6 de nov. de 2010

Meu castelo


Por Mauro Siqueira


Entrou por conta da chuva.

Caiu de repente fazendo com que muitos buscassem refúgios provisórios – uma marquise, um bar, uma banca de jornal –, qualquer lugar serviria. Eu assistia tudo pela vitrine, a loja recém aberta, e ele escolheu entrar aqui, onde trabalho. Quando dei por mim, já o atendia e dizia meu nome:

– Bom dia, sou Alberto…

– Ah? Sim, Alberto… Bom dia…

Estendi a minha mão, ele tirou os óculos no mesmo instante, não sabia se secava o objeto ou apertava a minha mão. Aturdido, não me olhou direito – preferiu os óculos, parecia não ouvir bem enquanto os secava e eu comecei a lhe falar dos móveis a sua volta.

– …além dos sofás-cama, e camas de armar, também temos beliches…

– Beliches?… – ele pareceu sair de si.

– Sim, beliches! Vários modelos e temos prom–

– Lembro como ontem… – me disse com um olhar vazando a distância. Eu, educado e sem opções, parei e ouvir.

Tínhamos um parecido como esse em casa, na nova e pequena casa; não na antiga de onde nos mudamos a contra gosto de todos, vários depois de eu ter nascido e começado a crescer ali. O beliche era do meu irmão mais velho, que na casa nova passou a dividir outro – maior e melhor – com nosso irmão caçula; eu, o irmão do meio queria aquele pra mim, sempre quis: coisa de moleque. Minha mãe dizia “não”, que era perigoso, que eu era pequeno para um beliche, que era certo eu cair de lá de cima, como se dormisse num Everest… Meu tio que herdou a posição; a mim, coube a ignóbil parte de baixo… Meu tio um inconveniente, mas quando bebia sossegava e se jogava na cama e sumia do mundo, a não ser pelo ronco… e como roncava!, Lembrando sua incômoda presença e posse!, Uma ópera! E sempre meio bêbado, não raro eram os tombos. Caía com quê de vontade da alta cama… não sei como nunca quebrava nada, ou mesmo reclamava das dores das quedas – tinha que doer!, aliás permanecia dormindo, o Sr. pode imaginar?, Não acordava! Esse era o meu tio… A minha mãe preocupada com os frequentes desabares, além de acordar a casa, fazia temer pela minha segurança: vai quê… Nunca se sabe, não é mesmo? Com o tempo, resolveu que ele não dormiria mais no alto – era minha desejada chance. Repuseram a pequena escada e balaustrada para que eu subisse com segurança e para que não voasse feito meu tio. Ali em cima, quando subi pela primeira vez e sentei à beirada e olhei todos de cima, eu me senti outro. Era um lugar só meu, um mundinho, minha casa-da-árvore.

Eu amava.

Decorei o local. Colei pôsteres dos meus filmes, bandas; no teto, fotos tiradas do espaço! Supernovas, buracos negros, estrelas e planetas feitos de adesivos fluorescentes. A altura e a distância do meu beliche me tiravam da loucura de uma casa apertada e cheia. Refugiava-me dos encontros de família (e principalmente dos primos menores que queriam subir também – nunca! – que crescessem e viram-se homens como eu), ali também recebi a notícia da morte de meu pai. Local mais que apropriado: o beliche era um pequeno forte, uma torre de granito, um castelo inexpugnável feito para mim. Ali, lia; comia (por vezes escondido da minha mãe), ouvia minhas músicas – foi naquele beliche que conheci The Who e Joy Division –, onde lia horas a fio – ávido com as histórias de Poe, Machado & Cia. Sob o colchão e o estrado, repousava embalagens de chocolates e papeis sem valor que eu juntava sem saber as razões. Do fundo das gavetas de meias, mudei de endereço as mulheres nuas das revistas. Ali, naquele beliche, toquei a primeira punhetinha, interrompida pela entrada repentina da minha avó que fingiu não ver nada, mas que passou a trocar com maior frequência as roupas de cama. Naquele beliche eu transei pela primeira vez. Com a filha da vizinha. Meu tio embaixo roncando outro porre, encobrindo os nossos gemidos virgens, intercalados de instruções ainda incertas dos desejos – bendito ronco, bendita cachaça! – ainda lembro, ela dizia que estava vendo estrelas brilhando no teto – eram os meus adesivos fluorescentes…

Ali naquele meu castelo fui crescendo até ter de encolher as pernas para caber, já sem escadas e “cercadinho” – para a eterna aflição da minha mãe. Numa época dormia meio diagonalmente para dar no colchão e sem jeito e espaço para o braço, fazia-o pender para fora – um quase macaco dependurado com desleixo… Dormi naquele meu castelo até os dezoito anos, à porta da Marinha que me tirou de casa para o mundo e em outros barcos, outros beliches, mas nenhum igual àquele… Bem, a chuva acabou. Não vou tomar o seu tempo, meu jovem, nem atrapalhar as suas vendas. Obrigado por me ouvir esses minutinhos.

E ele saiu como veio: com a chuva. Não me lembro se me despedi; em casa, fazia o jantar quando minha esposa chegou e gritou “Boa noite” e seguiu para dentro, enquanto eu na cozinha cortava umas batatas, ouvi o espanto:

– ALBERTO?!?!?!… O que esse beliche esta fazendo no lugar da nossa cama, Alberto?!?!

– A parte de cima vai ser minha… – falei baixinho com cuidado para não errar o tamanho das batatas.

Publicado originalmente em: http://bit.ly/cTlqxM

Um comentário:

Parreira disse...

Ás vezes é mesmo urgente colorir o quarto com um castelinho...