20 de out. de 2010

Nacos de Necas & Outras Histórias - 09


1
Jovem ainda, 17 anos, e sai com um jacaré. Suas amigas mais velhas,
um pouco mais ajuizadas e experientes, aconselham:
- Larga disso. O camelo é mais charmoso.
O camelo, porém, não bebe. Ela prefere ficar com o gorila. E
depois dele o elefante, porque fuma. Não resiste, porém, ao abraço do
tamanduá e por isso mesmo se entrega aos beijos do leão.
Chega em casa abraçada ao cachorro. Seu pai, indignado com o
comportamento da filha, reclama:
- Isso são horas de chegar, mocinha?

2
Nós nos conhecemos no dia da sua morte. Foi curioso: eu passava na
rua; na mesma rua ele havia acabado de morrer. Eu disse oi, ele falou
oi. Para encurtar a conversa, eu cheguei a ser grosseiro:
“Não adianta você ficar aí falando comigo porque eu não acredito em
mortos falantes!”. Ele gargalhou. E disse: “Pois agora que estou aqui
deste lado, começo a duvidar – a vida existe mesmo ou não passa de
puro sonho?”.
Faz três anos que conversamos. Eu continuo não acreditando. Ele
duvida mais e mais a cada dia. Concordamos apenas num ponto: todas
as respostas são insuficientes.

3
Passei anos falando bom dia todas as manhãs. Alguns respondiam,
outros não, a grande maioria sequer me notava.
Faz algum tempo, por distração, falei boa tarde ao invés de bom dia. O
presidente da empresa ameaçou me demitir, os gerentes agora se
calam quando eu me aproximo e os boys me olham com uma expressão
que mescla admiração e repulsa. Eu compreendo: de uma hora para
outra alterei o delicado equilíbrio das coisas. Não sei como suportaram isso; é mesmo muita sorte ainda estar por aqui.

4
No mês passado fui vítima de dois assaltos – mas tudo correu bem: eu
saí vivo e os ladrões, satisfeitos. Percebi isso.
Na semana passada, um assalto apenas. Mas foi genial: fui seqüestrado
e passeamos muito pela cidade, eu e o ladrão. Descobri, aliás, ser ele
um apreciador da filosofia de Kant. Um homem raro – e foi com raro
prazer que lhe entreguei todo o meu dinheiro.
- É o suficiente para as suas investigações filosóficas? – perguntei.
- Tá de bom tamanho, doutor – respondeu ele, que se foi levando o
meu carro.
Ontem, no entanto, as coisas não correram nada bem: fui pego de
surpresa, com pouquíssimo dinheiro, e o ladrão, percebi, ficou
decepcionado.
- Faltas desse tipo são intoleráveis – ele protestou.
A mim só restou baixar os olhos e concordar, resignado.

5
A caixa é pequena: menos de um metro quadrado. Mas tem me
sustentado há mais de 20 anos.
Eu faço assim: chego na cidade, alugo um teatro modesto e espalho
cartazes com uma fotografia colorida da caixa pelos postes. Em
vermelho, uma frase bem simples: “O que será que tem dentro da
caixa?”.
É o suficiente para lotar o teatro. A cada uma das 100, 200 pessoas eu
falo: “Não é fantástico? Nunca vi coisa tão genial dentro de uma
caixinha!”.
Com medo de serem consideradas insensíveis a tão refinada
manifestação artística, as pessoas todas concordam. Algumas até
acrescentam: “É mesmo! O conteúdo da caixa é impressionante!”.
Impressionante são as pessoas, eu diria. Mas isso não vem ao caso
agora.

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