15 de nov. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: 8 e ¹/² - ep.06 [parte alternativa]

Por Mauro Siqueira




Como dito anteriormente, a história de Alice&Alex é uma reconstituição e dentro disto há incongruências. Dentre as várias que já ocorreram (e que certamente ocorrerão), foram encontradas mais ou menos dez páginas avulsas que entram em choque direto com a história contada no Caderno Azul do narrador. Desconhece-se sua autoria, a caligrafia ali é outra, mas oferece pontos de vista (bem como sintaxe e estilo) distintos do narrador. Não podemos meramente descartar essa "terceira via" já que de fato a comparação com outras fontes, como jornais e revistas da época, corroboram com alguns aspectos apontados por essas dez páginas apócrifas; pontos como deste trecho da Balada Imprudente que se segue, distinta da versão do narrador e seu caderno azul. O leitor que escolha a sua preferida. Temos compromisso com o relato, não com a exatidão.

~~~
A menina ainda andava à frente. A ideia de roubarem um carro só seria válida em algum posto de gasolina ou numa dessas lanchonetes de beira de estrada. Os poucos veículos que passaram na estrada não atenderam os polegares eretos pedintes de carona de Alice, a cada negação, o polegar dava lugar ao dedo médio em riste: era quase automático. Mesmo o corpo bonito de Alice não prestou para isso, talvez os piercings tenham assustado, mas quem se assusta com piercings hoje? Ao menos aumentaram a suspeita: estavam longe de casa, entre eles e o seu lugar, duas cidades: uma com nome Santo, outra alguma-coisapólis.

Então viram um carro passar por eles e indicar a seta. Ainda ficaram duvidando enquanto o pisca alerta brilhava nas pupilas dos dois: “Agora é a hora da retribuição.” Alex não entendeu o que Alice quis dizer com aquilo, mas assim como ela correu, sem saber como, talvez com as pernas dos náufragos salvos na última hora do salvamento, ele até deu pulos de alegria: chegariam a algum lugar, qualquer que fosse não teriam de ir andando.

Joana se apresentou primeiro, depois foi Nirvana – sim, esse era o nome da menina –, ela tinha um sorriso estranho e não tirou os olhos de cima de Alex enquanto falava – e falava muito – mesmo sendo ela quem dirigia. Ambas voltavam para casa, na capital, depois de uns meses de “um retiro artístico”. Alice antipatizou com a menina automaticamente. A estrada parecia uma infinita descida, Alice e Alex fizeram bem em insistir por uma carona, não havia nada – nada – no caminho, só estrada e uma paisagem de um verde nauseante pelo excesso. No momento chovia e a falante motorista calou-se um pouco; Alex e Joana cochilavam... Alice observava os olhos verdes da motorista do velho Chevette pelo retrovisor e vez ou outra seus olhares se encontravam.

– Algum problema? – perguntou Nirvana.
– Problema? Hmmm espero que não, você tem algum?

Tensão de causar acidentes.
As duas ficaram em silêncio e feito uma gata acuada, Alice continuou a observar Nirvana, reparando nos seus gestos atrás do volante, a maneira atenta e ao mesmo tempo relaxada de dirigir, as atitudes seguras, a quase descontração aliada a uma concentração. “Um feitiço”, assim quem leu os gestos dela, sabia do que se tratava, ela e Alex dividiam sensação parecida, uma experiência profunda e perigosa que não se podia comparar com dirigir sem ser leviana.

– Você gosta muito de dirigir. – Não era uma pergunta, mas mesmo assim Nirvana achou direito responder.
– Sim, gosto, aprendi com meu tio. Ele era taxista e sempre me levava aos domingos para a praça, e eu tinha uns doze anos, ele me colocava no colo dele e fingia que eu que dirigia, até soltar as mãos uma vez, meio como se faz com as bicicletas e daí...

Alice não ouvia, de fato ela não fez uma pergunta e não estava nem aí! O que lhe interessava era algo em Nirvana que não sabia nomear.

– ...é seu irmão? Namorado?
– Ahã?
– Alex. Ele é seu irmão... é namorado...
– E ela? É sua namorada – visivelmente contrariada com as perguntas da menina.
– Não. Ex. Hoje somos só amigas.

