8 de out. de 2010

Despejo

Por Mariel Reis
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“não tem nada não seu doutor/ vou sair daqui /pra não ouvir o ronco do trator”
(Adoniran Barbosa)
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tomei a mão da menina. a poeira subia. a demolição não tardaria acabar. local irregular para construção. a menina abandonada pela minha filha mais velha. agora sou a única mãe que ela conhece. sem casa, sou obrigada a viver na rua. mesmo velha. juntei na trouxa as roupas, duas ou três panelas. e meter a perna no mundo. dos cinquenta, já passei. o engenheiro distribui um formulário. sorteio das novas casas. vai demorar, avisa. como preencher, sou analfabeta. minha vizinha que teve a casa derrubada, me faz o favor. a marquise do banco inteligente da propaganda vai virar abrigo nosso. o caminhão leva embora os destroços dos barracos. a draga bota no chão outro. é até bonito, mas dói saber que ali morava alguém que a gente gostava de prosear. não tem jeito. casa agora é a rua. minha menina brinca com o lixo. perna de boneca, colchão, vaso sanitário. os cachorros reviram tudo atrás de comida. tem gente que não conseguiu tirar nada de dentro de casa. quando as máquinas chegaram, não deu tempo. eu não tinha nada, além de fogareiro e uns cacarecos. pois bem, não dou falta. agora quem perdeu televisor, fogão, geladeira. muita gente perdeu a cabeça, agrediu os homens da prefeitura. teve polícia. levou um bando de gente. minha menina traz um cordãozinho com pingente. pergunta se pode ficar. respondo pode. não tem dono mesmo. minha vizinha que acaba de entregar o formulário para o engenheiro, troça tá guardando uma lembrancinha? vão pra onde agora. meu marido soube de outra invasão. mato também, é? a gente toca fogo pra espantar as cobras, limpa e levanta uma meia-água. na rua é temporário. uma fila de pessoas sai do parque felicidade com gosto ruim na boca. minha menina arruma um companheiro. o cachorro é pequeno, malhado. ela aperta o animalzinho. meu irmãozinho, vó. posso ficar com ele? fica. a comida vai ser pouca. eu divido a minha com ele, vó. tudo bem. ele não vai morrer de fome. eu sei. aperto a mão da menina e me encaminho para a pista. vó. o que é. ele também nunca ficará sem casa. ah, é. por quê? vou ser sempre a casinha dele. aquilo me deu um troço no peito, uma vontade de chorar. não sei bem direito por quê.
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Mariel Reis, escritor carioca, nasceu em 1976. Publicou John Fante trabalha no Esquimó, Ed. Calibán.

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