18 de nov. de 2010

3 micronarrativas de Marcia Barbieri

Sangria nos meus olhos mortos
-
“O homem é um deus em ruínas”
Ralph Waldo Emerson

-
Começo o árduo trabalho de ensacar os figos. Olho a árvore e vejo a mão desproporcional de Deus brotando e descansando sobre a terra arada.
-
É outono e as folhas se desmancham sobre o chão caiado. A mulher de vértebras em andrajos murmura entre as frestas pretas de seus dentes fatigados: Perante o amor todo ser se desnuda.
-
Marimbondos rondam o quintal e suas asas negras assustam os olhos planetários da minha infância esquecida. Os pés descalços esmagam a terra num misto incoerente de inocência e maldade. Minúsculas formigas deslizam sobre o tronco cinza, se encontram, se beijam e se abandonam. A simplicidade me apavora.
-
- Você sabia que as larvas entram no figo, comem-no por dentro e morrem sem poder escapar da própria armadilha? Bonito isso, né?
-
- Existem tantos homens que são como essas larvas... Invadem nossas entranhas, alimentam-se de nossas vísceras e morrem dentro de nós, devorados pela mesma fúria que os impeliu a entrar.
-
Aperto a polpa tenra
-
No início o gosto não me agradava, mas acabei por apreciar o ritual de abrir a fruta e degustar seus desenhos. Me passava pela cabeça todas as teorias matemáticas tentando provar a inexistência do obtuso. O retorno provável-trágico da vida.
-
Mordo a flor
-
Um velho alto e magro, cuja pele insistia em acariciar o mistério, rezava todas as tardes pelos fetos não vingados. Eu dizia amém, esquecida das mortes fecundas do meu útero. Um sol vermelho sai e faz um escarcéu sob minha vagina de puta cansada. Minha carne despenca dia após dia dos ossos e almeja se esconder na solidão omissa de ancestrais porões brancos. Nostalgia da época em que fui criatura insignificante e era possível estrangular o tempo. Despejar toda areia sobre o ar. Enquanto homens e janelas verdes contemplavam passivos todo suicídio.
-
Vivo só. Durante as chuvas anoiteço as vistas e sonho com o espetáculo raro das touradas. O corpo da mulher nasceu deformado para o afeto e para a fratura exposta. É apenas uma caixa vazia de paixões frustradas. A autopiedade fez ninho nos meus olhos mortos. Ocos. O amor se extingue entre as podas drásticas e o descaso das madrugadas. Meu coração é um punho fechado. Abril? Não é tempo de figos.
-
Marcia Barbieri é paulista. Tem textos publicados nas revistas literárias Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas, O BULE, Meio Tom. É colunista das revistas literárias Caos e Letras e Sinestesia Cultural. Edita o blog: http://www.avidanaovaleumconto.blogspot.com/. E-mail: marcia_barbieri@hotmail.com

3 comentários:

Guilherme disse...

Do caralho!

Marcia Barbieri disse...

Agradeço imensamente a turma do "O Bule" pela publicação. É uma honra estar entre escritores que admiro.

beijões

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Marcia, é um prazer ter você aqui n'O BULE conosco.

Bjos, R.