Alice não esperava tanta segurança na resposta. Então era isso que percebia de diferente em Nirvana? Talvez. Permaneceram em silêncio. Lá fora o dia caía e teriam de parar para descansar. Alice sugeriu que revezassem. Ouviu um não veemente. De fato era uma tensão de causar acidentes.
Alex foi o primeiro a acordar, depois Joana, o carro parado à beira de estrada – um arrepio percorreu a coluna de Alex, pensou na menina que povoou o seu sono nos últimos quilômetros e pensou no olhar de Alice para ela, abriu a porta o mais rápido: Alice!!!
Alice e Nirvana conversavam com um senhor de idade, as duas pararam e olharam para Alex surpresas:

– O que foi?
– Hmmm... nada só queria dizer que acordei...
– Já podemos seguir – interrompeu Nirvana, dando um tapinha no ombro do rapaz.

O velho senhor à beira da estrada indicou uma pousada para o, agora, quarteto passar a noite, só que eles teriam de voltar uns quilômetros – ninguém viu inconveniente nisso. Somente Alex que cochichou no ouvido de Alice: Como vamos pagar essa merda? Alice não se deu trabalho de responder.
A pousada era velha, um fato explicito pelo ruído do tempo sobre a arquitetura do lugar, uma tabuleta desbotada, o caminho para sede tomado pela hera alta, um silêncio que não se traduzia em tranquilidade, mas sim desolação; a construção – uma velha Casa Grande – feita toda ela em madeira e granito, que um dia foi bonita. Um velho senhor de idade já esperava à porta – seria o mesmo senhor da estrada? Parecia que o senhor lera a mente dos 4 viajantes e respondeu:

– Não, eu não sou o senhor da estrada, sou apenas o irmão gêmeo dele. Vamô chegando gente, que é tempo que não recebo ninguém.
– Quanto é o pernoite, moço? – perguntou Alex, ainda preocupado.
– Farei um preço especial para vocês, não se preocupem! Faz tanto tempo que não recebemos ninguém e não faz sentido eu cobrar o valor de tabela!

De repente Alex e Alice se deram conta de que a última coisa que comeram foi a sopa batizada da velha chinesa e ambos tiverem certeza que seus estômagos roncaram em uníssono naquele instante de lembrança – se alguém ouviu ou não, não se importaram.

Joana e Alice foram as primeiras a se levantarem, estavam satisfeitas; Alex e Nirvana ficaram. Ela com uma xícara de café e ele ainda envolto de guarnições, sopas e a suculenta carne assada recheada. Apesar da fome Alice comeu pouco, seus olhos passeavam de Alex para Nirvana, de Nirvana para Alex, num balé enjoativo... Joana nem ai, essa uma completa nulidade, nem parecia estar ali, parecia sempre chapada e quando Alice chegou à varanda, a menina tinha dificuldades em fazer o isqueiro acender o bagulhinho... Alice sempre estava certa – era da sua natureza. Decidiu ir para o quarto.

***
Nirvana passou em direção ao quarto, a ex-companheira que dançava descalça na chuva, não estava mais por ali, estava cansada demais para ir buscá-la sei lá onde; com as chaves na mão passou pelo quarto de Alice e Alex, pensou parar. Bater de leve. Perguntar se Alex queria dar uma volta ou conversar, gostou do rapaz assim que bateu os olhos neles, era tímido de uma maneira doce... um nerdizinho de nada... já a menina, ela não: de certa forma lhe causava arrepios, os olhos quase de gatos sobre ela, era fria, mas também não podia deixar de reparar a sua beleza, aliás, por aquela porção generosa de pernas e colo – além as tatuagens e piercings – que parara à beira da estrada para dar carona a dois estranhos. Não, Nirvana não bateu naquela porta, caminhou para seu quarto, pela manhã ainda teria um carro para levar.
