18 de ago. de 2010

Um vôo com destino pressurizado

Por Ricardo Novais
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Era um vôo Rio - São Paulo. Da janela via-se a Baía de Guanabara, lambida pelo sol bege, de águas calmas, com bocal desdentado e ainda assim de belo sorriso. A distração é tanto portentosa e tanto singela. Fugaz e ordinária, incrível e desprezível, viagem entre metrópoles... Quantos a fazem? Quantos diminuem esta distância tão representativa? Quantas histórias florescem sob seus telhados, sob o asfalto limpo e as calçadas imundas, as esquinas tangentes e também de tanta descrença absoluta...
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Tudo que era pouco, de repente, virou em outros ventos. Na poltrona ao lado senta-se a mais enigmática moça minha apreciada de sonhos. Não foi imaginação, e nada decorrente de entusiasmo. Tudo indicou apenas um simples papo entre dois viajantes desconhecidos. Conversa que puxa outra, turbulência que gera afirmação sutilmente vazia, uma nuvem que passou naquela tarde ensolarada e dissolveu-se junto com os pensamentos. Nada mais, nada além de agradável passatempo de excursionista do tédio em cabina pressurizada.
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No entanto, após o desembarque, a despedida de minha companheira de viagem, o seu cinematográfico sumiço naquela multidão de rostos céleres do saguão central, tendo apenas como testemunha uma impessoal plataforma de passageiros que aguardam ansiosos aviões dos cantos mais remotos e outros que esperam aeronaves que aterrissam precipitadas e logo decolam novamente; a hora seguinte pareceu-me continuar sem terminação. Por fim, cheguei à minha casa, andei pela varanda, sentei num velho banco, levantei poucos minutos depois, fui à cozinha, parei diante da geladeira e das latas de conserva, olhando admirado tudo aquilo que já por mim há tempos era conhecido. O vôo tinha sido ainda agorinha... Mas parecia-me já anos a fio. Senti-me triste. Imediatamente preso por lembrança variante. Que tarde tão recente passada e por demais ausente da noite presente! Permaneci vago de coragem.
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Não recrimines, piloto de vôos buliçosos, este coração aéreo que é diferente de outras pontes deste mundo. Trajeto incrível! Julgo esta a maior viagem brasileira... E é tão curto este percurso que reaviva anseios, ao modo de grandes turbulências. Para mim não é necessário mais que uma única tarde para que o vento adentre com força aos cubículos pressurizados mais trancados.
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Contudo, abdiquei deste pensamento deleitoso; fechei cuidadosamente a porta da geladeira, o frescor da maçaneta da porta deixou uma cicatriz de saudade em minhas mãos contentes de há pouco.
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Deveras! Cochilo adorável a lembrança daquele vôo. No decorrer dos dias, a recordação fugia-me, aos pouquinhos... Nada mais eu via no aeroporto, nenhuma mensagem escrita em painéis de horários das aterrissagens e decolagens feitas por aeronaves indeterminadas que poderiam me devolver alguma esperança, nenhum recado surpreendente no balcão de check in, ninguém me aguardava na sala de espera; apenas aquela desgraçada plataforma impessoal percebia meus cálculos: “Faz uma semana daquele dia... faz quinze dias... faz um mês daquela tarde! E pouco a pouco fui me esquecendo da fisionomia daquela minha companheira de viagem, confundindo com a figura de outras moças, embaralhando a memória com outras conversas que, evidentemente, eram sem o mesmo sabor. O baixo teor de oxigênio em minha corrente sanguínea foi o saldo de uma hopoxemia, mas de fato era o coração que me apertava em incomensurável enigma e saudade... Que agitação tão nostálgica, um deleite!
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Ricardo Novais, autor dos livros O Boêmio (romance) e Trem Noturno (contos), ambos pela editora Bookess. Bloga em http://blogdoricardonovais.blogspot.com

8 comentários:

Paulo Laurindo disse...

Que te disse aquele linda, Ricardo? Que coisa foi essa que buliçou tantos dias?

Ricardo Novais disse...

Paulo, em realidade nada demais ela disse; prometeu apenas encontrar-me num lugar muito incerto, esperando por um vôo e outro, que fica entre o céu e a terra, quer dizer, entre a imaginação e a realidade; só a escrita conseguiu lá chegar. Desgraçada, penso tanto nela!

Um abraço, meu amigo.

Bruna Mitrano disse...

Ricardo, muito bom. Coisa que vez ou outra acontece. Eu lembro de um certo rapaz de all star amarelo. Enfim. Gosto de crônicas assim bem feitas que deixam no ar um "será?". Não importa se realidade ou ficção, se é tão real quando leio.

Um abraço.

Ricardo Novais disse...

Bruna, querida e talentosa escritora, uma de minhas contistas favoritas, que alegria ler este teu comentário - é que sou mesmo admirador de tudo que você escreve, desde os teus textos mais tocantes àquelas outras tuas histórias tão reflexivas; digo daquilo tudo escrito magnificamente por ti que chega a pressionar o coração e a própria alma do leitor.

Tornando aqui; você tem razão, Bruna. Embora seja difícil encontrar os personagens que interpretem minha ficção compulsiva e neurótica, a realidade está sempre a um passo de acontecer - e, às vezes, por puro deboche da vida, acontece de fato...

Um grande abraço, moça.

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* Aproveito para agradecer os editores d'O Bule, este fantástico espaço de literatura, por publicarem o texto, tão pueril este escrito despretensioso... A gentileza e a generosidade de vocês só não é maior que a maravilhosa criação literária que todos vocês produzem aqui, em seus outros espaços virtuais que também acompanho, em antologias e livros. Meus caros, muito obrigado!

Um abraço a todos.

mosaicosocial disse...

Dr. Ricardo,

Que texto! Mais que tirar o fôlego, causou-se a mesma hipoxemia ao lê-lo, corrigiu-me a enfermeira gêmea, minha irmã.

Mas, disse eu e alea, deve certamente ter sido o efeito da própria ainda reverberando em sua cabeça ao traçar estas belas e memoráveis linhas. Linhas que ficarão em minha memória para sempre.

Que lindo conto. Se este comentário lhe valer um título de melhor texto neste espaço-etéreotempodablogosfera, que você seja merecedor do prêmio. Porque, depois de você ter-me eleito a 'desgraçada', só posso lhe dizer que... o efeito de sua leitura não poderia ser outro senão... nostalgia.

Ricardo Novais disse...

Ora, minha querida Vany, se todos os meus sonhos são nostálgicos daquilo que não vivi... Não te elegerias desgraçada, porque desgraçada é minha memória; elegeria você "garota perigosa".

Ah, não conheço este tal prêmio; é de mídias sociais? Se o prêmio for tão efêmero quanto os meus escritos, será justo. Hahaha.

Um beijo pra você, moça bela e... perigosa.

Bruna Maria disse...

Olá, Ricardo! Vim te ler aqui, e olha o que encontro...

Belíssimo texto! Como instantes e detalhes são capazes de pôr em rebuliço as nossas rotinas, não? Uma voz, um rosto, um encontro... algo que gruda e fica com a gente, fazendo com que o que nos era antes comum, passe a ser visto ou sentido com outros olhos/sentidos.

Um abraço!

Ricardo Novais disse...

Oi, Bruna, obrigado! Pequenos detalhes surgem nos instantes triviais, muitas vezes nem nos damos conta do que acontece ao nosso redor, né?

Um abraço.