10 de nov. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: interlúdio

Por Mauro Siqueira


Caros leitores, vocês devem ter sentido falta das (des)aventuras de Alice & Alex por esses tempos. Quero dizer - e relembrar - que a fonte de suas histórias são notas de jornal, depoimentos de testemunhas, vítimas e, principalmente as notas do Caderno Azul do narrador. Todo esse conjunto de documento requer deste que vos escreve um árduo trabalho de reconstituição e recriação filológica que demanda tempo e cuidado. Assim, informo que a continuação do último capítulo apresentado aqui n'O BULE foi recuperada na sua quase totalidade. Por ora, então, ofereço àqueles que acompanham o folhetim o que já foi publicado das andanças de Alice & Alex e para você, leitor, que é novo no blog, a chance de não pegar a história pela metade... se bem que ela não tem propriamente um início... Bem, divirtam-se de novo ou pela primeira vez!
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Um folhetim pulp: À guisa de explicação (eu acho)
Antes mesmo de começar já me explico: consciente ou não, não sei ao certo os porquês de contar essa... história, mas quero crer que tenha sido por saudade da minha avó – gosto de pensar assim. Ela ficava costurando e ouvindo as estações AM das rádios. Eu chegava do colégio perto da hora do almoço, passava pela cozinha, deixava a mochila pelo caminho, tirava os kichutes sem desamarrar os cadarços e ia ao quartinho de costura dar um beijo nela; ela, na velha máquina Singer, com o pé direito no pesado pedal, os óculos bifocais, ouvindo aqueles programas policiais cheios de sonoplastia e desespero – vez ou outra soltava um “Cruz em credo!”, assim mesmo: cruz em credo, ou um “Minha Ave-Maria!”, sem levantar a cabeça da máquina de costura, o mesmo tom de voz, sem perder a concentração e o compasso, o ritmo impresso por ela. Eu ria. [Leia Mais]

Gata em teto de zinco quente - ep.01
A altura lhes dizia: não estamos baixos. Até impressiona a força do vento ali em cima, mas não que bastasse para aplacar o calor do alto daquele prédio; lá embaixo formigas de diversas espécies em trajes e andrajos, movimentando-se dentro de alguma lógica que Alice entenderia a algum tempo, agora apenas desprezava e por detrás dos óculos exultava um ar de vitória – aquela que somente uns poucos descobrem e que se confunde com liberdade: a verdade exulta. Do alto ela ria dos insetos lá debaixo; quem quer que olhasse para as outras direções veria o calor saliente dos edifícios como ondas revoltas, o mar de prédios estendendo-se até se deformarem e se esconderem no horizonte, as variadas alturas, “conceitos”, funções, formando um relevo feito concreto-metal-vidroreluzente-suor&sangue, erguido por muitos sem-nome-cara&rosto... particularmente, prédios orgânicos quase personagens vivas de um cenário... um teto de nuvens esparsas, e contrastando como o imenso horizonte (...) [Leia Mais]

A Invasão Chinesa - ep.02 [parte um]
– Rá: “Miau”, você é louca, Alice... louca! Rarará, mas foi demais, tenho que admitir: “Miau”. “Miau”!!! Meu maxilar está doendo de tanto rir.
– Podemos andar mais depressa? Estou ficando com fome...
Alice e Alex desciam as escadas do prédio, não as internas, mas aquelas outras, as de fora, contra incêndios, o corrimão quente e áspero da exposição ao sol. Há pouco menos de uma hora os dois chegaram àquele ali, naquele lugar; há pouco mais de cinquenta e cinco minutos subiram onze andares e chegariam suados e arfantes ao terraço; por pouco mais de vinte e sete se bronzearam totalmente nus e, por fim, há menos de oito agrediram e incapacitaram um homem, o zelador dali... [Leia Mais]

A Invasão Chinesa - ep.03 [parte final]
Quando Alice e Alex despertaram, certa noite, da indução alucinógena a que foram conduzidos viram-se transformados... em porra nenhuma. Aqui não há artrópodes humanizados ou relações pai-e-filho metaforizadas, nada disso!
O estado em que se encontravam, durante o estranho sono não lhes reservou nada: não sonharam, não choraram, não sentiram dor alguma. De certo, mal sabia como estavam ali; e o ali era o porta-malas de um velho Opala SS 75. Alice foi a primeira a acordar, piscou os olhos e tudo ainda continuou escuro, sua cabeça doía e os latejos pareciam ribombar nos tímpanos, a percepção do ambiente demorando a agir o desespero não tardou. E com ele os erros: chamou um “Oi” por alguém, bateu com a cabeça no tampo do porta-malas tentando levantar, esperneou. Percebeu o exíguo espaço e a completa escuridão palpável ao seu redor, sentiu tudo menor e, levando uma das mãos ao peito, um calor e um sufocamento que até então não estavam ali, agora estavam... e o pavor. [Leia Mais]

Uma das estradas de tijolos amarelos - ep.04
Todo o lugar era chamado de Mirante, Alice e Alex deixaram para trás um chinês agonizante azarado e o seu Opala destruído e seguiram o coelho branco, agora, estavam numa espécie de platô, construído à beira da estrada, um pouco após o acostamento e aonde pararam para observar o que sobrara do animal.
Com a ponta de um graveto, Alex remexia as entranhas do coelho, eviscerando o bicho órgão a órgão. Alice olhava a distância, mas não via o rapaz subitamente curioso pela anatomia dos leporídeos, que agachado junto aos restos do bicho, agora levantava com cuidado a boca do coelho, os enormes dentes saltavam a vista, Alex olhava fixamente a fenda entre os dentes e a gengiva, instintivamente o rapaz levou à mão aos seus próprios lábios... [Leia Mais]

8 e ¹/² - ep.05 [parte 01]
Naquela noite eu não dormi bem.
Causa? Não foi por medo ou insegurança. Eu era pura excitação, eu era pura energia. O que ouvi sobre o zelador do tal prédio fez com que eu voasse em cenas, imagens, visões de como tudo se dera. Pode um coração parar e você não morrer? Quando sai do meu estado de perplexidade, quase apoplexia, senti a necessidade de correr. Peguei a minha bicicleta e pedalei pelo bairro até sentir o meu coração bater e vibrar por clemência nas batatas da minha perna. Só voltei à noitinha... Minha mãe no portão com uma cara... saiu barato o sumiço, “Nada de ‘Esquadrão Classe A’ pra você hoje”, por sorte fiquei só de castigo – ela também entendia. Mas não me importei muito, afinal era um episódio reprisado mesmo. Fui para o quarto e abri o caderno azul – eu lembro vividamente daquela noite em especial – respirei fundo. “O que é isso? Dever de casa?”, perguntou a minha irmã por perguntar ao entrar no quarto e pegar o seu walkman. “É.” – e escrevi. [Leia Mais]

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