Assim que abriu o quarto percebeu uma sombra em meio à escuridão. Estacou. Sua mão correu a parede em busca do interruptor... e então sentiu mãos no seu pescoço e no braço, o abraço apertado em seguida, seu coração na boca... para depois os lábios, tocados por outros lábios, um tremor percorrendo toda a sua coluna, fraquejaram as pernas, o corpo pendeu, sentindo-se já entregue: quem era aquele estranho e como conhecia suas fraquezas daquele jeito? Giravam pelo quarto agarrados, ela sendo sorvida por uma língua quase felina, viu-se jogada com força na cama, a excitação só aumentando e de repente... um nada. Um silêncio de todos os sons, os olhos de Nirvana buscando um referencial naquela escuridão, disse um “Hey!” À-toa. Nada. Preparava-se para se levantar – um delírio tudo aquilo? Sentiu então o peso de outro corpo, os beijos recomeçaram tão famélicos como antes, a blusa arrancada, o peito arfante, subindo e descendo, os beijos nos bicos duros, causando arrepios e arpejos, as mãos percorrendo o corpo, reciprocidade incipiente, o quadril buscando o encaixe, o jeito e a forma, as mãos de Nirvana buscando uma forma de soerguer-se – afinal quem a tomava daquela forma? Saber não foi uma opção, respirava fundo e pela boca, quase não saiu:

– Alex, é você?
– Não.

Reconheceu a voz um pouco rouca de Alice. Enquanto o fecho éclair de sua calça descia, Nirvana já não lembrava por onde começaram.

Alex acabou seu banho e ligou a tevê um filme italiano. Estava sem sono, a preocupação era pela manhã, quando fosse acertar a conta, não tinha nenhum dinheiro ali. E onde estaria Alice? Ela saíra cedo do jantar, parecendo irritada com alguma coisa, e ainda não voltara. Resolveu andar, não conseguiria dormir daquele jeito. Na varanda, a chuva amainara, no matagal em frente pareceu ter visto um vulto, um pedaço de pano. Sentiu a grama úmida, quando pisou na pequena trilha, não precisou chegar mais perto, reconheceu a fazenda do vestido de Joana. Seu corpo deitado sem respirar, os olhos ainda abertos, uma expressão clama, quase alegre, não viu sangue, mas no pescoço um cadarço preto e branco. Alex sabia de onde ele vinha. Deu as costas e correu...
A porta estava entreaberta, nenhuma luz, o silêncio, entrou sorrateiro, como um cachorro que comete um erro, sua visão leva pouco tempo para se acostumar, distingue primeiro Nirvana, dormindo, submissa abraçada ao quadril de Alice, que de olhos abertos encara Alex. Não trocam uma palavra.

***

A concentração dos dois era tamanha que nem mesmo o sangue nas roupas recém tomadas incomodavam, mal perceberam que de repente o terreno nivelara e que já não era possível observar a grande cidade em sua magnitude e totalidade. O Chevette andava bem, era confortável, Alex mexia no porta-luvas, encontrou algum dinheiro, balas e muitos cartões postais e fotos, uma em especial chamou a sua atenção: Joana e Nirvana com óculos Wayfarer, como os de Alice & Alex tiveram uma certa vez. Rasgou Joana da foto, fez uma bola e engoliu, Nirvana... guardou no bolso sem que Alice visse.
O dia, no auge do seu calor, Alice voava pela estrada, uma placa passou em branco, outra e outra. Conseguiu ler o nome da cidadezinha para que onde se dirigiam, talvez tenha sido a desolação do nome da cidadezinha que a fez dirigir para lá. Rodaram bem devagar pela rua principal: o coreto, a igreja, o pipoqueiro. Para sua surpresa, um cinema drive-in, no letreiro, letras garrafais anunciavam: “Festival Fellini” – Hoje: “Amarcord”, “8½” e “La nave va”.

Alex, lendo na expressão da garota, adiantou-se:

– A sua pipoca é salgada ou doce?
– Doce.


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» No próximo episódio, Alice e Alex estão "A um passo da eternidade" em 8 e ¹/² - ep.07 [parte final]
» Anteriormente em A Balada Imprudente de Alice e Alex:
interlúdio

Um comentário:

Anônimo disse...

Se for para brincar de tuiter e resumir tudo em uma hashtag eu usaria: #Dexter

Hahahhaa! Claro, sem nenhum tipo de código de conduta. Mais uma vez Alice se sobrepõe, animalizante e animal, com seus olhos gatunos sobre todos, Mauro. Mas por que eu continuo tendo a impressão que Alex é o mais perigoso?

Sabe? Cão que ladra, não morde e se morde, não morde com tanta perícia na dentada. Gato que arranha, é falta de pancada. Os malignos, os pérfidos, a obscuridão em geral... tudo isso é silêncio e descaso.

Abraços cara.
Esperando o próximo. :D