25 de out. de 2010

Um olhar nada acidental de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente"


 "O único final feliz para uma história de amor é um acidente"
 autor: João Paulo Cuenca
 Romance, Ed. Cia das Letras, 2010
  

Por Mauro Siqueira
  
Não fiz o álbum da copa, as minhas modas são outras. Adquiro o mais rápido que posso os
livros da coleção “Amores Expressos” – apesar de me faltar a figurinha nº2 – e os dois últimos lançados foram comprados juntos.
Então, não é nada acidental esse pequeno texto que aqui vai. A leitura de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente", o mais recente livro de João Paulo Cuenca. Não sabia por onde começar a escrever esse... olhar sobre o livro – um título espetacular, diga-se de passagem. Gostei do livro, ponto. E não foi pouco.
Numa tentativa de sinopse de um livro plural, tento uma abordagem também plural pelos elementos que consegui destacar e de como foram trabalhados por João Paulo Cuenca e que repito, gostei.
Gostei do livro porque ele se afasta um pouco desse neorrealismo (tanto aquele que se sustenta numa estética da violência quanto aquele opta por estética da delicadeza) tão presente na nossa literatura hoje – não que eu desgoste dessa vertente, pelo contrário. Mas o livro de João Paulo Cuenca permite um vislumbre do processo de ficcionalização do cenário proporcionada através dos olhares de seus narradores – aliás, são narradores múltiplos no livro – como se verá. As possibilidades de narrar despregado do chão, aproximando-se da imaginação mais original, do delírio e do sonho – algo que não é inédito em sua obra –, só enriquece a experiência da mesma pelo leitor. Esse caráter onírico faz com que leiamos “O único final feliz...” conjecturando o que de imaginário poderá se apresentar nas páginas seguintes, pondo em dúvida não a narração, mas as palavras do narrador. Até que ponto as palavras do narrador principal do romance (outros chamaram novela) refletem o real de um Japão quase sem exotismo, já comum e conhecido, diferente daquele que o senso comum implantou em nós e que cada dia é atualizado com os elementos (trans) culturais das últimas décadas como, computadores, celulares, mangás, animes e por aí, numa lista enorme, que tipicamente do que é cognoscível como ocidental e assimilado como “oriental” retorna-nos com re-re-lido? Gostei de “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” porque ele é um livro que fala do olhar. Do olhar capaz de perceber os mínimos detalhes de Yoshiko, detalhes estes que fazem dela a boneca mais cara do Japão; os olhares dos fregueses do Abracadabar direcionados ao corpo de dimensões euclidianas da dançarina Kazumi; tão díspares àqueles dedicados à Iulana, a estrangeira romena, garçonete e amiga de quarto de Kazumi e que nos olhares escondidos nutre uma paixão velada pela dançarina; ou os olhares de Shunsuke (que trabalha numa empresa que fabrica filmes fotográficos numa era de máquinas digitais), que vê na gaijin, a estrangeira, tudo que não encontra nas japonesas, porém, não faz questão de esconder esse interesse a ninguém – para surpresa dos olhares dos seus conterrâneos mais tradicionais. Como o seu pai, o Sr. “Lagosta” Okuda, famoso poeta japonês, dono da boneca Yoshiko, e que mantém em segredo uma espécie de agência de espionagem, chamada apenas de “periscópio”, responsável por observar a todos quem o senhor Okuda exige. O periscópio é comandado pelo Sr. Suguro Shibata, que além de vigiar e reportar tudo da vida do filho ao Sr. Okuda, também é professor na "Associação do Fugu Harmonioso de Tsukijim", onde ensina a arte do corte do baiacu (ou fugu) sem que este preserve o seu veneno letal, ou seja, uma arte de saber reconhecer na carne esbranquiçada do peixe as partes venenosas das não venenosas.

E gostei ainda mais do tratamento dado ao “olhar” por um personagem insólito que surge quase ao final da narração: Gyodai. Isso mesmo, aquela criatura mono-ocular, gosmenta, cor de chiclete, do seriado estilo tokusatsu “Esquadrão Relâmpago Changemen”, do final dos anos 80, que ao final de cada episódio era o responsável por reviver o vilão, transformando-o numa criatura gigantesca, através do raio emitido por seu único olho. E, além disso, apesar de parecer ser só mais uma referência pop jogada no livro ou revelar um exagero ao recurso, o surgimento de Gyodai é importante, pois a partir da aparição da criatura que nos damos conta que a tensão da dualidade real x imaginário dos narradores é fundida e nunca existiu. Como? Leia o livro. Não quero adiantar mais detalhes da obra – mais do que já fiz e que ainda retomo em outra postagem.
Ademais, os personagens ainda se voltam às questões do olhar, seja sob o viés fetichista das partes anatômicas, lugares, gestos, relações e afins Seja numa descrição realista, porém não enumerativa do gesto e do foco sobre o mundo que rodeia as personagens, mas poética capaz de transformar até mesmo um acidente horrível num belo quadro em câmera lenta, somente capaz pela acuidade de olhar focalizado e bem real sobre o meio circundante.
Por ora, esse é o meu primeiro olhar sobre “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”.

O autor: 

João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior, e é autor dos romances Corpo presente (Planeta, 2003) e O dia Mastroianni (Agir, 2007). João Paulo Cuenca tem um site oficial: www.jpcuenca.com 


* Livros podem ser enviados a’O BULE para serem resenhados, cabendo aos editores d’O BULE a seleção. Tratar pelo email coisaprobule@yahoo.com.br 

**Publicado originalmente em De VERMES & outros ANIMAIS rastejantes em 27/09/2010. 

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