17 de out. de 2010

Leitura de guerra, obrigatória

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A crônica abaixo foi escrita em 2007 e publicada, na época, no site Armazém Literário. Nela, escrevo sobre o livro Elite da tropa. Aproveitamos o recente lançamento do filme Tropa de elite 2 para republicá-la aqui n’O BULE.
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Elite da tropa
Editora Objetiva, 2006
Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel
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Por Rodrigo Novaes de Almeida
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Copacabana, Rio de Janeiro. Três horas da madrugada de uma quinta-feira. A guerra persiste há quatro noites. As balas das submetralhadoras rasgam o céu. Granadas explodem nos becos e entradas da comunidade. Ninguém entra, ninguém sai do morro. A favela encontra-se sitiada. Cá embaixo, a polícia. Lá em cima, território do tráfico, duas facções travam batalhas por cada bocada. Daqui do asfalto, bostejos de indiferença, alguma coisa mudou. Ninguém dorme às três horas da madrugada de uma quinta-feira. Penso em García Lorca e seu Às cinco horas da tarde. Penso que finalmente eram três horas da madrugada cá embaixo e lá em cima, em todos os relógios de uma quinta-feira. Amanhece e estamos todos acordados. Os tiros parecem cessar e os primeiros trabalhadores saem de suas casas. As primeiras conversas. As últimas versões. De tudo o que ouvi, de bocas aposentadas, bocas domésticas, bocas porteiras, bocas desocupadas, bocas-rotas, tantas-bocas, uma versão me intrigou; foi a que dizia não ter havido invasão alguma de outra facção criminosa. Os próprios donos-do-território teriam criado uma falsa batalha para desviar a atenção da polícia e da secretaria de segurança que vinham arrancando uma brutal sangria em outra favela da cidade comandada pela mesma facção. Era tudo farsa. Sofisticada farsa com balas de tirar-avida. Este episódio serve-me como preâmbulo para falar de um livro obrigatório no aquiagora da gente. Elite da tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (Editora Objetiva, 2006). Dividido em duas partes, na primeira há contos curtos que relatam histórias do BOPE, Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. A segunda parte é uma novela de tirar o fôlego do leitor. A escolha de contar estas histórias como se fossem ficção foi uma grande sacada dos autores. É evidente que eles pensaram na possibilidade de sofrerem retaliações, e queriam se proteger, mas o efeito de usar a ficção para expor a realidade mais dura dos nossos dias é potencializado e atinge com mais eficiência o leitor do que uma simples denúncia de caráter investigativo e informativo, como vemos, já cansados de ver, como se fossem notícias extra-cotidianas, em todos os jornais cotidianos do nosso país. Neste ponto os autores surpreendem e deixam para trás aqueles que teriam, pelo ofício, a tarefa de trazer para a sociedade uma obra desse vulto: os jornalistas e repórteres investigativos. A forma da escrita tem caráter atualíssimo. As histórias são curtas, instantâneos da realidade, retratos contemporâneos de recortes sociais urbanos. O arrebatamento com a leitura vertiginosa dos textos invoca o leitor, que não largará o livro até chegar à última página. Terminada a leitura, o sentimento é de ter levado um tapa na cara. Um tapa na cara indispensável. É crítico observar e entender o relacionamento da polícia e do governo (políticos) com o crime organizado. O funcionamento de cada uma das três máquinas corporativas que transformaram os cidadãos em seus reféns e vítimas. Ainda não sabemos em quantas andam as batalhas dos últimos dias nessa nossa Copacabana a/celerada. Cessaram os tiros e as explosões e voltamos a ter, ainda que provisoriamente, noites de sono, embora todos os relógios devam marcar desde então a mesma hora, cá embaixo e lá em cima. Fica, todavia, a sugestão da leitura. Elite da tropa, um livro obrigatório.

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