santo Agostinho debruçou-se sobre ele, sempre buscando a cumplicidade divina, na tentativa de defini-lo, de entender o seu transcurso. Tudo indefinido! O problema continua aí, aberto às indagações. Visitarei o seu blog sim, e obrigado por acompanhar O BULE. Obrigado pelo comentário. Um abração.


Obrigado, Joel, pelo comentário. Um abração!